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22 de setembro de 2026
Por Gabriel Azevedo*
Belo Horizonte, 22/09/2026 – O ministro da Agricultura, André de Paula, afirmou nesta terça-feira (22) que o governo considera afastado o risco de desabastecimento de fertilizantes para a safra 2026/27, após ações para ampliar fornecedores no exterior e acelerar a entrada dos insumos pelos portos brasileiros. “O fantasma do desabastecimento, neste momento, está afastado”, disse a jornalistas durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), em Belo Horizonte.
De Paula retornou na semana passada de uma missão oficial por Angola e Marrocos voltada, entre outros temas, à produção e ao abastecimento de fertilizantes. Em Angola, a comitiva se reuniu com o Grupo Opaia, responsável pelo projeto Amufert, de produção de ureia e amônia. No Marrocos, o ministro participou de reuniões com autoridades e visitou o complexo industrial da OCP Nutricrops, em Jorf Lasfar.
A visita à OCP resultou na assinatura, na sexta-feira (18), de um memorando de entendimento que estabelece como referência o fornecimento de 3,8 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados a operadores brasileiros em 2026 e 2027. O volume não representa uma compra fechada: as aquisições dependerão das condições comerciais negociadas entre a companhia marroquina e as empresas brasileiras.
Segundo De Paula, a busca por novos fornecedores ganhou importância diante dos conflitos internacionais que afetaram rotas e origens tradicionais dos insumos. “Era importante fazer um trabalho para construir parcerias com mercados alternativos”, afirmou. O ministro chamou a estratégia de “diplomacia dos fertilizantes”. De acordo com ele, as 3,8 milhões de toneladas correspondem a cerca de 80% da necessidade brasileira de fosfatados considerada pelo governo.
Outra frente é a logística. Em agosto, a Comissão Nacional das Autoridades nos Portos (Conaportos) recomendou aos portos públicos tratamento preferencial para o desembarque de fertilizantes destinados à safra 2026/27. A resolução orienta, quando permitido pelas regras de cada porto, que essas cargas sejam enquadradas em preferência de atracação em até 24 horas após o anúncio da chegada da embarcação. A medida foi adotada em meio aos riscos provocados pela crise geopolítica e por alterações nas rotas internacionais de ureia, amônia, enxofre e fosfatos. “Nós estamos agora em pleno início de safra e muitas vezes os portos, como têm um acúmulo de embarcações, acabam dilatando prazos”, disse De Paula. “Nós temos consciência de que neste momento precisamos agilizar esse processo.”
No longo prazo, o governo busca reduzir a dependência das importações. Segundo o Ministério da Agricultura, cerca de 85% dos fertilizantes consumidos no País vêm do exterior. O Plano Nacional de Fertilizantes prevê elevar gradualmente a produção doméstica, com a meta de atender entre 45% e 50% da demanda interna até 2050.
De Paula destacou sobretudo a retomada da produção de nitrogenados pela Petrobras. Ele citou as unidades da Bahia, de Sergipe e do Paraná e afirmou que, com a entrada da UFN-III, em Três Lagoas (MS), o País terá capacidade para atender a cerca de 35% da demanda nacional por nitrogenados. A projeção de participação está em linha com a divulgada pela Petrobras.
O ministro mencionou ainda o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), instituído neste mês pela Lei 15.496/2026. O programa prevê incentivos para ampliar a produção nacional de fertilizantes e matérias-primas e tem entre os objetivos reduzir a dependência externa e dar maior estabilidade ao abastecimento.
Questionado sobre medidas específicas para o enxofre – matéria-prima essencial para a produção de fertilizantes fosfatados, cuja escassez já levou a Eurochem, dona da fábrica de Serra do Salitre (MG), a suspender temporariamente contratos de trabalho neste mês -, De Paula não anunciou subsídio ou nova ação direcionada ao produto. A indústria pressiona o governo há meses por um subsídio à importação de enxofre, pedido já discutido com um grupo de trabalho federal, mas ainda sem resposta final. Representantes do setor, como o Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), já criticaram publicamente a prioridade dada pelo governo ao acordo com o Marrocos em detrimento de medidas para destravar a produção nacional.
Na resposta, De Paula voltou a citar a diversificação de fornecedores, o Profert e o Plano Nacional de Fertilizantes como parte da estratégia do governo para reduzir a vulnerabilidade externa do setor, sem endereçar diretamente a reclamação da indústria.
Contato: gabriel.azevedo@estadao.com
*O jornalista viaja a convite da Abrapa.
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