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Entrevista/Anbima/Zeca Doherty: Brasil exporta tecnologia em dados e monitoramento de influencers

9 de outubro de 2026, às 15:30

Por Eduardo Puccioni

São Paulo, 09/10/2026 – A divulgação de informações diárias de fundos e a maior disponibilidade de dados sobre carteiras e a autorregulação dos influenciadores digitais são temas de destaque em Fóruns internacionais dos quais a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) participa.

“Essa combinação de legislação mais transparente, tecnologia e autorregulação permite um nível de transparência ao investidor que é difícil encontrar mesmo em mercados desenvolvidos”, diz Zeca Doherty, CEO da entidade.

O modelo de monitoramento e autorregulação do que a Anbima nomeou de finfluencers, com acompanhamento feito por ferramenta de inteligência artificial e regras para contratos entre influenciadores e instituições financeiras também chama a atenção no exterior. “Hoje alguns países estão perseguindo o modelo brasileiro, mas ainda são poucos. Os Estados Unidos, por exemplo, não têm um trabalho estruturado como o brasileiro. Há movimentos iniciais em mercados como Índia e China”.

Doherty diz ainda que, quando o tema é ativos digitais, o Brasil se adiantou ao criar orientações sobre transparência ao investidor e custódia, enquanto muitos países ainda discutem padrões. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

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Zeca Doherty, CEO da Anbima

Broadcast – A Anbima tem levado pautas do Brasil para debates globais sobre mercado de capitais. Quais são as principais contribuições e onde esses debates acontecem?

Zeca Doherty – A Anbima tem, há muitos anos, uma atividade de representação internacional. No começo, o foco era ir a fóruns internacionais, de reguladores e de associações, para acompanhar avanços regulatórios e tecnológicos, especialmente ligados à indústria de investimentos e de fundos, que é um dos carros-chefes da associação. Nos últimos cinco anos, além de capturar inovações do exterior, o Brasil passou também a levar práticas próprias e avanços que, em alguns temas, estão à frente de outras jurisdições.

Broadcast – Quais são os avanços brasileiros que mais chamam atenção no exterior?

Doherty – Um dos principais é a transparência e disponibilidade de informação ao investidor apoiada por tecnologia. No Brasil, a indústria de fundos tem cota diária, o que permite que o investidor acompanhe o investimento com uma frequência muito maior do que em grande parte dos mercados. Em muitos países, inclusive nos Estados Unidos, é comum haver cota semanal ou mensal. Outra característica é a disponibilidade de informações sobre composição de carteira. Essa combinação de legislação mais transparente, tecnologia e autorregulação permite um nível de transparência ao investidor que é difícil encontrar mesmo em mercados desenvolvidos.

Broadcast – Além da cota diária, que outras iniciativas vocês têm apresentado no exterior com impacto direto no investidor?

Doherty – Um tema forte é o trabalho com finfluencers [influenciadores digitais voltados às finanças pessoais e educação financeira]. Desde o fim da pandemia, houve um crescimento grande desses influenciadores financeiros. A Anbima passou a monitorar esse ecossistema com ferramenta de inteligência artificial e a se aproximar para fornecer dados e informações para melhorar a qualidade do conteúdo. Hoje, o monitoramento já alcança 903 finfluencers. A Anbima também criou regras de autorregulação para orientar como instituições, corretoras e gestoras devem estruturar contratos comerciais com finfluencers, definindo obrigações e boas práticas. Foi uma iniciativa pioneira no mundo e já começa a ser replicada por outros países.

Broadcast – Os reguladores e autorreguladores internacionais estão no mesmo nível de preocupação com finfluencers?

Doherty – Quando a Anbima apresentou o tema pela primeira vez, logo após a pandemia, praticamente nenhum mercado tinha algo semelhante. Hoje alguns países estão perseguindo o modelo brasileiro, mas ainda são poucos. Os Estados Unidos, por exemplo, não têm um trabalho estruturado como o brasileiro. Há movimentos iniciais em mercados como Índia e China, mas ainda abaixo do nível de acompanhamento e autorregulação que existe no Brasil.

Broadcast – Vocês consideram que os finfluencers viraram a principal ferramenta de educação financeira?

Doherty – Não necessariamente a principal, mas certamente um dos atores mais relevantes hoje. Pesquisas como o Raio-X do Investidor mostram que, ao longo dos anos, o investidor tem se autoeducado cada vez mais por mídias digitais e o YouTube aparece como principal canal de busca. Por isso, cresce a preocupação com a qualidade do que é falado, já que o alcance é grande e influencia decisões de investimento.

Broadcast – Como a Anbima atua para elevar o padrão de informação desses influenciadores?

Doherty – Há cursos e grupos de trabalho com influenciadores para troca de informações. Além disso, a Anbima passou a divulgar influenciadores que têm certificações (como CFP, CGA e certificações Anbima), o que virou um diferencial competitivo e incentiva que eles busquem qualificação.

Broadcast – Em ativos digitais, qual é a posição do Brasil e o que a Anbima tem mostrado internacionalmente?

Doherty – Em ativos digitais, há uma troca grande de experiências no momento. No Brasil, um ponto importante foi a atuação precoce da Receita Federal na tributação, o que acabou provocando reguladores e autorreguladores a avançarem mais rápido. A Anbima publicou regras de autorregulação sobre transparência ao investidor quando fundos passaram a investir em criptoativos, antes mesmo de regras específicas da CVM [Comissão de Valores Mobiliários]. Também desenvolveu regras para custódia de ativos digitais em um estágio em que muitos mercados ainda estão discutindo como fazer.

Broadcast – E em tokenização, o Brasil também está avançado?

Doherty – O Brasil já tem boas experiências com ativos tokenizados, como debêntures tokenizadas e fundos tokenizados, e a Anbima tem compartilhado essa vivência no exterior. Como ainda não existe uma regulação plenamente implementada nem aqui nem lá fora para ativos que nascem totalmente tokenizados, o momento é de troca para evitar erros e construir uma regulação mais inovadora, equilibrando o dilema entre regulação e inovação. Na Europa, por exemplo, há iniciativas cujo horizonte de implementação é de cinco anos, justamente para testar e calibrar.

Broadcast – Em gestão de risco e liquidez de fundos, o que o Brasil tem apresentado?

Doherty – A combinação de informação diária (cota e carteira) com regras e supervisão permite ao gestor brasileiro implementar políticas de risco e de liquidez com acompanhamento muito mais frequente. A Anbima desenvolveu regras e exige que gestoras controlem a liquidez do fundo diariamente, considerando o perfil do investidor e o suitability. Isso ajuda a reagir mais rapidamente em situações de estresse, como eventos em crédito privado, reduzindo o risco de o gestor só perceber o problema com atraso – algo mais comum em mercados onde a informação e as obrigações de monitoramento são menos frequentes.

Contato: eduardo.puccioni@estadao.com

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