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Maiores ‘vítimas’ de fuga generalizada da Bolsa são ações cíclicas, com quedas de quase 60%

26 de outubro de 2026, às 17:10

Por Luísa Laval e Vinícius Novais*

São Paulo, 26/10/2026 – O pregão desta segunda-feira, 26, entrará para a história, com o acionamento do circuit breaker pela primeira vez desde 2020 e a 24ª desde a fundação da B3. Os ativos passaram por um “riskoff” generalizado após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência. Na liderança das quedas, estão as ações de setores cíclicos, como o varejo, transportes, construção civil e educação, precificando um cenário macroeconômico difícil e com o “desencanto” com as expectativas frustradas de uma mudança de governo.

O Magazine Luiza, que na última sexta-feira acumulava valorização anual de mais de 70% e era a maior alta do Ibovespa em outubro, despencou 59,65% no dia, voltando ao nível de 3 de agosto, quando fechou a R$ 5,16. Por sua vez, a Vamos, que era uma das ações que mais subiam no ano, apagou todos os ganhos e derreteu 56,94%, passando a cair 14,29% em 2026.

Outros movimentos que merecem destaque foram os da Petrobras que tem, na ação PN, baixa de 6,74%, a maior queda desde 8 março de 2024, quando caiu mais de 10%; e o da B3, que também recua e está cotada a R$ 15,35, mesmo nível em que fechou em 14 de setembro de 2020. As units do BTG Pactual chamam igualmente a atenção. O papel está cotado a R$ 59,97 e, se terminar nesse nível, será a primeira vez que fica abaixo dos R$ 60 desde 14 de setembro.

O próprio Ibovespa, em franca queda de 13,52%, aos 177.363,55 pontos, se aproxima do nível de 18 de maio deste ano, quando fechou aos 177.355,73 pontos.

Por outro lado, a Suzano sobe mais de 11% e está cotada a R$ 47,84, voltando ao nível de 17 de janeiro de 2023, quando fechou no mesmo valor. O papel havia recuado muito com a baixa do dólar após o primeiro turno. A Vale também é destaque de alta, subindo mais de 4%, cotada a R$ 64,66, mesmo valor em que fechou em 14 de dezembro de 2022.

Os bancos foram unânimes: relatórios de BTG Pactual, JP Morgan e Morgan Stanley apontam para reprecificação negativa dos ativos no curto prazo, com alta de juros futuros, pressão no câmbio e queda mais intensa em ações ligadas ao ciclo doméstico e expostas a juros e créditos, como os bancos. Nesse cenário, as exportadoras e empresas com receitas em dólar aparecem como alternativa defensiva em meio à expectativa de real mais fraco.

O JPMorgan reforça que small caps e papéis de beta mais alto – mais voláteis e, em geral, mais alavancados – tendem a ter desempenho pior nesse cenário.

O BTG, por sua vez, avalia que a vitória de Lula “tende a pressionar os ativos brasileiros no curto prazo” e a mudar o balanço de riscos para juros, câmbio e Bolsa. Para o banco, o mercado pode passar por “uma venda significativa nas próximas semanas”, com impacto sobre as taxas longas, enfraquecimento do real e menor espaço para o Banco Central acelerar o ciclo de cortes da Selic. O BTG também diz que “apenas o anúncio de uma equipe econômica credível e sinais de disciplina fiscal poderiam criar condições para taxas mais baixas”.

Na mesma linha, o JPMorgan afirma que a reeleição foi surpresa para um mercado que havia “precificado com força um resultado diferente”, o que deve provocar “reprecificação intensa” das ações brasileiras. O banco projeta queda de cerca de 20% “nos próximos dias” e indica que a pressão deve ser maior sobre setores domésticos, enquanto as exportadoras tenderiam a se sair relativamente melhor com a expectativa de depreciação do real.

O Morgan Stanley também vê correção forte, com estimativa de queda de 20% a 30% para as ações, com grande dispersão entre os papéis. Apesar de o lucro agregado do mercado poder se mostrar resiliente, apoiado por exportadoras e bancos, a expectativa é de redução relevante de risco nas carteiras, principalmente em ações mais ligadas ao ciclo doméstico.

Além do canal de juros, outro vetor de risco citado no mercado é o componente político, sobretudo para empresas sob maior influência do governo. O sócio da Fatorial Investimentos, Fábio Lemos, ressalta que a Petrobras e outras estatais carregam uma reavaliação do risco político, o que pode aumentar a volatilidade desses papéis.

Alternativas

Com a expectativa de real mais fraco, exportadoras aparecem como o principal “porto relativo” indicado nos relatórios. O BTG afirma que a perspectiva de câmbio depreciado pode favorecer nomes como a Gerdau, a Suzano e a Vale em commodities metálicas, a Prio em petróleo e gás, a SLC, a 3Tentos e a São Martinho em commodities agrícolas, além da Weg e da Embraer como exportadoras industriais. O JPMorgan também aponta que empresas exportadoras tendem a “segurar melhor” os preços nesse ambiente.

O BTG adiciona ainda uma camada defensiva por qualidade de balanço: empresas com baixa alavancagem ou caixa positivo em setores menos sensíveis ao ciclo podem se sair relativamente melhor, citando seguradoras como a Caixa Seguridade e a Porto Seguro, além da Ambev. O banco destaca também a Petrobras, por exposição ao câmbio e ao petróleo e perfil de dividendos, e o Itaú, que em sua visão estaria mais bem posicionado entre os bancos para atravessar um período mais desafiador.

Apesar do tom cauteloso, a Fatorial chama atenção para o fato de que parte do movimento pode refletir devolução do otimismo eleitoral que havia sido incorporado aos preços desde o primeiro turno. “O ponto central é que nem toda queda representa uma oportunidade. O investidor precisa distinguir o ajuste de expectativas de uma mudança efetiva nos fundamentos das empresas”, afirma Lemos, acrescentando que a sinalização fiscal e a escolha da equipe econômica serão decisivas para separar vencedores e perdedores no novo ciclo.

Contato: luisa.laval@estadao.com; vinicius.novais@estadao.com

*Com a colaboração de Cecília Mayrink, Crisley Santana, Gustavo Nicoletta e Maria Regina Silva

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