Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

Especial: Copom deve manter comunicação nesta quarta-feira e evitar sinalizações de corte

16 de setembro de 2025

Por Marianna Gualter

O Comitê de Política Monetária (Copom) pode fazer um ajuste sutil para baixo em sua projeção para a inflação no primeiro trimestre de 2027, horizonte relevante da política monetária, de 3,40% para 3,30%, mas deve manter a comunicação similar à de seu último encontro na decisão desta quarta-feira, 17.

Segundo pesquisa Projeções Broadcast, o mercado é unânime quanto à manutenção da Selic em 15% nesta reunião do Copom. A maioria das instituições (74%) prevê que a taxa fique estável nesse nível até, pelo menos, o final do ano. Para 2026, a mediana indica redução da Selic até 12,38%.

Para analistas consultados pela Broadcast, embora a economia comece a mostrar os primeiros sinais de que o grau restritivo da política monetária está surtindo efeito, ainda é cedo para o colegiado mudar de direção ou mesmo abrir espaço para que o mercado passe a apostar em cortes ainda neste ano.

“Vai se consolidando, gradativamente, um ambiente que sugere que 15% é muito alto, mas, ao mesmo tempo, não é um ambiente que sugere muito espaço para cortes de juros ainda. Ainda estamos muito distantes do objetivo”, afirma o economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale.

Desde a última reunião do Copom, no dia 30 de julho, as medianas do relatório Focus para o IPCA de 2025 e 2026 arrefeceram, de 5,09% e 4,43% para 4,83% e 4,30%, respectivamente, mas continuaram sensivelmente acima do centro da meta de 3%. A cotação do dólar usada no cenário de referência do Comitê deve cair de R$ 5,55 para R$ 5,40 – o que pode permitir que o Copom reduza sua projeção para inflação no primeiro trimestre de 2027, de 3,40% para cerca de 3,30%, segundo cálculos da XP e do Santander Brasil.

Quanto à atividade econômica, o resultado do PIB do segundo trimestre mostrou desaceleração, com crescimento de 0,4%, ante 1,3% de janeiro a março. Já o IBC-Br registrou a terceira queda consecutiva em julho. Na inflação, o IPCA-15 de agosto registrou a maior queda mensal desde setembro de 2022. A análise qualitativa, porém, mostrou métricas de serviços ainda pressionadas. Quanto ao mercado de trabalho, os dados de julho do Caged mostraram perda de ritmo, mas com criação de novos empregos formais. O saldo positivo foi de 129.775 vagas, o menor para o mês desde 2020.

Megale, da XP, avalia que o cenário ainda mostra uma economia firme, com mercado de trabalho apertado e inflação rodando próxima ao limite superior da meta, de 4,5%; há, no entanto, sinais de alívio, em linha com o esperado. Ele estima que, caso o cenário positivo que vem se desenhando se concretize, haverá espaço para que o Comitê inicie os cortes de juros, no ritmo de 0,50 ponto porcentual, em janeiro.

A corretora projeta que as reduções levem a Selic a 12%, um nível que aproveita o espaço que o BC terá para cortar, mas que se mantém “conservador o suficiente”, considerando as incertezas do período eleitoral. “O nosso 12% está meio escrito a lápis, sujeito fortemente à política fiscal de 2027 e 2028, que aos olhos de hoje é muito difícil de prever”, completa.

Já a economista-sênior da LCA 4Intelligence, Thais Zara, avalia que o cenário segue parecido com o registrado na reunião de julho, o que abre pouco espaço para mudanças na comunicação. “A comunicação tem sido bem enfática na questão da convergência da inflação. Então, a principal questão nesse momento é o descolamento, tanto das expectativas de mercado quanto do próprio BC, que ainda se mantém acima da meta no horizonte relevante”, diz.

A 4Intelligence projeta manutenção da Selic em 15% até março do ano que vem, quando prevê início de um ciclo de cortes que deve levar a taxa a 12,50%. Sobre os eventos recentes no cenário econômico, Zara avalia que é possível que o colegiado volte a citar as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil, mas, com a ponderação de que os efeitos sobre a inflação tendem a ser moderados. Já quanto ao ambiente doméstico, a divulgação do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026 não deve alterar a visão já expressa sobre o cenário fiscal.

Para o economista Marco Caruso, head de política monetária do Santander, deve prevalecer nessa reunião a máxima de “não mexer em time que está ganhando”. Ele prevê que o Comitê manterá a mensagem de “continuar a interrupção do ciclo de alta para observar os efeitos do ciclo empreendido”. Ele projeta cortes da Selic a partir de janeiro de 2026, levando a taxa até 13%, mas não descarta uma postergação do início para março.

Caruso analisa que os primeiros sinais de que o aperto da política monetária está funcionando começaram a ser colhidos, mas que ainda não é possível cravar que o ritmo de desaceleração da atividade e a moderação da inflação serão suficientes para convergência à meta no horizonte relevante. Enfatiza também que o atual horizonte de política monetária está localizado no período pós-eleição, o que aumenta a incerteza em torno dele.

Ele avalia que o comunicado de setembro tende a ser neutro em relação ao de julho, com possibilidade de algum alívio no cenário internacional, diante da perspectiva de corte de juros pelo Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos), também nesta quarta-feira, e do fato de que não se concretizou, pelo menos por enquanto, o temor de que houvesse um escalonamento das tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil.

Veja também