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29 de outubro de 2026, às 12:20
Por Júlia Pestana
São Paulo, 29/10/2026 – O Brasil é visto pela Heineken, gigante global de cervejas, como um mercado desafiador e com grande potencial. Nada melhor do que um executivo local para atacar a parte do desafio e avançar do lado da oportunidade. Em sua primeira divulgação de resultados no comando global da cervejaria, o brasileiro Rafael Oliveira reconheceu a necessidade de alguns ajustes para a subsidiária e destacou como há espaço para crescer no País.
O Brasil já é o maior mercado da Heineken no mundo em volume e lidera as vendas globais das marcas Heineken e Amstel. Ainda assim, integra um grupo de mercados prioritários, ao lado de México, África do Sul e do segmento de cervejas premium dos Estados Unidos, que deverá concentrar os próximos investimentos e responder por cerca de 90% do crescimento projetado pela companhia.
Os resultados do terceiro trimestre, divulgados ontem, deram algum respaldo à aposta. No Brasil, os volumes de cerveja comercializados pela Heineken cresceram na faixa intermediária de um dígito, enquanto a receita líquida avançou na faixa intermediária de dois dígitos.
Uma das razões que fazem a Heineken olhar para o futuro com otimismo é que o consumo de cerveja segue estável no mundo enquanto o de outras bebidas alcoólicas cai. Para o Brasil, há ainda a percepção que o volume em mercados emergentes segue prioritariamente ligado ao avanço da população e do PIB, enquanto em países desenvolvidos, o consumo per capita chega a ser o dobro, mesmo sem os dois efeitos.
A busca por novos consumidores também passa pela diversificação do portfólio. No Brasil, a Heineken 0.0 registrou crescimento na faixa alta dos 20% no trimestre, enquanto a Heineken Ultimate, com 3,5% de teor alcoólico, superou as expectativas de vendas da companhia.
A melhora chega em um momento de disputa acirrada pelo consumidor brasileiro. Depois de anos de expansão da Heineken, a Ambev voltou a ganhar terreno, inclusive entre as cervejas premium. Dados da NielsenIQ analisados pelo Citi mostram que a participação da Ambev nesse segmento chegou a 41,8% em abril, avanço de 3,16 pontos porcentuais em um ano. No mesmo período, a rival holandesa perdeu 1,21 ponto porcentual.
Cautela
A própria Heineken admite que parte do terreno perdido está relacionada a decisões comerciais da companhia. Na teleconferência de resultados, o diretor financeiro global, Harald van den Broek, reconheceu que a cervejaria contribuiu para a volatilidade dos preços no Brasil e agora trabalha para corrigir o problema.
“Parte da razão pela qual precisamos recuperar participação de mercado é que nós mesmos criamos, em certa medida, nossa própria volatilidade de preços, e estamos corrigindo isso”, afirmou.
O CFO também demonstrou preocupação com o quarto trimestre, diante das temperaturas mais baixas, especialmente no Sudeste brasileiro, e das incertezas macroeconômicas. “Estou ainda cauteloso com os volumes no Brasil e no México. Espero estar errado”, disse.
A reação brasileira, somada ao desempenho positivo no México, ajudou a impulsionar as operações nas Américas. O volume comercializado na região cresceu 2,1% no terceiro trimestre, para 23,6 milhões de hectolitros, enquanto a receita líquida avançou 3,1%, para 2,763 bilhões de euros.
Ainda há, porém, um caminho a percorrer. Nos primeiros nove meses do ano, os volumes vendidos nas Américas acumularam queda orgânica de 1,6%, sinal de que o avanço recente não foi suficiente para compensar as perdas anteriores.
O CFO também evitou declarar vitória sobre a recuperação do mercado de cervejas. “Não acho que já tenhamos virado a curva para um crescimento positivo consistente da categoria”, disse. Para o quarto trimestre, o executivo manteve a cautela com os volumes no Brasil e no México, diante das condições climáticas e do ambiente econômico. “Mas espero estar errado”, acrescentou.
Aposta bilionária
Apesar dos desafios, a Heineken já colocou cifras expressivas por trás de sua estratégia brasileira. Nos últimos cinco anos, investiu mais de R$ 6 bilhões no País, onde mantém 13 cervejarias e cerca de 12 mil funcionários.
Uma das principais apostas foi a construção da fábrica de Passos, em Minas Gerais, inaugurada em 2025 após investimentos superiores a R$ 2 bilhões. Outros R$ 1,2 bilhão foram destinados a triplicar a capacidade produtiva da unidade de Igarassu, em Pernambuco. Os aportes ajudam a dimensionar a importância de um mercado no qual a cervejaria já alcançou grande escala, mas continua buscando novos consumidores.
É com esse desafio que Rafael Oliveira assume a presidência global da Heineken. O brasileiro chegou ao cargo em 1º de outubro, após o encerramento do terceiro trimestre, sucedendo o holandês Dolf van den Brink, que esteve à frente da cervejaria por seis anos.
A importância do mercado brasileiro já entrou na agenda do novo presidente global. Oliveira visitou o Brasil semanas antes da divulgação dos resultados e identificou um ambiente de pressão econômica que ainda desafia o consumo.
A mudança no comando ocorre em um momento em que a companhia tenta transformar a força de suas marcas em resultados mais consistentes. No terceiro trimestre, a receita global da Heineken alcançou 9,558 bilhões de euros, alta de 9,7% sobre o mesmo período de 2025.
A receita líquida ajustada somou 8,090 bilhões de euros, crescimento orgânico de 4,6%, enquanto o volume total comercializado chegou a 76 milhões de hectolitros, avanço orgânico de 4,8%.
Mesmo com o crescimento, a empresa manteve a projeção de expansão orgânica do lucro operacional ajustado entre 2% e 6% em 2026.
Na primeira divulgação de resultados sob seu comando, Oliveira reconheceu que ainda há trabalho a fazer. “Temos bases sólidas, mas não estamos conseguindo transformá-las em crescimento consistente e conquistar consumidores e clientes com a frequência que deveríamos”, afirmou.
Contato: julia.pestana@estadao.com
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