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7 de outubro de 2026, às 13:10
Por Antonio Perez
São Paulo, 07/10/2026 – A forte apreciação do real desencadeada pelo resultado surpreendente do primeiro turno da eleição presidencial no último domingo, 4, pode se estender pelas próximas semanas caso Flávio Bolsonaro dê sinais mais claros sobre seu plano econômico até a realização do segundo turno, aponta a maioria dos economistas e estrategistas de bancos e consultorias estrangeiras ouvidos pela Broadcast.
A avaliação é de que a queda de 4,12% do dólar frente ao real nesta segunda-feira, 5, para a casa de R$ 5,00, nos menores níveis desde o fim de maio, reflete uma redução dos prêmios de risco diante da perspectiva de uma mudança da política fiscal com um eventual triunfo de Flávio. O candidato do PL amealhou 2,2 milhões de votos a mais que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, contrariando as principais pesquisas eleitorais.
“A reação do real foi muito forte. Minha impressão, dada a apreciação tanto hoje quanto antes da eleição, é que já vimos a maior parte dos ganhos. Mas há espaço para o rali continuar um pouco mais se Flávio apresentar mais detalhes de seus planos de reforma”, afirma o economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, William Jackson.
O economista lembra que um eventual governo de Flávio tende a aumentar a expectativa de aperto fiscal, reformas estruturais e melhora das relações do Brasil com os Estados Unidos, com eventual retirada de tarifas americanas sobre exportações brasileiras. Além disso, o desempenho positivo do PL, partido do candidato, nas eleições legislativas aumenta as chances de implementação da agenda econômica de Flávio, embora não elimine os riscos de dificuldades na tramitação de medidas no Congresso.
Para o economista-chefe da Pantheon Macroeconomics, Andres Abadia, a arrancada inicial do real é “compreensível” e reflete uma “expressiva reprecificação” do risco político e fiscal com a perspectiva de alternância de poder. Ele alerta, contudo, que é cedo para apostar em uma tendência de apreciação da moeda brasileira.
Abadia pondera que pode haver fatos que alterem as expectativas para o desfecho da corrida presidencial, uma vez que as três semanas até a realização do segundo turno representam um “longo período em termos de ciclos políticos na América Latina”. O avanço da direita no Congresso “potencialmente melhora as condições políticas para uma consolidação fiscal”, mas não garante o sucesso de reformas estruturais.
“Entregar essa consolidação é, em última análise, muito mais importante para os ativos brasileiros do que o próprio resultado da eleição. A sustentabilidade desse rali depende de um plano crível para as contas públicas”, afirma Abadia, ressaltando que “uma mudança de governo não resolve automaticamente o problema fiscal”, cuja solução exige “decisões difíceis sobre gastos obrigatórios”.
Na mesma linha, os estrategistas globais do grupo Macquarie, Thierry Wizman e Gareth Berry, ressaltam que o próximo presidente vai encontrar um quadro de “flexibilidade orçamentária limitada”, com despesas obrigatórias crescentes e alto custo de serviço da dívida. A sustentabilidade do rali dos ativos domésticos depende de Flávio, caso seja eleito, apresentar um “plano crível” para ajustar as contas públicas.
Embora ponderem que a eleição ainda não está definida e prevejam uma disputa muito acirrada no segundo turno, os estrategistas avaliam que Flávio parece favorito, uma vez que eleitores que não votaram em outros nomes ligados ao centro ou à direita “provavelmente” tendem a optar pelo candidato do PL. “Por enquanto, é difícil defender nossa projeção de R$ 5,30 no fim do ano, que era baseada na premissa de que Lula venceria a eleição”, afirmam Wizman e Berry, que trabalham na revisão das estimativas para a taxa de câmbio.
O analista de câmbio Thu Lan Nguyen, do Commerzbank, tem dúvidas sobre o fôlego do real, apesar da reação inicial muito favorável do mercado ao desempenho de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, que aumentou “significativamente” as chances de uma vitória da oposição na disputa pelo Palácio do Planalto.
“A grande questão é quanto essa euforia vai durar. O Bolsonaro pai também começou seu mandato com uma agenda liberal ambiciosa, mas seus planos não foram de nenhuma maneira implementados na magnitude esperada”, afirma Lan Nguyen, lembrando que a pandemia da covid-19 e a crise de energia com a guerra na Ucrânia levaram o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro a relaxar regras de gasto público. “Quem está ‘bullish’ com o real não deve celebrar tão cedo.”
O estrategista de mercados emergentes do Société Générale, Brendan McKenna, vê uma janela para continuidade da apreciação do real até, pelo menos, a realização do segundo turno, em 25 de outubro, com base em movimentos que ocorreram entre as duas rodadas de votação em 2018 e 2022.
“Embora cada ciclo eleitoral seja diferente, acreditamos que o real pode seguir um padrão semelhante após a vitória surpreendente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, com continuidade nas próximas semanas”, afirma McKenna. “O segundo turno parece atuar como o ponto em que o impulso político do real começa a diminuir e as tendências mais amplas nos mercados financeiros globais se tornam a principal influência sobre a moeda.”
McKenna aponta que vai usar a data de realização do segundo turno “como um cronograma aproximado” para a manutenção de posições “vendidas” em dólar e euro contra o real. O estrategista diz que estará atento “às tendências políticas nas próximas semanas” e, caso haja sinais de que o real “pode se comportar de maneira semelhante ao peso colombiano após as eleições gerais na Colômbia”, pode sugerir manter as posições favoráveis à moeda brasileira “por um período mais prolongado”.
Com uma posição “vendida” em dólar frente ao real desde 19 de agosto, o estrategista Álvaro Vivanco, do Wells Fargo, vê continuidade do movimento de apreciação do real nas próximas semanas. Ele pondera que já via os “fundamentos” da moeda brasileira “bastante atraentes” antes do desfecho do primeiro turno.
“Os ativos domésticos se comportaram, grosso modo, em linha com as nossas expectativas dado o resultado da eleição. Nossa estimativa de valor justo em caso de um resultado favorável ao mercado é de dólar a R$ 4,75”, afirma Vivanco, para quem a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro continuará a ter um impacto positivo para os ativos brasileiros.
Contato: antonio.perez@estadao.com
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