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Recorde de governadores eleitos no 1º turno amplia desafio de Lula e Flávio contra abstenção

12 de outubro de 2026, às 07:33

Por Hugo Henud, do Estadão

São Paulo, 12/10/2026 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegam à reta final da disputa presidencial diante de um desafio a mais: manter mobilizados milhões de eleitores em Estados onde a disputa estadual já terminou e nos quais o histórico registra aumento médio da abstenção no segundo turno.

Ao todo, 21 governadores foram escolhidos já na primeira rodada, número recorde desde a redemocratização. O grupo inclui São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os três maiores colégios eleitorais do País, além de oito dos nove Estados do Nordeste. Juntas, essas 20 unidades concentram cerca de 84% do eleitorado brasileiro.

O desafio aumenta porque mais de 33 milhões de brasileiros não compareceram às urnas no primeiro turno, maior número absoluto de ausentes já registrado em uma eleição geral. O tamanho desse contingente ganha relevância diante da distância de apenas 1,87 ponto porcentual entre os dois candidatos, a menor já registrada entre os dois primeiros colocados em um primeiro turno presidencial. Flávio terminou com 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Lula.

Cientistas políticos ouvidos pelo Estadão apontam que o fim antecipado das disputas estaduais produz um efeito duplo sobre a campanha. Sem uma eleição para governador pela frente, diminui o incentivo para que prefeitos, deputados e lideranças locais mantenham suas estruturas mobilizadas. Ao mesmo tempo, os governadores já eleitos ficam livres de suas próprias campanhas e ganham condições de direcionar essa rede política para a disputa presidencial.

As duas campanhas, por sua vez, adotam estratégias distintas para evitar que a desmobilização prevaleça nesses Estados e manter essas estruturas ativas até a reta final da eleição.

O histórico das eleições presidenciais ajuda a explicar essa preocupação. Levantamento do Estadão com as disputas desde 2002 mostra que, dando o mesmo peso a cada Estado, a média da abstenção nas unidades que já haviam escolhido governador passou de 19,1% no primeiro turno para 22,4% no segundo, aumento médio de 3,4 pontos porcentuais. Em 2002, quando ocorreu a maior alta da série, o índice saltou de 20% para 26,1%, diferença de 6,1 pontos.

Desafio para Lula no Nordeste

Em 2026, esse cenário coloca os governadores recém-eleitos no centro da estratégia de Lula. Nesta semana, o presidente se reuniu em Brasília com Jerônimo Rodrigues, da Bahia, Elmano de Freitas, do Ceará, e Rafael Fonteles, do Piauí, todos reeleitos no primeiro turno, para discutir como ampliar a mobilização na segunda rodada. Os três Estados, juntos, registraram cerca de 3,8 milhões de eleitores ausentes no domingo, contingente que passou a ser um dos focos da campanha petista.

Para a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), a prioridade é ampliar a vantagem de Lula na região e levar às urnas parte dos eleitores que não compareceram no primeiro turno. A aposta passa pela capilaridade dos governadores para manter prefeitos, deputados e lideranças municipais mobilizados mesmo depois de encerradas as próprias disputas. “Nesses Estados em que Lula venceu, precisamos aumentar a votação de Lula, diminuindo a abstenção”, diz.

A senadora afirma que esse esforço deve ser acompanhado pela tentativa de ampliar a rejeição a Flávio e reforçar as diferenças entre os dois candidatos. Segundo ela, o contraste entre os presidenciáveis também pode servir para mobilizar quem ficou em casa na primeira rodada. “Precisamos mostrar e confrontar o que são cada um. Precisa mobilizar para vencer”, afirma

A avaliação do cientista político Antonio Lavareda ajuda a explicar essa aposta. Para ele, a abstenção atingiu proporcionalmente mais o eleitorado potencial de Lula e ajuda a entender por que o presidente terminou atrás de Flávio.

Lavareda aponta que a ausência costuma ser maior entre parcelas de menor renda, segmento no qual o petista apresenta desempenho eleitoral mais elevado, e estima que Lula tenha deixado de receber ao menos cinco pontos porcentuais pelo menor comparecimento de potenciais apoiadores. “Uma das chaves para Lula virar está no eleitorado que deixou de votar”, diz.

Para Lavareda, o desafio é ainda maior nos Estados em que a eleição para governador já foi resolvida. “Sem uma candidatura estadual puxando a campanha, parte da estrutura política perde intensidade, e os presidenciáveis passam a depender mais da própria capacidade de levar novamente o eleitor às urnas”, explica.

O diagnóstico também aparece dentro do PT. Aliados ouvidos pelo Estadão temem que o resultado do primeiro turno desanime apoiadores do presidente e reduza o ritmo da campanha nos Estados. Para o secretário de Comunicação da legenda, Éden Valadares, governadores e senadores que participaram da mobilização na primeira rodada deverão intensificar a atuação no segundo turno.

Efeito contrário também pode ser observado

Essa mesma dinâmica, porém, também pode produzir o efeito contrário, explica o professor do Insper Leandro Cosentino. Depois de assegurar quatro anos de mandato, diz, um governador deixa de concentrar a estrutura política na própria candidatura e passa a ter condições de direcioná-la à corrida presidencial. “Nestes casos, o governador fica mais livre para apoiar o seu aliado presidencial”, explica.

Um exemplo ocorreu em Minas Gerais em 2022. Naquele ano, Romeu Zema (Novo) foi reeleito governador no primeiro turno e, na sequência, entrou na campanha de Jair Bolsonaro. Entre as duas rodadas, Bolsonaro passou de 43,6% para 49,8% dos votos válidos no Estado, enquanto a vantagem de Lula sobre o então presidente encolheu de 4,7 para 0,4 ponto porcentual

É nessa possibilidade de colocar governadores aliados já eleitos a serviço da campanha presidencial que Flávio também aposta. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), afirma que a orientação é aproveitar candidatos e lideranças que já garantiram mandato para manter a campanha ativa nos Estados. “Temos que usar quem já foi eleito para ampliar a votação de Flávio e diminuir a abstenção que geralmente ocorre nessas situações”, diz.

São Paulo e Minas Gerais, os dois maiores colégios eleitorais do País, estão no centro da estratégia de Flávio. O senador venceu nos dois Estados, que também registraram algumas das maiores taxas de abstenção no primeiro turno.

Em São Paulo, a expectativa da campanha é que Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito no primeiro turno, intensifique a atuação na campanha de Flávio. A estratégia é aproveitar a força eleitoral e a rede política do governador em agendas no Estado e também em viagens a outras regiões. Em Minas, a aposta é que o governador eleito Cleitinho (Republicanos) e o deputado Nikolas Ferreira (PL) façam movimento semelhante.

A ausência de uma disputa estadual, porém, é apenas um dos fatores que ajudam a explicar a abstenção. Os cientistas políticos citam também o menor envolvimento do eleitor com a campanha, o desgaste com a política, a facilidade para justificar a ausência ou pagar uma multa da Justiça Eleitoral e o cansaço acumulado depois de duas eleições presidenciais marcadas por forte polarização.

“Quem conseguir engajar mais o eleitorado, sobretudo onde a eleição para governador já foi resolvida no primeiro turno, ganhará a disputa”, resume Lavareda.

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