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El Niño reforça preparação do setor de saneamento para eventos climáticos extremos

Investimentos são, sobretudo, em tecnologia, monitoramento e infraestrutura. Fenômeno deve reduzir chuvas no Norte e Nordeste, aumentar calor no Sudeste e Centro-Oeste com risco de enchentes no Sul.

3 de julho de 2026

Elisa Calmon

A previsão de um El Niño intenso tem levado concessionárias de saneamento a reforçar estratégias para enfrentar eventos climáticos extremos. As empresas ampliam investimentos em tecnologia, monitoramento e infraestrutura, enquanto a regulação começa a incorporar essa agenda.

A previsão para o próximo ciclo de El Niño indica redução das chuvas em parte do Norte e do Nordeste, o que pode comprometer a disponibilidade hídrica. No Sudeste e Centro-Oeste, a tendência é de temperaturas mais elevadas, aumentando o consumo de água e a pressão sobre os sistemas de abastecimento, segundo o sócio-diretor e meteorologista da Nottus, Alexandre Nascimento.

Os impactos sobre o saneamento, porém, vão além. “Muito se fala em água e esgoto, mas tem também a questão da drenagem”, afirma o sócio da LMDM Consultoria, Carlos Lebelein. Segundo ele, o excesso de precipitações no Sul tende a sobrecarregar os sistemas de drenagem urbana, ampliando o risco de enchentes.

Nascimento destaca que o El Niño deverá ocorrer em um cenário de temperaturas globais já elevadas, o que exigirá monitoramento permanente e uma gestão cada vez mais eficiente dos recursos hídricos. “Estamos vivenciando um novo normal. As empresas vão ter que utilizar muita inteligência para conseguir gerir um problema que veio para ficar”, diz.

Preparo

Na Aegea, o planejamento para eventos climáticos leva em consideração os impactos regionais distintos do El Niño, segundo o vice-presidente da companhia para as regiões Norte e Nordeste, Renato Médicis. Para isso, a empresa utiliza modelos de inteligência artificial que antecipam cenários com até seis meses de antecedência, cruzando dados sobre consumo de água, níveis de rios e previsões meteorológicas.

Em Manaus, por exemplo, a Aegea reposicionou antecipadamente bombas de captação no Rio Negro durante a seca histórica de 2024. As projeções também orientaram investimentos em novos poços, reservatórios e na ampliação da oferta de água no Piauí e no Pará. “Trabalhamos sempre de forma preventiva, para não precisarmos atuar de maneira reativa”, diz Médicis.

O diretor de Produção e Tratamento da Sabesp, Marco Antonio Lopez Barros, relata que a crise hídrica de 2014 e 2015, a mais severa já enfrentada pelo Estado de São Paulo, foi uma “lição dura”, incorporada ao DNA da companhia.

Entre 2025 e 2030, a Sabesp prevê investir R$ 7,8 bilhões em segurança e resiliência hídrica, reforçando a agenda após a privatização. O plano inclui ações para combater perdas, como o uso de tecnologia para localizar vazamentos, a instalação de hidrômetros inteligentes e a distribuição de caixas d’água para famílias mais vulneráveis, reduzindo os impactos da gestão de pressão adotada em períodos de escassez hídrica.

“Não considerar que hoje há alterações no clima em relação ao que tínhamos há 20 anos é fechar os olhos para os dados”, afirma Barros. Contudo, ele pondera que conciliar investimentos em resiliência climática com as metas de universalização é um desafio para o setor, especialmente para empresas de menor porte.

Na Iguá Saneamento, a adaptação climática passou a integrar o planejamento operacional. Desde 2022, a companhia desenvolve planos de segurança hídrica e de resiliência climática, além de centros de controle que monitoram, em tempo real, rios, reservatórios, vazões e tendências climáticas para antecipar riscos.

Entre as iniciativas estão a ampliação de reservatórios, a modernização dos sistemas de distribuição e a elaboração de planos de contingência para enfrentar eventos extremos. “Não temos como fazer chover, mas podemos melhorar o sistema para preparar a empresa para situações mais críticas”, afirma a diretora de Operações (COO), Paula Violante.

Avanços regulatórios

Do ponto de vista regulatório, a incorporação do tema é mais gradual. Ana Cândida, sócia do BMA Advogados, observa que os contratos de concessão mais recentes passaram a tratar de forma mais específica os riscos climáticos.

Como exemplo, ela cita o contrato de privatização da Sabesp, que prevê medidas preventivas para enfrentar situações recorrentes de escassez hídrica e estabelece regras específicas para eventos climáticos extremos que ultrapassem a capacidade de mitigação da concessionária.

Para a advogada, a evolução da regulação acompanha uma transformação mais ampla no setor. “O desafio agora é adaptar a infraestrutura a um cenário em que secas, enchentes e ondas de calor tendem a ocorrer com maior frequência e intensidade”, afirma.

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