País pode administrar conversas com países e criar protocolos sem precisar da aprovação da potência A ou B, com diálogo fluído
2 de outubro de 2026, às 15:00
Por Karla Spotorno, correspondente
O Brasil tem tudo para se tornar uma “Suíça verde”. Há competência técnica, competitividade em eixos globais estratégicos como segurança alimentar e minérios, a matriz elétrica é limpa e de baixo custo relativo. A visão é de José Pugas, CEO no País da gestora Finance in Motion, que está se chegando ao Brasil. A meta da operação brasileira é alcançar US$ 3 bilhões sob gestão em 2030, quando a gestora focada em blended finance e investimento de impacto almeja ter dobrado de tamanho e chegado a US$ 10 bilhões.
“Somos uma economia grande, complexa, sofisticada e digital. Quantos países são assim? O Brasil tem tudo para ser uma Suíça verde”, diz o executivo da gestora com sede na Alemanha e escritórios em nove países.
Pugas, ex-JGP e ex-Régia, afirma que a condução da agenda climática mudou nos últimos anos, haja visto a presidência brasileira da COP30, a conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre mudanças climáticas. Para ele, acabou a fantasia do consenso amplo, o que mostra amadurecimento e a urgência do debate. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Broadcast – Qual sua avaliação da agenda climática do Brasil e como está sendo desenvolvida, haja vista que a presidência da COP segue com o País até novembro, quando começa a COP31?
José Pugas – Estamos vivenciando no debate climático, como em outras áreas, uma certa descontinuidade da premissa da unanimidade. Acabou a fantasia do consenso, o que faz parte do amadurecimento de algumas discussões. Começamos a perceber que nem todos precisam concordar com tudo para que algo comece a ser feito. A fantasia do consenso pós-guerra, que sustentou as instituições, como a ONU, que temos de respeitar, enfraqueceu nesse momento em que a democracia como destino líquido e certo da humanidade passa a ser questionada. Vivemos um momento em que começa a ser questionada a certeza que tínhamos que alguns fantasmas da Segunda Guerra haviam sido vencidos e que nunca mais voltariam. Na diplomacia climática, já percebemos que não temos mais tempo. Já estamos no overshoot. A meta de limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius já não é mais possível. Vamos ter de conviver com 2 graus, 2,5 graus e torcer para não passar disso. Então, o momento é de trabalhar com quem quer e ficar esperando.
Broadcast – É um movimento de juntar as forças convergentes, como fez a presidência da COP30 diante do impasse sobre combustíveis fósseis no ano passado. A presidência brasileira estabeleceu uma meta própria de manter o assunto na agenda mesmo sem os países terem chegado a um consenso em Belém.
Pugas – Exatamente. A busca de consenso não estava funcionando. Além disso, começa a ficar clara a emergência de médias potências nesse debate e com uma presença muito forte no debate multilateral, como Austrália, Cingapura, Coreia do Sul e até mesmo o Brasil, Colômbia, México. O Brasil pode administrar uma conversa com esses países, criar protocolos sem precisar da aprovação da potência A ou B. O diálogo começa a ficar mais fluido. E o Brasil acaba se destacando muito nisso.
Broadcast – Como o mercado financeiro brasileiro tem evoluído nesse contexto de diplomacia e finanças climáticas? Ainda é forte aquela dicotomia entre sustentabilidade e finanças?
Pugas – Um relatório [publicado em setembro] da Climate Policy Initiative, sobre fluxo de capital para iniciativas de adaptação e clima na América Latina mostrou que o Brasil é muito financiado pelo setor privado e de forma doméstica, diferentemente dos outros países da região. Nós acreditamos, nós financiamos, nós mobilizamos capital privado. A exceção é o blended finance, no qual o Ecoinvest é destaque. De longe, é o melhor programa no mundo. Já outros países latino-americanos são dependentes de capital internacional e de recurso público.
Broadcast – O Brasil recebe pouco dinheiro estrangeiro e multilateral?
Pugas – Não é que tenha pouco dinheiro externo em volume. É que, proporcionalmente, tem muito capital local e privado. Estamos falando de mais de 80%. Essa é uma característica que é do Brasil. Somos ‘antropofágicos’. Acredito muito nesse manifesto da Arte Moderna. Já trouxemos o risco climático para dentro do debate das finanças. Quando falamos do El Niño, já naturalizamos o debate financeiro. E não é isso que sempre quisemos? Quando me perguntavam qual o futuro das finanças sustentáveis, minha resposta sempre foi virar finanças. Claro, ainda ouvimos questionamentos sobre um investimento sustentável ter prejuízo, mas eles têm sido menos frequentes. Também entendo que algumas coisas passaram a ser tratadas como negócios mainstream mesmo sendo sustentáveis. Um exemplo disso é biocombustível. Ninguém chama etanol de cana, etanol de milho de bioeconomia, mesmo sendo. O agronegócio é a mesma coisa. Se não tivéssemos a fixação biológica de nitrogênio, o plantio direto, a integração lavoura, pecuária e floresta, rotação de pastagem, de culturas, os resultados não seriam os que conhecemos. Isso é agricultura regenerativa. Temos de parar de ter medo do conceito e falar: o Brasil só é uma potência agrícola porque a abraçou, há três décadas, práticas regenerativas de produção. E agora que o mundo passa por um caos climático, o Brasil é um hub mais seguro para a produção agrícola, porque temos pesquisa, desenvolvimento, e sabemos fazer a gestão dentro da diversidade climática do nosso território, o que nos torna um país extremamente competitivo. Precisamos ressignificar.
