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Taxa de juros nas altura só piora a situação de quem pega um empréstimo para pagar outro

Economista-chefe da Serasa defende educação financeira desde a base escolar

19 de agosto de 2026

Francisco Carlos de Assis, Gabriela Jucá e Eduardo Laguna

O movimento de rolagem de dívidas por famílias e empresas, marcado pela tomada de empréstimos em uma determinada instituição financeira para honrar obrigações em outra, foi agravado pelo nível elevado dos juros, disse, em conversa exclusiva com a Broadcast, a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack.

Ela conversou com a reportagem após participar como palestrante de um dos painéis da 27.ª Conferência Anual Santander, em São Paulo. De acordo com a economista, essa dinâmica de rolagem de dívidas contribui para restringir o mercado de crédito e dificulta o refinanciamento e a renegociação em condições melhores.

Abdelmalack reforçou que, apesar de o Banco Central buscar alterar a rota da política monetária, a resposta do crédito depende da curva de juros, que ainda embute taxas de dois dígitos por um período prolongado, citando patamar ao redor de 14% em horizontes longos.

Programas de renegociação

A economista-chefe da Serasa Experian defendeu programas de renegociação – como os feirões da Serasa e iniciativas como o Desenrola – como ferramentas relevantes em um momento de crédito mais escasso, mas avaliou que, isoladamente, não resolvem o problema do endividamento. Segundo ela, o estoque de inadimplentes hoje é marcado por uma dinâmica de “entrada e saída”, com a velocidade de novos inadimplentes superando a de pessoas que conseguem regularizar a situação.

“A renegociação é a via, mas sozinha não é suficiente para pavimentar a redução da inadimplência”, disse, ao reiterar que a queda estrutural dos juros é condição necessária para estancar a deterioração dos indicadores.

A economista também apontou que a inadimplência de empresas está em patamar recorde e alertou para o risco de a desaceleração econômica, se atingir o setor produtivo e o mercado de trabalho, transformar a atual alavancagem das famílias em um problema combinado de alavancagem e renda. “Não tem como separar pessoa física e pessoa jurídica, porque está tudo conectado”, afirmou.

Por fim, Abdelmalack citou fatores culturais e de educação financeira como elementos adicionais para o endividamento elevado, mas ponderou que o tema não deve ser usado para responsabilizar o cidadão. Para ela, a educação financeira hoje tem alcance limitado e frequentemente fala com uma bolha, enquanto a parcela que mais precisa de orientação – em um universo em que 51% dos adultos estão inadimplentes – tem menor acesso efetivo ao conteúdo.

Ela defendeu que a educação financeira seja tratada desde a base escolar e observou que a maior pulverização de instituições e modelos de negócio no crédito também mudou o comportamento do consumidor, inclusive na escolha de quais dívidas priorizar, à medida que diferentes credores oferecem condições e incentivos distintos.

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