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Geração Z ainda pensa em comprar casa própria, mas já não quer ficar nela a vida inteira

7 de outubro de 2026, às 16:40

Por Circe Bonatelli

São Paulo, 07/10/2026 – As pessoas mais jovens ainda têm interesse em comprar a casa própria e formar um patrimônio, recorrendo ao aluguel apenas quando não têm condições financeiras para assinar um contrato de aquisição.

No entanto, o imóvel tem uma função mais passageira. Ou seja: os jovens têm convicção de que irão trocar o imóvel em algum momento dos anos seguintes. Esse é um perfil distinto da maioria dos pais e avós, que compravam a primeira moradia já pensando em viver ali com a família um período longo, durante muitas fases da sua vida.

A conclusão é da consultoria Brain Inteligência Imobiliária. Segundo levantamento feito com jovens da geração Z (até 28 a 29 anos), 90% dos que pretendem comprar um novo imóvel já planejam trocá-lo no futuro, enxergando a aquisição como algo temporário.

“Esse jovem já está pensando no segundo imóvel antes de comprar o primeiro. Eles entendem que essa compra vai ser provisória”, avaliou Fábio Tadeu Araújo, presidente da Brain.

Uma hipótese para isso está na dificuldade da geração Z em comprar logo de cara um imóvel do seu gosto em termos de localização, tamanho, planta e, principalmente, preço, pois a grana é curta.

Segundo a Brain, 44% dos jovens pretendem recorrer ao financiamento bancário para comprar um imóvel. Embora consigam arcar com parcelas mensais, há uma grande limitação no acúmulo de poupança. Apenas 3% têm condições de dar R$ 100 mil de entrada.

“Comprar o primeiro imóvel significa começar. Não ficar nesse imóvel com a família a vida toda. Existe um paradigma conceitual que o mercado precisa acompanhar”, afirmou Eduarda Tolentino, presidente da incorporadora BRZ, com atuação no Minha Casa, Minha Vida. “Para a geração Z, o primeiro imóvel é o início da formação do seu patrimônio”.

A visão foi compartilhada pelo empresário Cláudio Carvalho, presidente da AW Realty, incorporadora com atuação do médio ao alto padrão. “Os jovens continuam tendo interesse em comprar impovel da casa própria. Se não podem, aí vão para o aluguel”, observou.

Carvalho apontou ainda o crescimento no número de pessoas que moram sozinhas, desde jovens até a população da terceira idade. Com isso, há mais ofertas de imóveis compactos e com itens variados de condomínio. “Os apartamentos são menores, mas precisamos ter todas as áreas possíveis dentro do condomínio, com uma gama diferente de serviços para atender a vários públicos”, afirmou.

A adaptação do mercado imobiliário à geração Z envolve também reforçar a oferta de informações por meio de canais digitas, com emprego de inteligência artificial (IA). A visão é de Ramon Azevedo, presidente da startup Morada AI. “Na geração Z, a pessoa quer ser atendida de modo 100% virtual. Ela não quer falar com ninguém. Ela quer ver mais fotos, vídeos e não marca visita de primeira. Se marca visita, é para fechar negócio”, observou.

Azevedo afirmou que as pessoas mais jovens recorrem a agentes de IA para pesquisa do imóvel, do empreendimento e da região. A visita ao estande serve para esclarecimento de dúvidas e para assinar o contrato. Diante desse perfil de público – que levanta muitas informações previamente – as incorporadoras devem reforçar o treinamento dos corretores, alertou.

“É comum esse público saber mais sobre o imóvel e sobre a região do que o próprio corretor. Muitas vezes, ele fala com o atendente no local e não encontra a mesma qualidade de informação que a IA, e acaba perdendo a paciência. Aí quebra o ciclo da venda”, disse o presidente da Morada AI.

A presidente da BRZ confirmou esse tipo de situação. “O cliente da geração Z chega no imóvel tendo feito todas as pesquisas. Aí nosso corretor reclama que a IA está tirando o seu trabalho”, contou Eduarda. Segundo ela, é necessário adaptar a empresa. Hoje, a geração Z responde por 55% das vendas da companhia. Há cerca de três anos, eram perto de 35%.

O levantamento da Brain mostrou ainda que a geração Z tem permanecido mais tempo no lar familiar, seja pela tentativa de poupar recursos ou pela conveniência do dia a dia. Além disso, 41% dos jovens vivem em imóveis de três quartos (frequentemente ainda com a família).

O debate ocorreu durante o Incorpora 2026, evento anual organizado pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) que reúne empresários e autoridades públicas.

Contato: circe.bonatelli@estadao.com

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