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Mesmo com o Desenrola, as provisões líquidas cresceram 23% nos maiores bancos listados na B3
21 de agosto de 2026
Os principais bancos do País demonstraram apetite para aderir ao Novo Desenrola Brasil, em meio à crescente pressão do endividamento das famílias que já se traduz em avanço da inadimplência. O programa, no entanto, teve impacto virtualmente imaterial nos indicadores de qualidade de ativos e nas provisões contra calotes.
A iniciativa é parte de um pacote do governo que busca aliviar o aperto dos juros elevados sobre o bolso dos consumidores e o caixa das empresas. O foco, porém, são trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos e dívidas de até R$ 15 mil, com atrasos entre 90 dias e dois anos. Os descontos chegam a 90%, com base em garantias do Fundo Garantidor de Operações (FGO).
Durante a temporada de balanços do segundo trimestre, os banqueiros foram unânimes em elogiar as medidas voltadas para inadimplentes, articuladas em diálogo com representantes do setor. Por outro lado, indicaram resistência maior para entrar na versão do Desenrola para consumidores informais que estão com as contas em dia.
Mesmo no caso da iniciativa para inadimplentes, o perfil do público-alvo limita o alcance para as maiores instituições financeiras, que têm sido mais cautelosas na concessão de crédito a consumidores em faixa de renda menores. Mesmo com o Desenrola, as provisões líquidas cresceram 23% no comparativo anual do semestre nos quatro maiores bancos listados na B3. Os débitos repactuados entram nas linha de carteira renegociada ou reestruturada nos balanços dos bancos, mas também se refletem nos descontos concedidos.
O Itaú Unibanco, por exemplo, renegociou R$ 1,1 bilhão em dívidas no âmbito do programa e alcançou 371 mil clientes. O volume produziu um alívio de R$ 60 milhões nas provisões líquidas contra calotes de R$ 60 milhões, que representa uma fração dos cerca de R$ 10 bilhões em custo de crédito no trimestre. Na inadimplência, o impacto foi de 0,02 ponto porcentual.
“O Novo Desenrola teve uma adesão maior por parte dos clientes que a primeira versão. Estamos satisfeitos com o market share de 12% que tivemos”, afirmou o presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, durante apresentação dos resultados.
No Bradesco, as repactuações atingiram R$ 2,7 bilhões até junho. “O impacto dele (do programa) em inadimplência acima de 90 dias, ou mesmo no custo de crédito, foi imaterial”, comentou o presidente do banco, Marcelo Noronha.
Na contramão, o Santander indicou que a adesão dos endividados foi baixa. O banco, que enfrentou uma piora na inadimplência em carteiras de pessoa física, não abriu os números exatos, mas indicou que o interesse pelo programa não foi muito elevado. Na versão voltada para pequenas e médias empresas, o alcance sequer chegou a “centenas de milhões”, de acordo com o CFO, Carlos Muñiz. “A parte da pessoa física sim que fizemos algo mais, mas tampouco mudou de patamar o que tínhamos visto em termos de recuperações”, disse.
BB e Nubank têm adesão maior
A demanda foi bem maior no Banco do Brasil, que superou R$ 12 bilhões em renegociações para mais de 440 mil clientes PF e 40 mil empresas. O banco público aproveitou a ocasião também para renegociar dívidas de pessoas que não se enquadram no Desenrola – no total, foram R$ 31 bilhões desde o começo do programa.
O movimento, contudo, pouco freou a contínua escalada das despesas com provisões do BB, ainda impulsionadas pelos desafios na carteira do agronegócio, mas agora também agravadas pela deterioração em cartões de crédito. “É um programa interessante para os nossos clientes e para o desenvolvimento da nossa carteira de crédito para pessoas físicas. Mas, em termos de provisões, não há impacto”, ressaltou o vice-presidente de Controles Internos e Gestão de Risco do Banco do Brasil, Felipe Prince.
A adesão foi ainda mais expressivo entre os bancos digitais que apostam em linhas de crédito sem garantia para públicos de menor renda. No Nubank, foram 1,8 milhão de clientes atendidos e um impacto de 5% no custo de crédito, conforme revelou o novo CFO da fintech, Rob Livingston. O efeito pode aumentar no segundo trimestre, porque o Desenrola foi estendido até o final de agosto.
Para o diretor de Economia, Regulação e Produtos da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Everton Gonçalves, o Desenrola ajuda a aliviar o endividamento no curto prazo, ao trocar dívidas caras por linhas mais baratas. No entanto, o Brasil precisa atuar em medidas estruturais que garantam uma queda mais sustentada dos juros. “Temos que trabalhar estruturalmente para reduzir os spreads bancários”, defende.
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