Plataformas Broadcast
Soluções de Dados e Conteúdos
Broadcast OTC
Plataforma para negociação de ativos
Broadcast Datafeed
APIs para integração de conteúdos e dados
Broadcast Ticker
Cotações e headlines de notícias
Broadcast Widgets
Componentes para conteúdos e funcionalidades
Broadcast Wallboard
Conteúdos e dados para displays e telas
Broadcast Curadoria
Curadoria de conteúdos noticiosos
Plataformas Broadcast
Soluções de Dados e Conteúdos
Soluções de Tecnologia
23 de setembro de 2026
Artigo de: Marina Grossi

Por Marina Grossi*
Há um número que resume o desafio brasileiro deste momento: o país responde por cerca de 3% do Produto Interno Bruto mundial, mas por apenas 1% das exportações globais. Essa distância entre o que temos e o que exportamos foi um dos fios condutores do Congresso Sustentável do CEBDS, realizado no Rio em agosto, e ajuda a explicar por que decidimos tratar, este ano, de um tema que até recentemente soava distante da agenda climática: a nova geopolítica da competitividade.
A mudança climática é uma das poucas certezas em um mundo de tensões geopolíticas, disputas comerciais e cadeias de produção em recomposição. E ela deixou de ser tratada como custo, obrigação ou reputação para se tornar, cada vez mais, critério central de decisão de investimento.
O economista Eduardo Giannetti, painelista do Sustentável de 2026, detalhou o porquê: vivemos o fim de um longo ciclo de hiperglobalização, iniciado nos anos 1980, que começou a se desfazer com a crise financeira de 2008 e 2009, se aprofundou na pandemia e sofreu o golpe final com a guerra tarifária em curso. O mundo troca a lógica do menor custo pela lógica da segurança – de fornecimento, de tecnologia, de posição geopolítica. Isso transforma a própria natureza da competição: países e empresas precisam não apenas produzir com custo baixo, mas garantir fornecimento, tecnologia e resiliência a crises. É esse desarranjo que abre ao Brasil uma janela rara para recuperar o dinamismo que perdeu justamente no período em que mais se fechou.
O embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, que também esteve no Congresso do CEBDS, resumiu essa mudança de forma direta: passamos de um mundo organizado por regras para um mundo organizado por poder. Nessa nova ordem, disse ele, não basta ao Brasil ter recursos – é preciso ser indispensável, e a indispensabilidade se constrói enfrentando três gargalos que o país arrasta há décadas: educação, para formar capital humano capaz de operar numa economia global mais sofisticada; infraestrutura, para baratear o custo de entregar ao mundo aquilo que produzimos; e equilíbrio fiscal, para dar previsibilidade a investimentos que levam décadas para maturar.
Essa leitura foi reforçada pelo embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30: a Conferência do clima realizada em Belém marcou a passagem da fase de negociação para a fase de implementação, e implementação, segundo ele, não é mais tarefa dos ministérios do meio ambiente, e sim dos ministérios da fazenda e da economia. O tema clima, portanto, deixou de ser ambiental para se tornar, definitivamente, econômico, e o Ministério da Fazenda brasileiro, disse Corrêa do Lago, foi um dos protagonistas dessa virada na COP30.
O britânico Lord Deben, uma das vozes pioneiras da agenda climática no Reino Unido, ex-ministro do governo Thatcher e presença internacional do Sustentável deste ano, propôs uma troca de vocabulário que ilustra bem essa mudança de patamar: ele parou de falar em sustentabilidade e passou a falar em continuidade. Para as empresas, disse, a pergunta não é mais se querem ser sustentáveis, mas se querem continuar existindo daqui a 25, 50 anos – e isso depende de reconhecer, hoje, que a mudança do clima é uma certeza sobre a qual vale construir estratégia, não uma incerteza a ser adiada.
É nesse cenário que o Brasil ocupa uma posição singular. Poucos países reúnem, como nós, uma matriz elétrica majoritariamente renovável, biodiversidade, diversidade étnica e cultural, minerais estratégicos, agronegócio competitivo e capacidade científica acumulada. Mas nenhuma vantagem comparativa se converte em vantagem competitiva sozinha: é preciso escala, tecnologia e capital e, sobretudo, visão de país de longo prazo, que trate essas agendas como políticas de Estado, e não como pauta de ciclo eleitoral.
O CEBDS tem trabalhado justamente para transformar essa visão em execução. Lançamos, durante o Congresso, a quarta edição da Carta aos Presidenciáveis, construída de forma apartidária com nossas mais de 110 empresas associadas desde 2014. Ela não nasce do zero: das 12 propostas da edição anterior, cinco já foram plenamente cumpridas – da redução do desmatamento à criação do mercado de carbono – e outras três avançaram parcialmente, como o plano de transição energética. Esse histórico de cobrança é o que diferencia a carta de uma simples lista de pedidos: ela é também um compromisso do setor privado, resumido no lema que a orienta este ano, “o Brasil que cuida e planeja, cresce”.
Ela também espelha um trabalho de articulação mais amplo: as coalizões empresariais lideradas pelo CEBDS para descarbonizar os setores de energia renovável, transporte, agricultura e mineração já reúnem contribuições de mais de 270 entidades e empresas – prova de que o espírito de mutirão citado no Congresso já está em curso, e não apenas no papel.
O desafio, agora, é dar escala a esse esforço. Temos os ativos que o mundo procura; falta transformar potencial em decisão, e decisão em execução, com o rigor técnico, a continuidade e a indispensabilidade que os debates deste Congresso Sustentável deixaram claros.
Marina Grossi é presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), entidade com 29 anos de atuação e mais de 110 grandes empresas associadas, e Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial.
Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.
Veja também