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23 de setembro de 2026
Por Gabriel Azevedo*
Belo Horizonte, 23/09/2026 – A área plantada com algodão no Brasil deve crescer 7% na safra 2026/27, para 2,22 milhões de hectares, mas o resultado da produção dependerá do clima. A Agroconsult espera um El Niño forte, com risco de calor excessivo e veranicos no início do ciclo e de interrupção mais cedo das chuvas em regiões de segunda safra, afirmou nesta quarta-feira (23) o CEO da consultoria, André Pessôa. “Preocupa essa intensidade do El Niño, pode trazer noites muito quentes em novembro, em dezembro, eventualmente alguns veranicos”, disse durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), em Belo Horizonte.
A projeção representa uma retomada após a redução de área em 2025/26. Segundo a Agroconsult, o plantio recuou 6,3% na temporada passada, para 2,07 milhões de hectares, mas a produtividade elevada compensou a queda. A consultoria estima a produção de Mato Grosso na safra 2025/26 em 2,99 milhões de toneladas de pluma, acima dos 2,79 milhões de toneladas que projeta para os Estados Unidos em 2026/27. Na Bahia, a produção é estimada em 980 mil toneladas, volume semelhante ao da Austrália. Pessôa citou os números para ilustrar o avanço da produção brasileira em relação aos principais concorrentes.
Para 2026/27, Mato Grosso deve concentrar a maior parte da expansão, com crescimento de 8,5% da área, para 1,54 milhão de hectares. Na Bahia, a previsão é de alta de 2,1%, para 435 mil hectares. No Mapito, região formada por Maranhão, Piauí e Tocantins, o plantio deve avançar 11,7%, para 91 mil hectares. A estimativa nacional da Agroconsult supera a projeção preliminar da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), de cerca de 2,09 milhões de hectares.
A área poderia crescer ainda mais, segundo Pessôa, mas a disponibilidade de crédito limita uma expansão mais forte. “Pode ser mais, mas tem uma questão muito importante ainda presente, que é a questão de crédito, disponibilidade de recursos para fazer ampliação muito mais significativa do que isso”, afirmou.
Além do financiamento, a janela de plantio será determinante. Em Mato Grosso, onde grande parte do algodão é semeada depois da soja, o calendário da oleaginosa define o período disponível para a segunda safra. A avaliação da Agroconsult é de condições inicialmente favoráveis de chuva para o plantio da soja.
Mais adiante, a preocupação passa a ser a duração das chuvas. “Provavelmente vamos conseguir plantar bem o algodão em janeiro, mas a gente não sabe se a chuva vai até o final de abril, início de maio”, disse Pessôa. Segundo ele, uma interrupção precoce das precipitações poderia afetar a produtividade, porque parte das lavouras ainda necessita de umidade nesse período. Os modelos meteorológicos apresentados pela consultoria indicam que os efeitos do El Niño podem permanecer em abril, maio e junho. “Esse El Niño parece ter uma característica de resiliência maior”, afirmou.
O cenário apresentado pela Agroconsult aponta também para um fenômeno mais intenso do que nos episódios recentes. As projeções mostradas no congresso, feitas com dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indicam anomalia próxima de 2,9 graus Celsius na temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial no pico de 2026/27, ante 2,3 graus no episódio de 2015/16 e 1,4 grau em 2023/24.
Na Bahia, onde o El Niño costuma aumentar o risco de chuvas abaixo da média, a expansão da irrigação reduz parte da exposição climática. Segundo levantamento da Agroconsult com a Cropdata, a área irrigada de algodão passou de 100 mil hectares em 2023/24 para 186 mil hectares em 2025/26, equivalente a 44% do total cultivado com a fibra no Estado. Pessôa afirmou que a Bahia já soma cerca de 500 mil hectares irrigados considerando todas as culturas. “Na próxima safra, a gente já deve ter meio a meio, metade da área irrigada, metade da área de sequeiro”, disse.
A importância das chuvas no fim do ciclo ficou evidente nesta temporada, segundo o executivo. “Esse ano a gente teve essas chuvas e refletiu muito positivamente na produtividade”, afirmou. Com a área novamente em expansão em 2026/27, o comportamento das precipitações ao longo do ciclo será decisivo para determinar quanto desse aumento de plantio se converterá em produção.
Contato: gabriel.azevedo@estadao.com
*O jornalista viaja a convite da Abrapa.
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