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5 de outubro de 2026, às 09:40
Por Geovani Bucci
Pela terceira vez consecutiva, São Paulo abraçou o bolsonarismo para barrar o Partido dos Trabalhadores. Ao contrário de 2018 e 2022, porém, o principal articulador dessa vitória foi o governador reeleito Tarcísio de Freitas (Republicanos), que consolidou sua hegemonia no campo da direita enquanto apoiava, sem abraçar, Flávio Bolsonaro (PL).
Conservador como um Texas brasileiro, o Estado que um dia foi chamado de “tucanistão” passou das votações expressivas de Geraldo Alckmin, então governador e hoje no PSB e vice de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e do presidenciável Aécio Neves (PSDB), em 2014, ao entusiasmo com Jair Bolsonaro, que conquistou 53% dos votos válidos no primeiro turno de 2018. Movido por três engrenagens – o agronegócio, o antipetismo e o fator Gilberto Kassab (PSD) -, o bolsonarismo se consolidou e encerrou três décadas de domínio tucano.
No comando do Palácio dos Bandeirantes desde 2023, Tarcísio soube surfar essa onda e jogar com as cartas à sua disposição, entre elas a paixão da Faria Lima e o flerte dos partidos do Centrão. O governador foi hábil ao tirar o PSDB da disputa e conquistar o apoio do presidente estadual da sigla, Paulo Serra, que desistiu de ser candidato. Uma candidatura tucana poderia dividir os votos de centro-direita tal qual Rodrigo Garcia (hoje no Republicanos do governador) fez no último pleito e levar Tarcísio a um novo segundo turno contra o ex-ministro Fernando Haddad (PT).
Mais hábil ainda foi sua articulação para que o deputado federal Ricardo Salles (Novo) desistisse da candidatura ao Senado, evitando outra divisão de votos. Fora da disputa o terceiro bolsonarista pelas duas vagas na Casa Alta, restava deixar o antipetismo do eleitor paulista fazer seu trabalho contra as ex-ministras Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), antes vistas como figuras de centro, agora associadas a Lula.
A eleição de Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL) consolida a percepção de que Tarcísio tem força para transferir votos, capacidade que já havia demonstrado ao dar um empurrão à reeleição do prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB). A “identidade própria” que o governador afirmou ter em relação à família Bolsonaro ganhou expressão nas urnas. E seu mérito está em reconhecer o terreno favorável e saber explorá-lo.
A maré em São Paulo é tão favorável a Tarcísio que ele pôde se dar ao luxo de deixar o PSD de Kassab, partido com o maior número de prefeitos no Estado, fora da chapa e, ainda assim, vencer sem perder seu apoio. Romper com Tarcísio tinha um custo político elevado para os próprios aliados, o que dificultava candidaturas alternativas. O exemplo de Salles mostra esse risco também.
Pôde concentrar 58% da campanha na capital e na Região Metropolitana, com esporádicas incursões pelo interior, onde contou com votação expressiva sem grande esforço. Também escolheu a dedo as sabatinas e os debates de que participaria. Afinal, para que abrir espaço para crises desnecessárias? Estratégia essa repetida pelos senadores eleitos Derrite e Prado.
O apoio de 12 partidos, tal qual Nunes obteve em 2024, garantiu ao governador e seus aliados o maior tempo de propaganda no rádio e na televisão. Mais que duas vezes o tempo da oposição. Queira-se ou não, essa exposição ainda tem força e ajudou a conter o avanço de Haddad e de suas aliadas. Ao longo da campanha, Tarcísio viu sua aprovação e suas intenções de voto avançarem ainda mais.
Nesse sentido, manter distância de Flávio na pré-campanha e durante boa parte da corrida eleitoral foi uma escolha prudente, embora, à luz do resultado, o zelo pareça ter sido excessivo. Mesmo com a força do bolsonarismo em São Paulo, ainda não estava claro se o pragmatismo do eleitorado mais próximo da capital comportaria um vínculo mais estreito com o filho citado por Jair Bolsonaro naquela reunião ministerial. O caso Dark Horse causou apreensão no início, mas logo o eleitor paulista fez sua escolha para enfrentar o PT.
Sem a necessidade de ampliar os acenos ao centro após a reeleição em primeiro turno, o governador deve embarcar na campanha de Flávio “com bastante potência”, como ele próprio afirmou, inclusive com presença em palanques de outros Estados. A movimentação poderia servir de aquecimento para uma candidatura presidencial em 2030, para a qual Flávio sinalizou apoio a Tarcísio – resta saber quanto o governador leva essa promessa a sério. De todo modo, Tarcísio já admite publicamente disputar a Presidência.
Até aqui, Tarcísio soube aproveitar os ventos favoráveis em São Paulo. Ainda não enfrentou um grande desgaste, é verdade, e não se sabe se conseguiria repetir o feito em Estados menos inclinados à direita. Mas chama a atenção sua capacidade de atrair o eleitorado bolsonarista sem absorver, na mesma medida, a rejeição ao movimento. É notório que essa associação já lhe trouxe dificuldades em alguns momentos. Resta saber se continuará a ser seu flanco vulnerável.
O serviço ‘Análise Política’, do Broadcast Político, reúne análises, comentários e bastidores da política nacional.
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