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Embrapa trabalha no aprimoramento de um tipo de milho que demanda 25% menos água
25 de agosto de 2026
O desenvolvimento de variedades agrícolas mais resilientes às mudanças climáticas é uma realidade crescente e tem ajudado a mitigar boa parte dos efeitos da sazonalidade sobre a inflação, avalia o coordenador dos Índices de Preços da FGV IBRE, André Braz. Ele cita como exemplo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que trabalha no aprimoramento de cultivares, como um tipo de milho que demanda 25% menos água, permitindo o cultivo em condições climáticas adversas.
“Esse avanço tecnológico contribui para atenuar a sazonalidade na produção, uma vez que possibilita a colheita em ambientes anteriormente inóspitos, o que tende a estabilizar os preços. Todavia, essa estabilidade depende da frequência de eventos climáticos extremos. Caso fenômenos como o El Niño se tornem recorrentes, as projeções de regularidade ficam severamente comprometidas”, alerta.
Além dos fatores climáticos, tensões geopolíticas – como o conflito entre Rússia e Ucrânia, instabilidades no Oriente Médio e o uso recorrente de tarifas como instrumento de política externa – exercem pressão constante sobre os mercados, mascarando a sazonalidade tradicional dos alimentos, acrescenta Braz.
“Embora o ciclo natural dos produtos ainda exista, a combinação de inovações tecnológicas – como o cultivo em ambientes controlados e o aprimoramento genético – com a dinâmica da logística global tem alterado a nossa percepção sobre essas oscilações”, observa o economista do FGV IBRE.
Heron do Carmo, professor sênior da FEA-USP, entende que o menor protagonismo da sazonalidade na composição da inflação reflete principalmente uma mudança nos padrões de consumo, impulsionada pela maior disponibilidade de produtos, decorrente de um processo de abertura econômica mais amplo do que o observado no passado.
“Nesse contexto, os índices de preços ao consumidor se baseiam em amostras selecionadas. Contudo, há uma vasta gama de itens que, embora individualmente tenham peso reduzido no índice, influenciam indiretamente o consumo e os preços da cesta básica ao servirem como substitutos”, diz.
Segundo ele, no setor de alimentos essa dinâmica é ainda mais evidente. Antigamente, variações climáticas regionais impactavam severamente os preços de produtos específicos, como feijão ou batata. Hoje, a sofisticação da produção agrícola e a maior integração do mercado nacional mitigaram esse efeito.
“O avanço tecnológico permitiu a expansão de novas fronteiras agrícolas, como a fruticultura no Nordeste, que agora abastece todo o País, independentemente das condições climáticas em outras regiões. Ademais, apesar de deficiências logísticas remanescentes, houve avanços significativos na infraestrutura de transporte, reduzindo o tempo de escoamento das mercadorias. Esse cenário altera a percepção de sazonalidade”, pontua o professor.
Assim, reforça Heron, produtos antes marcados por variações sazonais acentuadas – como frutas, batatas e tomates – podem ter impacto relevante nos índices de inflação não necessariamente por seu peso na cesta, mas pela volatilidade extrema de seus preços. Por isso, diz, é importante distinguir esse efeito da dinâmica dos itens de maior peso no grupo alimentação.
Carne bovina
Heron cita também a transformação do modelo de produção pecuária como fator de mitigação da sazonalidade dos preços. A carne bovina, por ser o principal produto do segmento, exerce papel determinante na formação de preços e consolidou o Brasil como um dos maiores exportadores globais. “Com a predominância do confinamento em substituição à pecuária extensiva, a sazonalidade que historicamente elevava os preços no inverno – período em que a escassez de pasto reduzia a oferta e afetava o peso do gado – foi mitigada”, avalia.
Ainda que essa sazonalidade anual tenha arrefecido, os ciclos pecuários de longo prazo persistem. Eles seguem a lógica de flutuações na oferta. Quando os preços caem, aumenta o abate de matrizes, o que aprofunda a queda inicial e, mais adiante, gera escassez que impulsiona os preços. Contudo, ressalta o economista, a volatilidade atual é determinada menos por fatores regionais e mais por dinâmicas globais.
“Fenômenos climáticos, como o El Niño, impactam a produção de alimentos mundial de forma abrangente. Exemplos recentes incluem a alta expressiva do azeite, devido a secas na Europa, e a valorização do café, afetado por quebras de safra tanto no Brasil quanto no Vietnã, um dos principais produtores da variedade robusta”, afirma.
Para Heron, esses movimentos confirmam a aplicação do modelo econômico de defasagem distribuída: choques de oferta elevam os preços e, após um intervalo, estimulam o aumento da produção, reequilibrando o mercado.
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