Empresa amplia aposta no Brasil, da mobilidade elétrica a novas frentes de energia e próximo desafio é conectar a expansão das renováveis à rede
25 de setembro de 2026, às 15:17
Por Ana Paula Machado
Mais de um século depois de fornecer equipamentos para o Bondinho do Pão de Açúcar, seu primeiro projeto no Brasil, a multinacional suíça ABB mira agora uma nova fronteira da eletrificação: a mobilidade. Conhecida pela automação em fábricas, com robôs em linhas de montagem, a companhia criou uma área dedicada aos carregadores de carros elétricos e já soma mais de 500 equipamentos de carga rápida e mais de 5 mil de corrente alternada no País. O movimento, porém, vai além dos carros
Em entrevista à Broadcast Weekend, o Country Holding Officer (CHO), Luciano Nassif, o Country Holding Officer da ABB, Luciano Nassif, lembra que o segmento de energia é o maior negócio da companhia no mundo e responde por cerca de 50% do faturamento. Segundo ele, o Brasil está entre as grandes frentes de crescimento da empresa, que enxerga oportunidades em data centers, hidrogênio verde, fertilizantes, transmissão e armazenamento de energia.
O desafio agora é fazer essa energia chegar onde precisa. Nassif afirma que, após o “boom do mercado de renováveis, solar, eólica”, o principal gargalo está em “na área de transmissão” e no desperdício associado ao “curtailment”. “Esse é o grande passo que o Brasil tem que conectar toda essa geração no grid, diz, para que a energia fique “mais barata, mais competitiva”. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Broadcast: Como o senhor descreve a atuação da ABB no Brasil e quais são os planos para energia nos próximos anos?
Luciano Nassif: A ABB está super conectada com essas grandes tendências que temos visto mundo afora e tem como eixo toda a eletrificação e a transição energética. Trabalhamos para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Acreditamos que a capacidade global de eletrificação duplique em até 10 ou 15 anos. Nesse cenário, combinamos a eletrificação e automação e temos como propósito promover um futuro mais sustentável e mais eficiente no uso dos recursos do planeta.
Broadcast: Onde a ABB está posicionada nesse movimento de transição energética?
Nassif: A eficiência energética deixou de ser apenas pauta de sustentabilidade e virou um fator competitivo. A ABB opera com três grandes áreas: eletrificação; automação (para indústrias como papel, mineração, óleo e gás, com soluções e analisadores); e motion, que reúne motores elétricos e os nossos acionamentos. A lógica do nosso portfólio é que a melhor energia é aquela que não consumimos.
Broadcast: E o Brasil, como se insere nesse novo contexto? Quais as oportunidades e desafios?
Nassif: Acompanhamos, desde 2014, o boom do mercado de renováveis, solar, eólica, vemos que o País tem hoje uma matriz elétrica fantástica. Mas temos um gargalo que precisa ser resolvido, e ele é estrutural: a conexão de toda essa geração à infraestrutura de transmissão. O curtailment (corte de geração) é uma perda grande, um desperdício de toda essa energia. Então, o próximo passo como País é arrumar a casa e conectar toda essa geração no grid para que o Brasil tenha uma energia mais barata, mais competitiva.
Broadcast: E onde a ABB entra nessa agenda de transmissão e integração das renováveis?
Nassif: A ABB participa com soluções de média tensão e com automação, inclusive para hidrelétricas. Hoje, já não temos mais a área de turbinas. Isso foi um negócio da ABB muito tempo atrás, mas fornecemos equipamentos e sistemas para diferentes aplicações industriais e de infraestrutura, como motores industriais, sensores e acionamentos. Já ajudamos a gerar 30% de economia de energia. A nossa produção está localizada em Sorocaba, mas parte dos equipamentos que disponibilizamos no mercado é importada. No ano passado, começamos um trabalho específico para motores de baixa tensão produzidos no Brasil, via parceria, com transferência de tecnologia e terceirização de infraestrutura.
Broadcast: Mas, a operação brasileira é a maior da América Latina e é por aqui que atende os outros países?
