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Após recorde, VIX Brasil recua, mas ainda indica alta volatilidade na Bolsa antes de eleição

23 de outubro de 2026, às 14:30

Por Gustavo Nicoletta e Maria Regina Silva

São Paulo, 23/10/2026 – O VIX Brasil, indicador que mede a volatilidade esperada para o Ibovespa, fechou em nível recorde ontem após uma onda de reprecificação de risco no mercado de opções. Embora recue nesta sexta-feira (-6,7%, a 42,26), ainda aponta a possibilidade de oscilação superior a 10% no índice nos próximos 30 dias.

O indicador encerrou quinta-feira, 22, a 45,27 pontos, alta de 38,1% em relação ao fechamento de 2 de outubro, quando estava em 32,77 pontos. Durante o pregão de ontem, chegou a 46,31 pontos. A máxima intradiária da série analisada é de 46,98 pontos, registrada em 16 de outubro. A alta ocorre dois dias antes do segundo turno da eleição presidencial, marcado para domingo, 25.

O VIX é calculado a partir dos preços de opções do Ibovespa e mede a volatilidade implícita esperada para os 30 dias seguintes. Não indica se a Bolsa deve subir ou cair, mas a intensidade dos movimentos que o mercado considera possíveis. Um nível elevado, portanto, sinaliza maior incerteza.

A alta do indicador veio acompanhada de uma elevação disseminada da volatilidade implícita nas opções de compra e de venda. Nos contratos com vencimento em 18 de novembro e preços de exercício próximos ao nível do Ibovespa, a mediana da volatilidade implícita das opções de compra subiu de 28,47% em 2 de outubro para 48,46% em 22 de outubro. Nas opções de venda próximas do índice, passou de 36,74% para 48,02%.

Os dados também apontam uma reprecificação mais intensa do risco de queda nos vencimentos próximos. Nas opções de venda com vencimento em novembro e preços de exercício entre 5% e 10% abaixo do Ibovespa, a mediana da volatilidade implícita avançou de 35,66% para 54,73%. Nas opções de compra entre 5% e 10% acima do índice, a alta foi menor, de 31,10% para 39,91%.

A diferença entre essas duas medidas, conhecida como “skew”, aumentou de 4,57 para 14,82 pontos porcentuais no vencimento de novembro. Em dezembro, passou de 6,05 para 11,92 pontos. A ampliação foi menor em janeiro e praticamente desapareceu em fevereiro, indicando que a reprecificação adicional do risco de queda se concentrou nos vencimentos mais próximos.

Outro sinal vem das posições em aberto. Entre 2 e 21 de outubro (data dos últimos dados disponíveis), o estoque de opções de venda do Ibovespa com vencimento em 18 de novembro cresceu de 7,9 milhões para 30,8 milhões de contratos, alta de 290%. No mesmo período, as opções de compra com o mesmo vencimento passaram de 31,5 milhões para 34,3 milhões, avanço de 8,7%.

O aumento mais forte das posições em aberto em opções de venda é compatível com uma mudança relevante na estrutura das posições em opções e reforça a hipótese de maior preocupação com o risco de queda. Não comprova, porém, uma corrida por proteção: o estoque inclui posições de titulares e lançadores e pode refletir estratégias distintas.

Para Rodrigo Alvarenga, sócio da One e responsável pelas operações estruturadas da casa, o atual nível de volatilidade implícita, com prêmios “quase esdrúxulos” nas opções, é raro. Segundo ele, nem mesmo em 2022 o mercado chegou a esse grau de precificação de risco.

A volatilidade elevada encarece a compra de opções, tanto “calls” (direitos de compra) quanto “puts” (direitos de venda), especialmente as utilizadas como proteção contra quedas da Bolsa. Por outro lado, o cenário abre espaço para quem vende esses contratos, que recebe prêmios mais elevados.

Na avaliação de Alvarenga, a procura por proteção reflete a incerteza dos investidores em relação ao resultado eleitoral e aos possíveis efeitos sobre os ativos brasileiros. Na percepção de parte do mercado, os cenários para o Ibovespa apresentam uma assimetria entre o potencial de alta e o risco de correção, o que ajuda a explicar a maior procura por opções de venda.

O estrategista-chefe do Grupo Laatus, Jefferson Laatus, também observa um aumento expressivo da demanda por esses contratos. “A demanda por puts aumentou de forma gigantesca”, afirma. Segundo ele, os investidores buscam proteção diante da possibilidade de uma reação negativa do mercado ao resultado das urnas.

A valorização da Bolsa no período, porém, mostra que a alta da volatilidade não veio acompanhada de uma queda acumulada do índice. O Ibovespa fechou 2 de outubro a 192.114,55 pontos e encerrou ontem a 204.120,12 pontos, avanço de 6,25%.

Além da direção do índice, outro fator relevante para quem opera opções é o comportamento da volatilidade após a eleição. Para Bruno Takeo, estrategista da S4 Consultoria, “muito provavelmente” haverá um ajuste após o pleito.

“Podemos ter o que o mercado chama de ‘vol reset'”, afirma Takeo, referindo-se ao movimento de normalização da volatilidade depois de um evento que concentra incertezas. Isso ocorre porque, antes do pleito, os investidores estão dispostos a pagar mais por opções que permitam se posicionar para movimentos expressivos do Ibovespa ou se proteger contra oscilações adversas. Com a definição do resultado, parte dessa incerteza desaparece, o que pode reduzir a volatilidade implícita e, consequentemente, o preço das opções.

Nesse cenário, quem comprou opções apostando na alta ou na queda da Bolsa pode ter prejuízo mesmo que acerte a direção do índice. Se a volatilidade implícita recuar o suficiente, a desvalorização do contrato provocada por esse movimento pode superar o ganho decorrente da variação do Ibovespa. “Muito provavelmente, teremos um ajuste após o pleito”, diz o estrategista.

Contato: gustavo.nicoletta@estadao.com

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