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País ainda enfrenta cenário que sugere insegurança, juros e endividamento altos e preocupação com violência
12 de agosto de 2026
O governo Lula já tem exaltado o alívio na inflação de curto prazo em discursos de campanha que miram a reeleição. Esse trunfo, junto a um cenário de mercado de trabalho forte, com desemprego nas mínimas históricas e crescimento real da renda média, ajuda a manter a candidatura competitiva, mas deve ser insuficiente para se sustentar como um fator decisivo na frente econômica que mira a reeleição do atual chefe do Executivo, avaliam economistas ouvidos pela Broadcast.
Ainda que o País registre alguma melhora em indicadores, também enfrenta um cenário que sugere insegurança, com juros altos, endividamento elevado e uma preocupação maior com a violência, que deve ofuscar os anseios com a economia como um todo nessas eleições. A percepção da maioria do eleitorado, por ora, é de economia pior, preços dos alimentos altos no último mês e redução no poder de compra.
Com esse cenário, o governo precisou recorrer a outros elementos para sustentar essa competitividade, como a ampliação da isenção do Imposto de Renda, liberação de crédito consignado e o programa Desenrola, que reduz o endividamento das famílias. “É uma economia como um todo que mantém a candidatura de Lula competitiva, mas não fecha a porta para uma vitória da oposição”, resume o cientista político da Tendências Consultoria, Rafael Cortez.
Pesquisa Genial/Quaest realizada entre 31 de julho e 3 de agosto aponta que 68% dos respondentes consideram que o preço dos alimentos no mercado subiu no último mês, enquanto 21% avaliam que ficou igual, outros 9% atestam que caiu e 2% não souberam ou não quiseram responder. A leitura da pesquisa também aponta a maioria (69%) vendo poder de compra menor na comparação com um ano atrás.
Ao mesmo tempo em que o eleitorado percebe uma economia com uma série de gargalos, o vice-presidente Geraldo Alckmin reiterou os esforços para colocar a inflação como um dos argumentos eleitorais durante a Convenção Nacional do PT, no domingo 2 de agosto, que oficializou a candidatura de Lula à reeleição.
“Um desemprego baixo, assim como uma inflação baixa, é difícil de se obter porque, em geral, quando a inflação está baixa o desemprego está alto; quando o desemprego está baixo, a inflação está alta. E conseguimos, presidente, as duas coisas no nosso País”, completou.
O governo está de olho na melhora de indicadores econômicos no curto prazo, após os efeitos do choque do petróleo na primeira parte do ano. As últimas divulgações do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foram abaixo do esperado pelo mercado – com alta de 0,16% em junho e de 0,06% na prévia de julho -, amparadas pelo alívio em alimentos. Agora, alguns efeitos estão sendo devolvidos, mas se mantém a cautela quanto aos efeitos do conflito em horizontes mais longos.
“Estamos, provavelmente, vivendo uma calmaria antes da tempestade, com a expectativa de pressões oriundas do El Niño. Dá para afirmar que a inflação de curto prazo está bem comportada, mas não é uma tendência”, afirma o economista e especialista em inflação da 4intelligence, Fabio Romão. Segundo ele, os dados recentes indicam que a inflação “parou de piorar” após os efeitos iniciais do choque. “Tem a sazonalidade dos alimentos, mas foi exacerbada pela devolução de itens in natura”, destaca.
Apesar da melhora pontual, as métricas no acumulado em 12 meses seguem pressionadas, o que sugere desafios à frente e manutenção dos juros em níveis restritivos. Os cálculos de Romão indicam alta de 4,48% para o IPCA de julho, 4,47% em agosto – menor pela entrada do bônus de Itaipu – e 4,51% em setembro. Os números passam a subir a partir de outubro, com projeção de alta de 4,81%, novembro em 4,97%, e finaliza o ano em alta de 5,33%, acima do teto da meta de inflação, de 4,5%. “O viés é de alta, pelo El Niño e pelo conflito no Oriente Médio”, afirma.
O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, reconhece que as medidas anunciadas pelo governo para turbinar a frente econômica têm apelo popular e torna o cenário mais desafiador para a oposição. “Fica difícil para a direita se contrapor. O governo está cumprindo o caminho que se esperava para o governo que não tem muito espaço para um ajuste fiscal e precisa se reeleger”, completa.
Cortez, da Tendências, considera que o eleitorado deve ficar mais de olho em temas que envolvem a soberania nacional – como as relações entre Brasil e Estados Unidos – e as ligações com a economia. Quanto às discussões em torno de um ajuste fiscal, ele reconhece que o tema “dificilmente consegue votos”, independentemente do lado político neste momento. “Deve vir como acessório a outra narrativa, de crítica à ideia de um governo que gasta muito, do que efetivamente trazer um diagnóstico mais concreto do que cada candidatura vai apresentar ou não”, observa.
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