Nassif: Depende do tipo de negócio, mas a planta de Sorocaba, que produz equipamentos de média tensão, atende a América Latina. Essa fábrica reúne diferentes linhas, além de média tensão, a de retificadores, além de montagem de painéis e testes para indústrias de processo. Olhando a ABB como um todo, cerca de 85% da produção é destinada ao mercado local e 15% é destinada à exportação, variando conforme os projetos. Temos como destinos o Chile, Peru e Colômbia, além do Caribe e da América Central.
Broadcast: Quanto a ABB investe no País? Há algum plano de investimentos?
Nassif: Não há uma destinação dos recursos por país ou operação. Estamos dentro da área chamada Américas, que engloba Estados Unidos, Canadá, México também. Mas temos em nosso DNA a inovação. Para se ter uma ideia, a companhia tem mais de 22 mil patentes registradas no mundo. É bem expressivo. Um outro exemplo é que só no ano passado a ABB investiu cerca de US$ 1,3 bilhão em pesquisa e desenvolvimento no mundo. São quase 8 mil profissionais dedicados a centros de pesquisa e desenvolvimento. E um deles está aqui no Brasil, que é um centro de desenvolvimento de automação para o mercado de mineração.
Broadcast: Como está a estratégia de aquisições?
Nassif: A ABB tem situação financeira bastante positiva, com nível de alavancagem super baixo, e buscamos crescimento inorgânico quando fizer sentido para o portfólio. O Brasil é um país estratégico para a ABB. Estamos aqui desde 1912, com o primeiro fornecimento para o Bondinho do Pão de Açúcar, com equipamentos de média tensão.
Broadcast: Armazenamento de energia e leilão de baterias: vocês podem participar do processo?
Nassif: A ABB não fornece a bateria em si, mas entramos com os equipamentos de média tensão que compõem a solução. Por isso, discutimos com parceiros como participar do leilão como fornecedora para integradores. Esse processo é mais um mercado novo em que podemos ajudar a aproveitar melhor a energia gerada no País.
Broadcast: Já há uma definição se há necessidade de investimentos para atender essa área? Ou a fábrica tem capacidade instalada para atender?
Nassif: Não, ainda não temos um estudo definido. O investimento adicional vai depender da demanda.
Broadcast: Quais são os principais vetores de crescimento que vocês enxergam no Brasil?
Nassif: Bom, o País tem algumas frentes que consideramos como avenidas de crescimento: data center, armazenamento de energia, hidrogênio verde, transmissão, mobilidade elétrica e o segmento de fertilizante. A digitalização e a inteligência artificial também ampliam a demanda por eletricidade e eficiência.
Broadcast: Mas como essas áreas poderiam contribuir para o crescimento da empresa?
Nassif: Temos uma oportunidade enorme que é o hidrogênio verde, que temos acompanhado muito de perto como sendo mais uma fonte de energia que pode ser introduzida na nossa matriz. E temos os retificadores, todo o sistema de automação, os produtos de média tensão. E podemos incluir tudo isso dentro de uma planta dessa. Então tem um pipeline enorme para o mercado de hidrogênio. Acabaram de aprovar o marco do hidrogênio de baixo carbono e temos que ir para a próxima etapa, que é definir aí as regras. O mercado de fertilizantes também é algo enorme, pois o Brasil importa mais de 80% do consumo. Acompanhamos empresas que estão trabalhando para estabelecer uma planta aqui. E podemos fornecer produtos de média tensão, toda a parte de automação.
Broadcast: Como a ABB participa da eletromobilidade?
Nassif: Temos carregadores para veículos elétricos. Hoje, temos mais de 500 carregadores DC (carga rápida) e mais de 5 mil carregadores AC (corrente alternada) no Brasil. Mas são equipamentos importados. Fizemos uma parceria com a rede Graal e outra com a Porsche para instalar carregadores em alguns pontos no País. Para o transporte público, temos soluções no exterior, mas no Brasil o grande desafio é a infraestrutura ainda e a necessidade de média tensão para levar energia às garagens. Além disso, somos patrocinadores da Fórmula E e fornecedores dos carregadores elétricos, que são diferentes dos equipamentos de rua por exigirem carga rápida. Essa ação funciona como um grande laboratório de tecnologia, com avanços que acabam migrando para veículos comerciais.
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