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Para José Marcio Camargo, da Genial Investimentos, seria complicado justificar corte de juro se BC não ampliasse horizonte para inflação
20 de junho de 2026
Por Francisco Carlos de Assis
A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), anunciada na quarta-feira passada, pode comprometer parte da credibilidade construída pelo Banco Central nos últimos dois anos, afirmou à Broadcast o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo.
Ele classificou o comunicado pós-reunião como desastroso por, no mesmo texto, descrever um cenário desfavorável a novos cortes de juros e, em seguida, tentar justificar a redução da Selic ao alongar o horizonte relevante do quarto trimestre de 2027 para o primeiro de 2028, por reconhecer a dificuldade de levar a inflação ao centro da meta. “Rolar o horizonte relevante é razoável. Mas nunca poderia ter reduzido a taxa de juro”, disse Camargo.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
Broadcast: Há gente no mercado dizendo que o BC deveria ter parado de cortar a Selic. O que o senhor achou da decisão?
José Márcio Camargo: Nós também achávamos que o Copom deveria ter parado, pelas mesmas razões do comunicado: inflação acelerando, expectativas descoladas do centro da meta, a guerra no Oriente Médio, que a gente nem sabe ainda se vai acabar, e excesso de demanda, claramente devido ao fato de termos um governo com políticas fiscal e parafiscal bastante expansionistas.
Broadcast: O senhor achava que deveria parar ou que ele ia parar?
Camargo: Apesar de o Banco Central ter listado no comunicado todas as razões que nos levavam a achar que ele deveria parar de cortar a taxa de juro, sabíamos que ele ia cortar a Selic. O cenário descrito é muito parecido com o nosso. Por exemplo, a nossa projeção para a inflação no horizonte relevante da política monetária é de 3,7% como eles projetaram. Mas a nossa avaliação era a de que o BC ia acabar empurrando o horizonte relevante para 2028.
Broadcast: Já na reunião de ontem?
Camargo: Sim.
Broadcast: Por quê?
Camargo: Porque a projeção deles para a inflação no horizonte relevante, no último trimestre de 2027, era de 3,7%. Ia ser difícil justificar uma queda da taxa de juros. Então rolaram o horizonte relevante para ter mais três meses e justificar a queda. O problema é que a segunda parte do comunicado foi um desastre, do meu ponto de vista.
Broadcast: Por quê?
Camargo: Porque, apesar desse cenário cheio de problemas que ele apresentou na primeira parte do comunicado, na segunda, ele fez tudo fora do que escreveu anteriormente.
Broadcast: Eles devem ter uma explicação para isso, não acha?
Camargo: A explicação é que eles fizeram um churrasco, ficou um pouquinho de gordura que eles acham que tem para queimar. O problema é que o BC corre o risco de queimar a carne. Isso é complicado. Dado o que foi dito antes, não fazia o menor sentido reduzir juros. É claro que o mercado receberia isso muito mal. O maior problema é que eles podem perder a credibilidade que conquistaram nos últimos dois anos.
Broadcast: Essa decisão pode arranhar a credibilidade do BC?
Camargo: Sim, e esse é o maior problema. Toda a diretoria foi indicada pelo presidente Lula e havia uma certa desconfiança sobre se ela continuaria perseguindo a meta de inflação ou ficaria na dependência do presidente, que criticou muito o Roberto Campos Neto e a taxa de juro. Pelo que vimos da decisão, fica a pergunta: será que vão mesmo continuar perseguindo a meta?
Broadcast: Isso é motivo de preocupação?
Camargo: Não é só isso. Há declarações recentes que preocupam. Por exemplo, o vice-presidente [Geraldo Alckmin] tem falado que precisa mudar o índice de preços, adotar um núcleo de inflação que expurgue os preços da energia e da alimentação do IPCA, como fazem os norte-americanos. Essa conversa vai começar a gerar problemas de credibilidade. Agora temos o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que disse que o Brasil tem déficit público porque tem juro alto, não porque gasta muito.
Broadcast: Mas não é?
Camargo: Paga muito juro porque tem um déficit muito grande, tem uma dívida pública de 80% do PIB. É por isso que paga 15% de juro. São esses problemas que me preocupam. Essa questão da credibilidade está caminhando para uma direção muito complicada, porque credibilidade é difícil de conquistar, mas muito fácil de perder.
Broadcast: O BC passou a ver o centro da meta, de 3%, como piso?
Camargo: Eu acho que sim. Está começando a gostar da ideia de definir por conta própria o centro da meta em 4,5%, que hoje é o limite superior da meta, e se chegar em 3% tudo bem. Mas eu acho que eles vão ficar contentes se a inflação ficar em 4,5%.
Broadcast: Se isso for verdade, justifica o BC ter empurrado o horizonte relevante para o primeiro trimestre de 2028.
Camargo: Acontece que isso não é política monetária, é puro oportunismo. Rolar o horizonte relevante é razoável. Mas nunca poderia ter reduzido a taxa de juro.
Broadcast: A ata do Copom vai conseguir esclarecer esse comunicado que o senhor classifica como desastroso?
Camargo: Eu acho que não. Vai ser bem difícil a ata conseguir explicar essa confusão entre a primeira e a segunda parte do comunicado. Pouco provável que consiga.
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