Os pandas prometidos por Xi Jiping já estão nos EUA, mas produtores de soja ficam fora da lista da boa vontade de tarifas reduzidas
28 de setembro de 2026, às 15:44
Foi uma boa semana para quem gosta de urso. Ontem, antes das 7h, um Boeing 777 da FedEx decolou de Chengdu, no sudoeste da China, e pousou em Atlanta, capital da Geórgia, com Ping Ping e Fu Shuang, dois pandas que a China empresta aos Estados Unidos por dez anos. Xi Jinping tinha anunciado a remessa na quinta-feira, na Casa Branca. Prometido, entregue, com quarentena de um mês.
Panda não é presente qualquer. A China é dona de todos e há décadas os empresta como gesto de aproximação. Xi chamou o panda de enviado da amizade entre os dois países. Os últimos de Atlanta tinham voltado para a China em 2024.
Nem tudo o que os americanos esperavam de Xi cabia num avião. Os produtores de soja esperavam uma tarifa menor. A China ficou meses sem comprar da nova safra americana na guerra de tarifas com Donald Trump e, nesse intervalo, o Brasil ampliou a vantagem: nos cinco primeiros meses do ano, mais de 60% da soja importada pelos chineses saiu daqui, e 23% dos Estados Unidos. Depois de uma trégua, a pausa nos aumentos de tarifa entre os dois países, os compradores voltaram. A pergunta agora é quem compra e por qual preço?
A conta parecia simples. Em Busan, na Coreia do Sul, onde Trump e Xi selaram essa trégua em outubro do ano passado, a Casa Branca anunciou que Pequim compraria 25 milhões de toneladas por ano até 2028. As estatais chinesas Sinograin e Cofco já levaram mais de 12 milhões, quase metade da cota de um ano. Faltava Xi, ao lado de Trump, dizer em voz alta que a sobretaxa cairia.
Xi chegou na quarta-feira, jantou com Trump e com o presidente da Apple, Tim Cook, e na quinta foi negociar. Saiu de lá com a trégua prorrogada de 10 de novembro para 10 de janeiro de 2027. De soja, nada: o comunicado chinês nem citou a palavra. Trump disse que os agricultores americanos ficariam muito felizes, mas não deu volume, valor ou prazo. O representante comercial dos EUA indicou que os detalhes poderiam sair na segunda-feira.
Pequim cobra 10% a mais sobre o grão dos Estados Unidos, sobretaxa que não vale para o do Brasil nem para o da Argentina. É ela que afasta as esmagadoras privadas, as fábricas que transformam o grão em óleo e farelo. Sem o imposto, a soja americana chega à China custando quase o mesmo que a brasileira, perto de US$ 595 por tonelada. E as esmagadoras já trabalham no vermelho. Com 10% em cima, a conta do americano piora. Sobram Sinograin e Cofco.
Hoje veio a lista. Washington e Pequim publicaram os cardápios do acordo “30 por 30”: cada lado escolheu US$ 30 bilhões em produtos do outro que poderão receber tarifas menores. A lista chinesa tem 1.619 itens: milho, trigo, arroz, sorgo, algodão, carne bovina, suína e de frango, laticínios, etanol, óleo e farelo de soja. Tem até semente de soja, mas soja para esmagar, a que enche navio e é o principal produto agrícola que os Estados Unidos vendem à China, não tem. Ninguém explicou por quê. Quem vende milho, trigo, carne ou etanol ganhou ao menos um lugar na fila. A soja nem isso.
Chicago fez as contas. Na bolsa que dá o preço de referência dos grãos no mundo, por volta das 9h de Brasília a soja caía 1,8%, para perto de US$ 12,95 por bushel (medida de cerca de 27 quilos), depois de tocar a mínima de duas semanas. Nem quem entrou na lista escapou: milho e trigo perdiam 1,3% e 1,1%. A lista diz quem poderá pagar menos tarifa. Não diz quando.
No fim, por enquanto, sobram os pandas para o produtor americano de soja, que trabalha na colheita sem saber quanto da safra a China vai levar. Cliente ele tem: as estatais chinesas seguem comprando. Tarifa menor, a que esperava desde Busan, não. Ping Ping e Fu Shuang foram do aeroporto ao zoológico com escolta policial. Os negociadores têm até 10 de janeiro, quando a trégua vence, para ver se a tarifa da soja chega ao papel.