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Lorenna Rodrigues: Mercado acredita nas promessas que Flávio Bolsonaro prefere esconder

9 de outubro de 2026, às 20:50

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Quando Jair Bolsonaro foi eleito, em 2018, parte de seus eleitores escolheu ignorar o que ele falava. A expectativa era de que o discurso raivoso seria moderado e que aquele candidato caricato que bradava contra minorias e elogiava a ditadura mudaria de postura uma vez sentado na cadeira de presidente. Não foi o que aconteceu. Bolsonaro continuou no “personagem” durante o mandato e está preso por tentativa de golpe de Estado.

Agora, com o filho Flávio Bolsonaro (PL) concorrendo à Presidência, uma fatia do eleitorado tem optado por acreditar no que ele não fala. A euforia do mercado financeiro com o resultado favorável ao senador mostra que os agentes esperam um ajuste fiscal significativo e reformas que não constam do programa do candidato nem estão contempladas nas falas públicas de seus assessores econômicos.

Flávio afirma que fará um “tesouraço” nos gastos públicos, mas não explica que despesas serão cortadas. Seus assessores falam em reduzir ministérios – o que traria alguma economia, mas nada relevante o suficiente para mexer na relação dívida/PIB. Também falam em vender imóveis da União, algo que vem sendo tentado há anos e que o ex-ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, também prometeu sem concretizar.

Cortes e reformas mais substanciais, que teriam o condão de gerar superávits primários e ajustes nas contas, têm sido negados insistentemente pela campanha. Matéria da Folha de S.Paulo mostra que está em estudo pela equipe de Flávio reduzir despesas obrigatórias para alcançar um ajuste de 2% do PIB, cerca de R$ 250 bilhões. E lista o que seria feito: acabar com o reajuste de aposentadorias e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) vinculado ao salário mínimo e com os pisos constitucionais para saúde e educação.

Também circularam nesta quarta-feira entre agentes do mercado propostas que assessores de Flávio teriam apresentado ainda em agosto, que incluem a apresentação de uma “super PEC” para fazer um ajuste de cerca de R$ 200 bilhões. Confrontado, Flávio negou a desvinculação dos benefícios previdenciários: “Aposentado, fique tranquilo. Não cai nessa fake news do PT dizendo que eu vou acabar com reajuste aposentadoria. Pelo contrário”.

Em qual versão do candidato os investidores vão acreditar? Em público, Flávio e seus assessores batem na tecla do ajuste, mas rapidamente negam cortes de benefícios. Em entrevistas, a coordenadora da área econômica, Daniella Marques, disse inclusive que a política de aumento real do salário mínimo continuará.

Flávio, na verdade, tem prometido mais gastos. Pelo apoio do agro, disse que dará crédito mais barato ao setor e ampliará o seguro rural, o que significa custo maior para a União. E já anunciou, por exemplo, um “Desenrola” para chamar de seu, que congelaria dívidas por seis meses de pessoas físicas e por um ano para pessoas jurídicas.

Até agora, o mercado tem preferido se fiar no Flávio das reuniões privadas e não no candidato que aparece em público. Aguarda uma reforma que não está em programas, falas, nem em nenhum lugar fora de encontros fechados. Se eleito, Flávio terá um desafio, quase impossível: o de cumprir com aquilo que falou em público e também com as expectativas pelo que não falou.

Lorenna Rodrigues é jornalista da Broadcast.

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