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30 de outubro de 2026, às 10:13
Artigo de: Marcello Estevão

A corrida mundial pela inteligência artificial chegou ao Brasil acompanhada de promessas de grandes investimentos em centros de processamento de dados. O país tem vantagens nessa disputa, sobretudo a disponibilidade de energia renovável, um mercado consumidor expressivo e a possibilidade de atender à crescente demanda internacional por serviços digitais. O interesse dos investidores é uma boa notícia. Mas existe uma pergunta econômica que deveria acompanhar cada novo projeto: quanto dessa infraestrutura se transformará em renda, empregos e produtividade para os brasileiros?
A questão ganhou relevância com a aprovação, em setembro, do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, que oferece incentivos fiscais para atrair investimentos no setor. A iniciativa responde a uma oportunidade real, pois o Brasil pode conquistar uma posição mais importante nas cadeias globais de tecnologia. Entretanto, a dimensão dos investimentos anunciados oferece apenas uma indicação parcial de seus benefícios econômicos, que dependerão da capacidade de gerar valor agregado no país e dos custos envolvidos na atração desses projetos.
Pesquisas que estamos desenvolvendo no Instituto de Finanças Internacionais (IIF) ajudam a compreender esse desafio. A expansão da inteligência artificial está provocando uma onda de investimentos em centros de dados, semicondutores, equipamentos de computação e infraestrutura energética. Embora esse movimento já contribua para o crescimento de diversas economias, seus efeitos se distribuem de maneira desigual entre países, setores e trabalhadores. Nos Estados Unidos, por exemplo, nossos estudos mostram que parte importante do impulso inicial dos investimentos é absorvida por importações de equipamentos, enquanto a construção e a operação dos centros de dados geram relativamente poucos empregos em comparação com o capital empregado. Os ganhos mais duradouros dependem da utilização dessa capacidade computacional para elevar a produtividade da economia como um todo.
A organização internacional da indústria ajuda a explicar esse resultado. Os semicondutores mais avançados são produzidos principalmente na Ásia, enquanto os serviços digitais, os modelos de inteligência artificial e os direitos sobre a tecnologia estão concentrados em poucas empresas globais. Assim, o investimento físico pode ocorrer em determinado país, embora a renda gerada ao longo da vida útil dos ativos seja distribuída entre muitos outros.
No Brasil, a entrada de capital estrangeiro para construir um centro de dados poderá vir acompanhada de importações expressivas de equipamentos (o que é bom para a qualidade destes centros). Posteriormente, a instalação poderá atender a clientes nacionais ou estrangeiros, contribuindo para a atividade doméstica e para nossas exportações de serviços. Parte dos lucros e dos pagamentos por tecnologia, contudo, poderá ser remetida ao exterior (o que é normal). A localização dos servidores, portanto, é apenas uma das variáveis que determinarão os efeitos sobre a economia e o balanço de pagamentos.
Isso não significa que atrair centros de dados tenha pouco valor. A proximidade da infraestrutura computacional pode melhorar a qualidade e a confiabilidade dos serviços, reduzir custos de transmissão e facilitar aplicações que exigem baixa latência. Além disso, a capacidade local pode favorecer empresas brasileiras e atender a necessidades legítimas de segurança e proteção de informações. São benefícios reais, embora seja importante distinguir essas vantagens de argumentos protecionistas que acabem encarecendo o acesso à tecnologia.
O Redata procura ampliar os benefícios domésticos ao exigir, como regra geral, que as empresas beneficiadas disponibilizem ao mercado nacional pelo menos 10% da capacidade instalada com os incentivos e invistam o equivalente a 2% do valor dos produtos beneficiados em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Essas exigências podem produzir resultados positivos, mas também introduzem custos e possíveis distorções. Afinal, reservar capacidade para o mercado brasileiro terá pouco efeito sobre a produtividade se as empresas encontrarem alternativas melhores ou mais baratas no exterior.
A cautela é especialmente importante diante da experiência brasileira com políticas industriais. Durante décadas, a substituição de importações e a proteção de produtores nacionais contribuíram para uma estrutura produtiva relativamente fechada, na qual a concorrência limitada e o acesso mais caro a insumos e tecnologias prejudicaram a produtividade. O país desenvolveu setores industriais importantes, mas frequentemente a custos elevados para consumidores e outras empresas. Reproduzir essa lógica na economia digital seria um equívoco, sobretudo porque a velocidade da inovação torna ainda mais custosa a tentativa de privilegiar determinadas tecnologias ou fornecedores.
Existe também uma questão fiscal. Segundo estimativas apresentadas quando a lei foi aprovada, a renúncia tributária associada ao Redata poderá alcançar R$ 5,2 bilhões em 2026. Em um país com finanças públicas pressionadas, incentivos dessa dimensão exigem uma justificativa econômica convincente. É preciso demonstrar que os benefícios sociais superam os custos e, sobretudo, que os investimentos adicionais dependem efetivamente dos incentivos. Afinal, empresas podem ter razões comerciais suficientes para instalar centros de dados no Brasil, independentemente de tratamento tributário especial.
A oportunidade mais importante para o crescimento brasileiro, entretanto, está na difusão da inteligência artificial entre as empresas. Segundo o IBGE, a proporção de empresas industriais com pelo menos 100 empregados que utilizavam IA passou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024. O avanço é impressionante, embora a utilização declarada da tecnologia ainda esteja longe de garantir ganhos mensuráveis de produtividade.
Esses ganhos dependerão de mudanças na organização das empresas, na qualificação dos trabalhadores e na maneira como produtos e serviços são oferecidos. Uma empresa pode adquirir ferramentas avançadas de IA e continuar operando com processos ineficientes. Outra, mesmo sem desenvolver tecnologia própria, pode utilizá-la para produzir melhor, encontrar novos mercados e competir internacionalmente. São decisões empresariais, orientadas pelos custos e benefícios da inovação, nas quais a concorrência desempenha um papel fundamental.
Nesse contexto, o governo tem uma responsabilidade importante: assegurar estabilidade macroeconômica, regras previsíveis, infraestrutura adequada, educação de qualidade e um ambiente favorável à competição. A abertura ao comércio internacional também é essencial, pois permite que empresas brasileiras tenham acesso às melhores tecnologias disponíveis, qualquer que seja sua origem. Importar equipamentos, softwares e modelos de inteligência artificial pode ser uma maneira extremamente eficaz de elevar a produtividade doméstica. A tentativa de produzir tudo internamente, ao contrário, corre o risco de repetir erros conhecidos de nossa história econômica.
O Brasil tem razões para querer receber os investimentos que estão reorganizando a economia mundial. Mas sua principal oportunidade depende de empresas expostas à concorrência, com acesso às melhores tecnologias e incentivos para utilizá-las produtivamente. Ao final, o sucesso brasileiro na era da inteligência artificial será medido pelo que acontecer fora dos centros de dados: nas empresas que elevarem sua eficiência, nos trabalhadores que encontrarem novas oportunidades e nos produtos e serviços que conquistarem mercados internacionais. Hospedar a inteligência artificial pode ser um bom negócio. Mas o verdadeiro salto de desenvolvimento virá de sua utilização em toda a economia.
Marcello Estevão, PhD MIT, é Diretor Gerente e Economista Chefe do Institute of International Finance e professor da Universidade de Georgetown em Washington, DC. Foi Secretário para Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda e trabalhou no Banco Mundial, FMI, Federal Reserve e Tudor Investment Corporation.
Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.
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