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Mensagens de insurreição violenta disparam em grupos extremistas do Telegram após crise no STF

23 de setembro de 2026

Por Guilherme Caetano, do Estadão

Brasília, 23/09/2026 – O número de mensagens fazendo referência a uma insurreição violenta contra as instituições e autoridades disparou em chats extremistas do Telegram com o aprofundamento da crise no Supremo Tribunal Federal (STF).

Os termos “Nepal” e “nepalizar” vêm sendo usados pelos frequentadores desses grupos como inspiração do que aconteceu no país asiático em 2025, quando protestos movidos sobretudo pela geração Z derrubaram o governo, deixando prédios públicos em chamas e mortos pelas ruas.

O Laboratório de Humanidades Digitais (LABHD) da UFBA identificou um aumento dessas mensagens com a proximidade do julgamento no STF sobre o envolvimento do ministro Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro: 419 delas entre segunda e sexta-feira da semana passada.

Além das imagens da revolta no Nepal, há muitas produzidas por inteligência artificial mostrando o Congresso, o Palácio do Planalto e o Supremo em chamas. Esse clima de revolta vem na esteira da revelação da relação de proximidade entre Moraes e o ex-dono do Banco Master, mas se aprofundou com o julgamento do último dia 15 sobre o caso que teve descompostura, bate-boca e acusações mútuas entre os ministros.

“O verbo ‘nepalizar’ opera como marcador de legitimação da violência política. Seu uso não é meramente descritivo (comparar Brasil com Nepal), mas prescritivo: converte um evento histórico estrangeiro em modelo de ação doméstica”, diz o relatório do LABHD, produzido para esse levantamento.

A gramática do termo revela três funções, segundo os pesquisadores. Faz uma analogia legitimadora, como se o exemplo nepalês funcionasse como prova de que a ação radical é possível e bem-sucedida (“O Nepal não esperou e escolheu o futuro que queria”); uma prescrição tática – o verbo se aplica tanto ao país quanto a um evento pessoal, indicando escalabilidade da violência (“Vamos Nepalizar o Brasil” / “Vamos Nepalizar esse casamento”); e um teste de pureza, mostrando que a violência contra a Corte seria uma condição de autenticidade (“No Nepal tacaram fogo no STF, se for diferente disso tem que ter outro nome”).

O LABHD identificou que dois grupos (um militar e outro de mobilização jovem) costumam ser o núcleo gerador das mensagens, depois distribuídas numa “amplificação coordenadas” em 18 outros grupos. Os posts se espalham a partir disso.

Os pesquisadores identificaram que, em muitos casos, o termo “Nepal” e seus derivados faziam referência a violência, ameaça a ministros do STF e incitação ao extermínio. A análise identifica 109 mensagens distribuídas em três grupos temáticos (violência direta, ameaça pessoal a ministro e violência institucional) e mapeia os grupos, datas e padrões de circulação desse conteúdo.

Do total, 35 mensagens associam “Nepal” a termos como matar, fuzilar, enforcar, linchar, degolar, executar, atirar, tacar fogo. Outras 40 mencionam especificamente o ministro Alexandre de Moraes.

Dez mensagens convocam diretamente ação contra o casamento do filho do magistrado. O relatório do LABHD aponta essa manifestação como a “mais grave” identificada no levantamento, uma vez que identifica um alvo específico, a localização geográfico do casamento, um verbo de ação e um pedido de compartilhamento viral.

Contraponto

O termo “Nepal” também é mencionado por usuários preocupados com a repercussão de uma eventual revolta. Um deles escreveu: “Pelo amor de Deus, não entrem nessa onda de ‘nepalizar o Brasil’. A última coisa que precisamos agora é outro 8 de Janeiro. Em 2023, pessoas incitaram o povo brasileiro a ir pra Brasília, mas não aconteceu NADA com quem incitou?”.

“A presença de contrapontos táticos no mesmo grupo que produz as ameaças indica que a radicalização é objeto de disputa interna, não consenso unânime – um dado relevante para a compreensão da dinâmica desses espaços”, dizem os pesquisadores.

Extremistas mobilizados

Leonardo Nascimento, coordenador do LABHD, diz que desde 2022, principalmente durante o período eleitoral e datas cívicas como o 7 de Setembro, grupos organizados vêm ensaiando mobilizações populares, e que o STF costuma ser um dos principais alvos.

“Mas existe uma distância relevante entre a circulação de ameaças, planos e chamadas à mobilização e sua efetiva concretização. Ações anunciadas nem sempre ocorrem no momento inicialmente previsto, tampouco seguem integralmente os roteiros discutidos nos espaços de organização. Essa defasagem entre planejamento, mobilização discursiva e ação efetiva constitui um aspecto importante para compreender o chamado “elemento surpresa” dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023″, diz ele, referindo-se ao fato de que, depois da posse do presidente Lula (PT), havia uma percepção de redução da ameaça imediata.

“Só que os acontecimentos posteriores mostraram que a ausência de ação no momento esperado não significava necessariamente a desarticulação das redes mobilizadas, nem o abandono de suas pautas e capacidades de coordenação”, afirma Nascimento.

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