A Highway 101, rodovia em São Francisco, virou vitrine de produtos de tecnologia
10 de julho de 2026
Aramis Merki II
Não faz muito tempo viralizou um joguinho online chamado GeoGuessr. A brincadeira consiste em tentar localizar no mapa-múndi o lugar retratado numa fotografia aleatória. Uma rodovia em um lugar ermo geralmente é dos desafios mais difíceis. Uma dica de jogador experiente: buscar os outdoors.
Dito isso, caso aparecesse uma imagem atual da Highway 101, rodovia que liga São Francisco, na Califórnia, às outras cidades do Vale do Silício, o jogador iria se deparar com propagandas de startups de inteligência artificial.
O jornal San Francisco Chronicle fez um levantamento, no segundo trimestre deste ano, e concluiu que metade dos painéis publicitários da região anunciava aplicativos, softwares ou ferramentas de IA.
As mensagens são difíceis de decifrar para quem não trabalha em tecnologia. Está certo, a região é o epicentro das empresas que estão moldando a Era Digital em que vivemos. Mas os redatores vão fundo nos jargões. E o objetivo não é massificar o conhecimento das marcas anunciadas. O foco é específico nos executivos e engenheiros que trabalham por lá.
A linguagem hermética é uma estratégia do chamado “ingroup marketing“. Quando um outdoor na 101 anuncia “gestão de tokens” ou “latência de inferência” sem qualquer tradução para o leigo, a empresa não está falhando em se comunicar – está falando exatamente com quem interessa. Quem decodifica aquela mensagem pertence exatamente ao grupo que importa, o que aprova os orçamentos para IA ou utiliza as ferramentas nas empresas. Para os meros mortais da cidade, ficam os anúncios cifrados.
Há quem considere que os outdoors formam um traço de personalidade coletivo de uma cidade. Nova York, moda e finanças; Los Angeles, entretenimento. Em São Francisco, por ora, é a infraestrutura de IA. Se as localidades têm “personalidade”, esse léxico próprio nos painéis também é sintoma de um certo caráter de segregação da cidade – a mesma que hoje se notabiliza por aluguéis altíssimos, inflados justamente pelos trilhões injetados na indústria de IA.
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