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Inverno da fome ou do frio

Na semana, passada o contrato futuro de gás natural ultrapassou a barreira dos 75 euros/MWh, nível mais alto desde janeiro de 2023

9 de setembro de 2026

Fábio Alves

O próximo inverno na Europa deve apresentar um dilema dos mais cruéis para a população de baixa renda e até da classe média: passar frio ou passar fome. As autoridades de vários países europeus já estão alertando para a disparada nas contas de energia elétrica em razão de preços elevados de gás natural.

Na semana passada, a cotação do valor do contrato futuro de maior liquidez de gás natural europeu subiu mais de 8%, fechando a 72,50 euros por megawatt/hora (MWh), mas, no meio da semana, chegou a ultrapassar a barreira dos 75 euros/MWh, nível mais alto desde janeiro de 2023.

O culpado do salto nas cotações do gás natural europeu na semana passada foi a guerra no Irã, com a volta dos ataques militares dos Estados Unidos, o que levou ao fechamento do Estreito de Ormuz. No encerramento do pregão da sexta-feira passada, o preço do petróleo Brent, por exemplo, foi negociado a US$ 92,68, com alta de 7,6%.

É verdade que os países ao longo do Estreito de Ormuz são responsáveis por 20% das exportações de gás natural liquefeito (GNL), mas o recrudescimento no conflito no Oriente Médio não foi o único motivo para o alerta das autoridades europeias em relação ao aumento nas contas de luz dos consumidores no inverno que se aproxima: os baixos níveis dos reservatórios de gás natural nos países da União Europeia. Sem reservatórios em níveis adequados, o preço do gás natural poderá subir se houver qualquer interrupção na oferta, seja o cenário geopolítico, seja falhas na distribuição da rede de gasodutos ou até por um evento climático adverso.

Conforme dados da Gas Infrastructure Europe (GIE), associação que reúne as empresas que operam a infraestrutura de distribuição de gás natural na Europa, como os proprietários de tanques de armazenamento e de gasodutos, até o último dia 1º de setembro, as instalações europeias de armazenamento subterrâneo de gás natural registravam 65,4% de sua capacidade. Esse nível é mais de 16 pontos porcentuais abaixo da média dos últimos cinco anos e o mais baixo para essa data desde o início da série histórica, em 2011.

Há um ano, os estoques estavam em 77,4% da capacidade. Desde o início de abril, cerca de 40 bilhões de metros cúbicos de gás foram injetados nas instalações de armazenamento europeias, correspondendo a apenas 59% do volume necessário para o próximo inverno.

Segundo estimativas de analistas, se esse ritmo for mantido, os estoques poderão atingir somente entre 70% e 75% da capacidade até o início da “heating season”, que é a temporada de aquecimento dos lares, escritórios e outras instalações, quando as temperaturas caem, geralmente em meados de novembro.

Não por acaso, em razão do fechamento do Estreito de Ormuz, afetando a oferta global de gás natural liquefeito, e também do baixo nível dos reservatórios de GNL na Europa, vários analistas revisaram para cima suas projeções para a cotação do contrato futuro de gás natural europeu. A consultoria Capital Economics, por exemplo, prevê que o preço do contrato do gás natural europeu termine 2026 em 80 euros/MWh. Se confirmada essa projeção, o preço atingiria seu maior nível em quatro anos. Ou seja, os europeus terão pela frente um inverno amargo.