Setor elétrico tem um "telefone vermelho" para chamar de seu
19 de setembro de 2026
Existe no setor elétrico brasileiro uma espécie de “Telefone Vermelho”. Longe de ser um canal direto para evitar a escalada de um conflito para nível nuclear, como ficou conhecido o sistema de comunicação entre Kremlin e Casa Branca durante a Guerra Fria, a linha exclusiva nacional serve para um contato rápido e emergencial entre o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e centrais de operação das transmissoras de energia elétrica.
O objetivo é justamente “desarmar a bomba” que pode se formar com desligamento de uma linha de transmissão ou um equipamento dentro de uma subestação, tentando evitar que o problema escale para um apagão de grandes proporções dentro do Sistema Interligado Nacional (SIN).
“É o telefone que a gente não quer que toque porque, quando toca, pode ser algum problema”, disse o diretor Técnico da Taesa, Luiz Alves, durante visita de um grupo de jornalistas à subestação Assis, no interior de São Paulo, no início de setembro.
Enquanto o “telefone vermelho” da Guerra Fria (que na verdade não era um aparelho telefônico, mas uma máquina de teletipo – telex) evoluiu para sistemas mais modernos e tecnológicos de comunicação, no setor elétrico brasileiro o sistema segue utilizando o bom e velho telefone. Alves garante que a comunicação é eficaz e extremamente rápida.
O telefonema apenas complementa o monitoramento que tanto ONS quanto as transmissoras realizam, em tempo real, dos sistemas de transmissão que se estendem por quilômetros de extensão em todo o País. Em caso de sinal de alerta acionado nas telas da central do Operador e da concessionária, o telefone entra em ação.
Nos centros de operação das transmissoras há maior detalhamento na vigilância e controle dos sistemas, com redundância regional das atividades para minimizar problemas de retomada em caso de desligamentos ou problemas mais graves.
Pelas regras estabelecidas pelo ONS e pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), após a queda de uma linha ou equipamento, a transmissora tem 1 minuto para disponibilizar novamente o ativo para operação. Caso esse prazo não seja cumprido, a companhia está sujeita a penalidades que envolvem um valor correspondente a 150 vezes a receita que a empresa receberia, o chamado Fator K150. Segundo Alves, da Taesa, existem ativos em que o desligamento custa R$ 150 mil por minuto.
Em um segmento conhecido por ser uma espécie de “renda fixa”, uma vez que as concessões de transmissão têm uma Receita Anual Permitida (RAP) definida por prazo contratual superior a duas décadas, reajustada pela inflação, um desvio no recebimento por falta de eficiência operacional da concessionária pode penalizar a rentabilidade do projeto, morder as margens da companhia e, no limite, prejudicar os gordos dividendos das transmissoras. Isso sem contar no potencial prejuízo para os consumidores eventualmente afetados.
Nem todo desligamento de linha ou subestaçãos provoca apagões. O Sistema Interligado Nacional (SIN) trabalha com o conceito de redundância em seus principais ativos, uma arquitetura que garante que a operação siga , em grande medida, em em andamento mesmo em caso de problemas em algum equipamento ou linha, de forma a reduzir o impacto para a população.
Mas não foi o que ocorreu em 2020, no Amapá, quando uma explosão em uma subestação deixou 14 dos 16 municípios do Estado quase quatro dias sem energia e outros vinte dias com racionamento. Transformadores que deveriam servir de backup não estavam disponíveis. Também não havia uma segunda linha de redundância conectado o Estado ao SIN. A concessionária levou uma multa milionária pelos problemas na subestação e acabou vendendo o ativo. Dois anos depois o governo federal leiloou o projeto de uma segunda linha, para garantir que o problema não se repetisse.
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