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Dono de Downing Street

Em Londres, governos caem, líderes se desgastam, mas uma figura parece imune às crises. Saiba mais sobre Larry.

18 de maio de 2026

Por Isabella Pugliese Vellani e Pedro Lima

Em Londres, governos caem, líderes se desgastam e partidos entram em guerra civil. Mas há uma figura em Downing Street que parece imune às crises políticas britânicas: Larry, o gato.

Enquanto o primeiro-ministro Keir Starmer enfrenta talvez seu momento mais delicado desde que chegou ao poder, com ministros abandonando o gabinete, deputados trabalhistas pedindo sua renúncia e possíveis rivais se movimentando para derrubá-lo, o verdadeiro veterano do número 10 da Downing Street, sede do governo britânico, segue no cargo sem demonstrar qualquer preocupação institucional: cochilando perto do aquecedor, atravessando fotos oficiais e observando a troca de humanos no comando do Reino Unido.

Larry completou neste ano 15 anos como Chief Mouser to the Cabinet Office, o ratoeiro-chefe do gabinete britânico, título oficial que ocupa desde fevereiro de 2011. Desde então, ele já viu passar seis primeiros-ministros: David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss, Rishi Sunak e agora Starmer.

Dependendo do desfecho da crise atual, pode em breve receber o sétimo.

Starmer enfrenta uma rebelião aberta dentro do Partido Trabalhista após o desempenho desastroso da legenda nas eleições locais. O ministro da Saúde, Wes Streeting, deixou o governo afirmando ter perdido a confiança na liderança do premiê. Angela Rayner elevou o tom publicamente. E o prefeito da Grande Manchester, Andy Burnham, já se movimenta para retornar ao Parlamento e disputar o comando do partido. Tudo isso acontece menos de dois anos após a vitória eleitoral trabalhista de 2024.

Para Larry, porém, trata-se apenas de mais uma troca potencial de inquilino.

O gato chegou a Downing Street em 2011, adotado do abrigo Battersea Dogs & Cats Home pelo então premiê David Cameron, depois que ratos começaram a aparecer diante das câmeras de TV nos corredores do governo britânico. Oficialmente, segundo o perfil do governo britânico, suas funções incluem recepcionar convidados, inspecionar as defesas de segurança e testar móveis antigos para verificar a qualidade dos cochilos, .

Na prática, Larry virou uma instituição nacional. Ele já invadiu fotos de chefes de Estado, cochilou embaixo do carro blindado de Donald Trump durante visita oficial aos britânicos em 2019 e protagonizou pequenas rivalidades felinas nos corredores do poder. Também desenvolveu uma reputação curiosa: aparentemente tende a simpatizar mais com alguns líderes, como Barack Obama, do que com outros. E isso é algo que os britânicos tratam quase como indicador político informal.

A própria existência do ratoeiro-chefe ajuda a explicar uma peculiaridade britânica: a mistura entre solenidade institucional e humor involuntário. O cargo existe formalmente há séculos, embora Larry tenha sido o primeiro a receber oficialmente o título. Há registros de gatos trabalhando nos corredores do poder britânico desde os tempos do cardeal Thomas Wolsey, no reinado de Henrique VIII. Mas nenhum virou símbolo político como Larry.

Talvez porque nenhum tenha atravessado um período tão caótico da política britânica moderna. Desde que o gato apareceu, o Reino Unido realizou o referendo do Brexit, trocou repetidamente de liderança conservadora, viu Liz Truss durar apenas 49 dias no cargo e retornou ao comando trabalhista após 14 anos. Mesmo assim, Larry seguiu como presença permanente atrás da famosa porta preta do número 10.

À medida que a pressão sobre Starmer atinge o ponto de ruptura e os bastidores apontam para uma sucessão inevitável, Westminster se prepara para uma nova era. Na sede do governo, a rotina de Larry não deve mudar muito. Resta saber se o felino irá gostar. No jogo do poder britânico, o veredito do veterano de quatro patas costuma ser o mais duradouro.

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