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Na carona de SpaceX, setor aeroespacial do País quer atrair capital

Nova geração de projetos inclui satélites, tecnologias hipersônicas, veículos lançadores e segurança, como mísseis e drones

26 de junho de 2026

Por Elisa Calmon

Impulsionado por investimentos públicos, o setor aeroespacial brasileiro busca uma retomada após décadas de avanços irregulares. O desafio agora é transformar capacidade técnica em negócios capazes de atrair a atenção e o capital da Faria Lima para ganhar escala e competir em nível internacional.

A nova geração de projetos inclui iniciativas ligadas à indústria de satélites, veículos lançadores, tecnologias hipersônicas e sistemas de defesa e segurança, como mísseis e drones. As soluções têm aplicações que vão do monitoramento de fronteiras e do meio ambiente às telecomunicações, navegação e segurança digital.

“Outros países já acordaram há muito tempo para o fato de que o setor é muito mais um ecossistema econômico do que puramente tecnológico”, afirma Lucas Fonseca, engenheiro espacial e CEO da Airvantis, empresa que desenvolve e investe em negócios ligados à economia espacial.

Estimativas indicam que o mercado de negócios espaciais pode chegar a US$ 1 trilhão até 2030. De acordo com a Airvantis, a América Latina pode representar 8% desse montante, sendo que o Brasil taria o potencial para concentrar 5% do mercado, algo em torno de US$ 50 bilhões até o início da próxima década.

Apesar desse potencial, Fonseca destaca que a conexão entre o setor e o mercado de capitais no Brasil ainda é quase inexistente. “A Faria Lima é muito distante do tema. Tem poucas pessoas que investem de forma estruturada na área espacial e isso deixa o investidor inseguro de aportar”, diz.

Em meio ao aumento das tensões geopolíticas e à busca por maior autonomia em áreas estratégicas, o setor ganhou relevância. A entrada da SpaceX na Bolsa, que movimentou mais de US$ 85 bilhões, ampliou a visibilidade da economia espacial. A companhia foi avaliada na casa do trilhão de dólares. Ainda assim, Fonseca avalia ser cedo para saber se isso resultará em maior interesse dos investidores brasileiros.

Altos e baixos

A corrida espacial brasileira viveu altos e baixos nas últimas décadas. “Depois do acidente em Alcântara em 2003, tivemos um hiato no desenvolvimento”, diz Raphael Galate, cofundador e diretor financeiro da Bizu Space, empresa brasileira especializada em tecnologia de foguetes.

No entanto, para Galate, os investimentos realizados nos últimos anos ajudaram a impulsionar uma nova fase. “O Brasil está super bem posicionado”, afirma. Segundo o executivo, o País combina mão de obra qualificada, experiência no desenvolvimento de satélites e uma localização privilegiada para lançamentos em Alcântara, no Maranhão.

No início de 2025, o governo criou a Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil (Alada), responsável pela exploração comercial da infraestrutura espacial brasileira. Em dezembro do mesmo ano, Alcântara recebeu a primeira tentativa de lançamento comercial de um foguete a partir do Brasil.

O maior interesse pelo setor também pode ser observado na SpaceBR Show, feira que reúne empresas e instituições das áreas de espaço, drones, defesa e inteligência geoespacial. A participação do segmento espacial passou de cerca de 5% da feira há cinco anos para algo entre 20% e 25% atualmente, segundo os organizadores.

A edição realizada na semana passada em São Paulo reuniu representantes de 40 países, entre eles Estados Unidos, China, Alemanha, Argentina, Chile e Colômbia.

Fomento público

Dentro da estratégia da Nova Indústria Brasil (NIB), a Finep direcionou, desde 2023, mais de R$ 2 bilhões para 76 projetos ligados à Missão 6, voltada à soberania e defesa nacional. No fim de maio, a Finep e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) anunciaram uma carta-convite com R$ 500 milhões para projetos nas áreas de mísseis, veículos não tripulados, inteligência artificial, tecnologia nuclear e sistemas espaciais.

“A construção da soberania nacional passa necessariamente pelo domínio de tecnologias estratégicas”, diz a ministra do MCTI, Luciana Santos.

Lucas Fonseca avalia que a indústria espacial brasileira ainda opera sob um modelo de “40 anos atrás”, fortemente dependente das encomendas estatais. Para ele, o governo precisa atuar na aproximação entre as empresas do setor e o mercado de capitais.

“Mesmo em outros países, o segmento precisa de aporte público. Mas, à medida que o espaço se torna uma fonte relevante de negócios, o setor privado passa a olhar para ele com mais interesse”, afirma o CEO da SpaceBR Show, Emerson Granemann.

Projetos

Um dos destaques do setor é o Manta, da Iacit. Apoiado pela Finep, o projeto combina radares além do horizonte, dados de satélite e inteligência artificial para ampliar a vigilância da Amazônia Azul.

“Somos a única empresa brasileira com essa tecnologia, dominada por poucos países no mundo”, ressalta o CEO da Iacit, Luiz Teixeira. Segundo o executivo, já há negociações em andamento com países interessados na solução, embora ainda não existam contratos assinados.

Já o Micro Lançador Brasileiro (MLBR), também apoiado pela Finep, está entre as principais apostas para inserir o Brasil no mercado de lançamentos responsivos de satélites. A Bizu Space, envolvida no desenvolvimento do projeto, estima que o veículo alcance a fase de prontidão para lançamento entre o fim de 2027 e o início de 2028, de acordo com Galate.

A carteira da Finep inclui ainda o SatVHR, satélite de observação da Terra que recebeu R$ 220 milhões. Considerado o maior projeto de subvenção da história da financiadora, ele deverá ampliar a capacidade brasileira de monitoramento de fronteiras, inteligência territorial e acompanhamento ambiental.

Também fazem parte do portfólio o VCUB1, primeiro nanossatélite de alto desempenho da indústria privada nacional, e o RATO-14X, voltado ao desenvolvimento de tecnologias hipersônicas. Os recursos alcançam ainda iniciativas nas áreas de defesa, drones e cibersegurança.

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