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A economia na rota de um El Niño extremo

Fenômeno apresenta anomalias térmicas que superam 3°C em trechos do oceano, enquanto águas subsuperficiais estão mais de 8°C acima da média

2 de outubro de 2026, às 15:00

Crédito: Envato

Por Guilherme Nanini

O próximo risco para a economia pode estar escondido na temperatura do Pacífico. O El Niño ganhou força e começa a entrar na planilha de riscos de empresas, governos e setores inteiros da economia. Com temperaturas em níveis históricos e a perspectiva de um fenômeno excepcional, o “menino”, batizado assim por pescadores peruanos por surgir próximo ao Natal, pode deixar uma conta bem menos lúdica: secas, tempestades, incêndios e ondas de calor capazes de atravessar fronteiras e afetar cadeias produtivas.

O fenômeno que se desenha para o fim de 2026 já apresenta números fora do padrão. As anomalias térmicas superam 3°C em trechos do oceano, enquanto as águas subsuperficiais estão mais de 8°C acima da média. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) e a Organização Meteorológica Mundial (OMM) apontam mais de 90% de probabilidade de um El Niño “muito forte” no outono e inverno do Hemisfério Norte, além de 75% de chance de o aquecimento atingir níveis históricos entre outubro e dezembro.

Medições por satélite projetam picos de até 3,6°C no Pacífico Central, o que, se confirmado, superaria em até 0,8°C o El Niño de 2015/2016. Para Pedro Roberto Jacobi, da USP, a intensidade crescente dos episódios recentes reforça que o fenômeno está mudando de patamar. Segundo ele, estudos publicados na revista Science indicam que os El Niños das últimas quatro décadas foram, em média, 36% a 40% mais intensos do que os registrados nos mil anos anteriores. A mudança climática, diz o pesquisador, tende ainda a tornar mais frequentes eventos que antes ocorriam em intervalos maiores.

Um gigante alimentado pela atmosfera

Por trás da força do fenômeno está o calor acumulado no sistema climático. O climatologista Carlos Nobre explica como a energia retida nos oceanos funciona como combustível para o El Niño e ajuda a explicar a dimensão que o “menino” pode alcançar.

“A atmosfera e os oceanos agora têm muito mais energia. Os gases de efeito estufa retêm a radiação infravermelha e os oceanos absorvem 85% dessa energia, aquecendo a superfície. Quando a temperatura da água passa de 26,5°C, a evaporação aumenta e esse vapor d’água libera calor latente ao condensar nas nuvens. Esses dois fatores colocam muito mais energia na atmosfera, fazendo todos os eventos meteorológicos e climáticos baterem recordes.” Segundo análise do climatologista, o aquecimento global, agora, faz aparecer El Niños mais fortes e mais frequentes.

Com essa máquina térmica do planeta desregulada, o fenômeno não atua de forma isolada, mas gera um efeito dominó sobre o clima global. O meteorologista e consultor climático Francisco de Assis lembra que a persistência das temperaturas elevadas por longos períodos é o fator determinante para classificar este episódio como o maior da história recente.

“Se o aquecimento no Pacífico Equatorial se mantiver por mais de três meses em um patamar de 2,7°C a 3°C acima da média, ele vai ser maior do que o de 2015/2016. Os efeitos devem ir pelo menos até fevereiro de 2027, afetando o Sul, a parte central do Brasil e a Região Norte”

O rastro de estragos de Norte a Sul

No Brasil, o contraste regional deve ser acentuado. O Sul pode enfrentar excesso de chuva e tempestades, enquanto Norte, Nordeste e Centro-Oeste ficam mais expostos à estiagem e ao calor extremo. Para José Marengo, do Cemaden, a combinação de seca e ondas de calor aumenta o risco de incêndios na Amazônia e no Pantanal.

“Nossa preocupação é que, com este El Niño, possa vir, além da seca hídrica, a ocorrência de ondas de calor. Essa combinação é letal e aumenta exponencialmente o risco de fogo na Amazônia e no Pantanal.”

O impacto, porém, não está determinado apenas pela força do fenômeno. Marengo destaca que a prevenção e a redução de vulnerabilidades podem alterar a dimensão dos danos. Francisco de Assis cita a evolução da preparação das cidades para eventos extremos como sinal de adaptação: segundo ele, experiências anteriores ajudaram a aprimorar as ferramentas de resposta. O El Niño, assim, testa não apenas a capacidade de prever o clima, mas também a de se preparar para seus efeitos.

Segundo ele, a partir de agora, o El Niño deixou de ser apenas um fenômeno climático e passou a ser um fenômeno socioeconômico, que afeta a energia hidrelétrica, a logística, o transporte de produtos e a saúde pública. Marengo ressalta, no entanto, que o grau dos estragos não é um destino sem volta, mas depende da capacidade de prevenção dos governos. “O desastre não depende só da parte do clima; depende da preparação e da redução das vulnerabilidades. Estamos vendo governos mais ativos antes do El Niño do que em anos anteriores. Cada evento é um aprendizado”, pondera o cientista.

Essa visão sobre o avanço na adaptação das cidades é compartilhada por Assis. O meteorologista aponta que a sociedade desenvolveu ferramentas de resposta mais eficientes.

“Hoje o mundo vem se preparando mais para os eventos extremos. Em 2003, as ondas de calor na Europa causaram mais de 11 mil mortes; este ano, com calor semelhante ou mais forte, foram 1.300 mortes. As cidades e a população estão mais preparadas devido à experiência acumulada com episódios anteriores. A vulnerabilidade vem diminuindo por conta dessa adaptação”.

Perigos

Para o agronegócio, um dos principais setores da economia brasileira, o fenômeno impõe desafios complexos ao planejamento das lavouras. A irregularidade das chuvas pode comprometer o plantio da soja e reduzir a janela da safrinha de milho e algodão.

O manejo, segundo Jacobi, deve ser diferenciado de acordo com as disparidades regionais, a fim de conter os efeitos do El Niño. “No Sul, o excesso de chuva e a umidade extrema reforçam a proliferação de doenças fúngicas nas plantas, exigindo uma agenda de monitoramento eficiente, desobstrução de canais de drenagem e conservação do solo coberto para reduzir a erosão pelas enxurradas. No Norte, Nordeste e no Matopiba, o desafio é o oposto: conservar cada gota d’água. É crucial seguir o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), optar por cultivares mais tolerantes à seca e utilizar inoculantes biológicos que ajudam a reter água nas raízes”, orienta Jacobi.

Para Carlos Nobre, uma das respostas de longo prazo está na agricultura e na pecuária regenerativas, capazes de tornar a produção mais resistente a extremos climáticos. “Quando a produção agrícola está integrada ao bioma e ao ecossistema, o solo retém a água em episódios de chuva excessiva, impedindo a destruição das culturas. Essa combinação protege as lavouras contra ondas de calor e secas severas.”

Com efeitos que podem se estender até os primeiros meses de 2027, o El Niño coloca o clima no centro de decisões que vão muito além da meteorologia. Defesa civil, infraestrutura urbana e agronegócio terão de lidar com uma combinação de extremos que aumenta a pressão por adaptação e planejamento. A questão, agora, é transformar essa previsão em capacidade de resposta.

Contato: guilherme.nannini@estadao.com

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