Broadcast – Uma dificuldade é que o estrangeiro não entende a realidade brasileira. Não entende, por exemplo, que a raiz de uma planta no Brasil é maior e que, portanto, a captura de carbono é maior do que a espécie equivalente no exterior…
Pugas – O Brasil tem de aplicar o friend shoring [formar cadeias globais com parceiros aliados] em vez de uma negociação agressiva, mas precisa deixar claro que tem um mercado sofisticado, pesquisa, desenvolvimento. Agora, mais do que falar sobre isso para o resto do mundo, precisamos acreditar nisso. Acho que nada mudou mais profundamente o mindset brasileiro nos últimos dez anos do que o Pix. O Pix nos deu um sentimento muito grande de domínio tecnológico e de que estamos muito à frente dos outros.
Broadcast – Voltando à minha pergunta: qual sua avaliação sobre o mercado financeiro no Brasil, visto que investimento sustentável ainda é incipiente?
Pugas – Falando do mercado mainstream, onde estão os grandes bancos e assets, vemos uma mudança profunda com o Ecoinvest. Grandes bancos assumiram compromissos de investimento de elevada diligência socioambiental, alocando e desempenhando. Isso está demandando transformações profundas e institucionais, com mudança no capital humano interno, nos processos, nas capacidades de mobilização de capital internacional. Bancos internacionais devolveram o recurso porque não conseguiram alocar. Então ainda ouvimos que não tem projeto. Mas entendo que essa é a inércia de uma situação anterior, quando havia pipeline. Por que como os bancos brasileiros estão alocando tanto se não tem pipeline? São bilhões de reais já alocados. É preciso ter uma coisa clara: uma instituição só vai enxergar as oportunidades se tiver profissionais da área. Uma instituição com uma área especializada em infraestrutura terá engenheiros que vão identificar melhor as oportunidades. Uma instituição financeira genérica vai entender só as oportunidades muito óbvias.
Broadcast – Mas essa especialização tem um custo para as instituições financeiras. São poucos os bancos brasileiros que contrataram meteorologistas, por exemplo.
Pugas – Vejo instituição financeira que gasta mais com efeitos do que com os riscos climáticos. No momento em que as perdas do Super El Niño ficarem superclaras, acho que não vai faltar emprego para climatologista no ano que vem.
Broadcast – Quando o assunto é blended finance, quero entender a importância da filantropia. Esse tipo de operação ainda depende muito desse tipo de bolso?
Pugas – Esse capital paciente está cada vez menor. Então, não podemos ter uma dependência de fontes de capital paciente, de multilaterais, públicos e filantrópicos. É preciso focar em dois fatores. Uma é a eficiência alocatícia, ou seja, como eu o capital catalítico de forma mais eficiente e o que ele consegue mobilizar de capital privado. Uma segunda tendência é buscar fontes de capital catalítico menos óbvias, como as empresas, algo impossível de se pensar antigamente. Mas isso mudou a ponto de o quinto leilão do Ecoinvest ter reduzido a exigência de “5:1” para “2:1” [ou seja, para R$ 1 de recurso público, o leilão exige R$ 2 de recurso privado].
Broadcast – Quais são as avenidas de crescimento da Finance in Motion no Brasil?
Pugas – O escritório no Brasil vai ser focado em produtos para o Brasil. Historicamente, a gestora tem uma tradição de estar muito próxima das políticas públicas. No Brasil, temos o Ecoinvest, o Plano de Transição Ecológica, a Nova Indústria.
Broadcast – O Ecoinvest vai ser uma avenida de crescimento para a gestora?
Pugas – Vai ser uma bússola. Como avenidas, vamos olhar com muita atenção produção regenerativa, agroflorestas, SAF. Temos olhado também setores estratégicos para o mundo em que o Brasil se destaca: minério, alimento, energia e digital. O Brasil tem abundância de energia de baixo custo renovável. Temos um capital humano extremamente qualificado. E o Brasil é um usuário de tecnologia muito forte, com Pix, nota fiscal eletrônica, economia muito digitalizada. Somos uma economia grande, complexa, sofisticada e digital. Temos uma indústria forte, uma regulação forte, com Banco Central e CVM [Comissão de Valores Mobiliários] autônomos. Quantos países são assim? O Brasil tem tudo para ser uma “Suíça verde”.
Broadcast – Quais as metas para os próximos anos?
Pugas – Nossa intenção é alcançar US$ 1,5 bilhão sob gestão em 2027 e US$ 3 bilhões em 2030 numa carteira com ativos de dívida e de equity. Queremos ter um nível de inovação grande, então não ignoro possibilidades como ETFs e tokens. Queremos contribuir para novos arranjos financeiros. Nossa ideia é que o Brasil responda por 30% da operação global até 2030. Para esse ano, a meta global da gestora é dobrar de tamanho e chegar a US$ 10 bilhões.
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