Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

Energy Aspects: virada de Lula não é impossível; vitória de Flávio prolongaria alta do mercado

23 de outubro de 2026, às 17:30

Por Isadora Duarte

Brasília, 23/10/2026 – A consultoria Energy Aspects (EA) avalia, em relatório, que a virada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o seu retorno para um quarto mandato não é impossível, mas projeta que uma eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) prolongaria a alta do mercado. “Uma vitória de Flávio prolongaria a alta do mercado, mas a falta de um plano fiscal com custos definidos, acabaria com a lua de mel em poucos meses. Uma vitória de Lula desencadearia uma onda de vendas (de ativos) até que ele apresente um plano fiscal crível”, aponta o analista Mario Lima, no relatório distribuído a clientes.

A consultoria aponta que o senador carioca é o favorito no segundo turno em um pleito “muito acirrado” por uma pequena margem, embora Lula venha reduzindo a distância nas pesquisas de intenção de voto para um empate técnico. “Uma reviravolta de Lula não é impossível; porém, as pesquisas subestimaram Flávio no primeiro turno, e os eleitores fiéis de Lula são mais difíceis de mobilizar”, observa Lima, citando maior grau de abstenção entre eleitores de baixa renda e idosos.

A EA aponta que a posição de Flávio Bolsonaro à frente de Lula no 1º turno levou o mercado a sua melhor semana desde abril de 2020, com o índice Ibovespa subindo 8,8% e atingindo o recorde de 209.067 pontos em 9 de outubro e o real valorizado 4,4% em relação ao dólar. “Desde então, Lula recuperou terreno, e a alta perdeu força: em 21 de outubro, o Ibovespa caiu 0,9%, para 206.495 pontos, após a pesquisa da Quaest apontar uma diferença de apenas um ponto porcentual entre os candidatos, e o dólar subiu para R$ 5,03. A janela de vitória de Lula está se fechando, mas ainda não está fechada”, aponta o relatório. A favor de Lula, segundo a consultoria, está a elevada rejeição de Flávio Bolsonaro.

Para a EA, as propostas quanto ao tema fiscal ainda são “pouco claras”, porém considera que um Congresso mais à direita torna possível uma reestruturação fiscal. “A equipe econômica de Flávio promete uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) cortando gastos em 1,5% do PIB, cerca de R$ 190 bilhões. Mas os números não fecham. Flávio prometeu cortar pelo menos 10 dos 39 ministérios, mas essas economias seriam inferiores a R$ 200 milhões de, muito aquém da economia de R$ 200 bilhões por ano prometida”, apontou Lima, destacando que R$ 200 bilhões representam praticamente todo o orçamento discricionário da União, ao mesmo tempo que cerca de 90% das despesas primárias são obrigatórias.

A EA cita a promessa da coordenadora econômica de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, que calcula arrecadação de R$ 200 bilhões a R$ 400 bilhões por meio da securitização de dívidas tributárias federais. “Uma promessa que superestima severamente a capacidade real do projeto, e que essa seria uma receita extraordinária, não um corte de gastos. Flávio promete manter os aumentos reais do salário mínimo, a indexação da previdência e da assistência social, e os pisos da saúde e da educação, portanto, não está claro onde ele conseguiria cortes suficientes. Para piorar a situação, em 20 de outubro, ele prometeu reativar uma isenção fiscal para empresas de eventos, implementada durante a pandemia, que custou R$ 50 bilhões e era suscetível a fraudes e lavagem de dinheiro”, acrescentou a consultoria.

Também preocupa à EA a proposta de redução do ICMS, eliminação gradual do IOF e redução dos impostos sobre energia e combustíveis prometidos pelo senador carioca sem estimativa de custo. “A política competirá com os números. Os líderes do PL fizeram campanha por senadores dispostos a destituir ministros do Supremo Tribunal Federal, o que exige 54 dos 81 votos, e esperamos que essa disputa consuma capital político”, ponderou a EA.

Para a EA, também não está claro se Flávio Bolsonaro teria o apoio além do seu eventual ministro da Fazenda, dado que parlamentares “gostam de gastos”. “Esperamos que a lua de mel com os mercados termine em poucos meses e que os preços dos ativos sofram. Se Lula vencer, esperamos que o real se desvalorize, as ações caiam e as taxas de swap disparem até que ele proponha um plano fiscal crível”, projetou Lima.

Sobre as promessas fiscais de Lula, o analista destacou que o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, projeta uma transição de déficit de 0,5% do PIB este ano para um superávit de 1,5% até 2030. “Acreditamos que ele acabará cumprindo a promessa, pois sempre argumentamos que o resultado é menos binário do que os mercados precificam. Ainda assim, seria decepcionante”, concluiu a consultoria.

Contato: isadora.duarte@estadao.com

Veja também