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FecomercioSP: inadimplência empresarial atinge pico histórico de R$ 86,1 bi no 2º trimestre

16 de setembro de 2026

Por Francisco Carlos de Assis

São Paulo, 16/09/2026 – Os atrasos no cumprimento de obrigações financeiras por parte de empresas levaram o montante a R$ 86,1 bilhões no segundo trimestre. Esse é o maior volume da série histórica de inadimplência e crédito do País. A constatação vem de um levantamento feito pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), com base em dados do Banco Central (BC).

Segundo a entidade, o avanço está ligado principalmente ao patamar ainda elevado da taxa básica de juros, com impacto mais forte sobre pequenas e médias empresas. “O empresariado encontra dificuldade para pagar dívidas, resultado do ciclo alto de juros de 2022 a 2025”, afirma a FecomercioSP em material de apoio antecipado à Broadcast.

A Federação aponta que, no acumulado dos últimos 12 meses até junho, o volume em atraso cresceu 24% – quase R$ 17 bilhões a mais, já descontada a inflação do período. Para a FecomercioSP, a piora não decorre de uma expansão relevante do endividamento relacionado ao avanço do crédito às empresas, que foi de apenas 2,3% no período, enquanto a parcela em atraso subiu de 2,7% para 3,3%, sinalizando que o problema está no pagamento, e não no tamanho da dívida.

A entidade também destaca que parte relevante dos atrasos reflete juros contratados cerca de um ano antes, configurando um efeito defasado do ciclo de aperto monetário entre 2022 e 2025, que agora aparece com mais força nas estatísticas. Ainda assim, a FecomercioSP ressalta que juros elevados, por si só, não explicam a magnitude do recorde, já que o País já conviveu com taxas altas sem registrar inadimplência corporativa tão expressiva.

A diferença, segundo a análise, é que o crédito hoje está mais disseminado – acessível a mais negócios – ao mesmo tempo em que vários setores atravessam um período mais difícil. O agronegócio é citado com commodities estabilizadas e câmbio em baixa; a indústria, pressionada por importados; e o comércio, com consumo enfraquecido pela inflação e pelo avanço das apostas esportivas. A Federação afirma que o movimento não é sazonal, pois o recorde permanece mesmo na comparação com outros trimestres ao longo do ano.

Atrasos nas pequenas e médias

As pequenas empresas e as médias atingiram o maior nível de atraso de toda a série, segundo a FecomercioSP. Juntas, concentram cerca de 43% da carteira de crédito, mas respondem por aproximadamente R$ 3 de cada R$ 4 em atraso.

As pequenas somam R$ 33,4 bilhões (39% do total), e as médias, R$ 31,7 bilhões (37%). Entre as médias, o valor atrasado avançou 34%. Na relação com o estoque de crédito, a Federação estima que, nas pequenas, cerca de R$ 8 a cada R$ 100 emprestados estão em atraso; nas médias, perto de R$ 4,50. A média nacional é de pouco mais de R$ 3.

Quase metade do crédito, 48%, está concentrada nas grandes empresas, que, segundo a entidade, tendem a ter mais caixa e acesso a condições melhores de financiamento – o que mantém o atraso abaixo da média. Para a FecomercioSP, isso indica que não se trata de uma crise generalizada no setor corporativo, mas de uma pressão mais intensa sobre empresas mais frágeis.

Na outra ponta, as microempresas foram as que mais pioraram no último ano: o valor em atraso saltou 45%, de R$ 6,9 bilhões para R$ 9,9 bilhões.

No recorte regional, a FecomercioSP observa piora generalizada: 18 das 27 Unidades Federativas registraram, simultaneamente, o maior nível de atraso da série histórica. No pós-pandemia, o recorde chegou a ocorrer em 25 das 27 Unidades Federativas, mas o diagnóstico atual segue de disseminação.

As maiores altas em 12 meses ocorreram em economias de perfis distintos – Paraíba (123%), Amapá (73%), Rio Grande do Sul (67%) e Amazonas (66%) -, reforçando, na avaliação da entidade, que não se trata de um problema setorial ou regional.

Em São Paulo, a dívida em atraso soma R$ 23 bilhões, equivalente a 27% do total nacional. As cinco maiores Unidades Federativas concentram quase 60% do montante, mas, segundo a FecomercioSP, a deterioração tem sido mais acelerada fora dos grandes centros urbanos.

Sem sinal de melhora no curto prazo

A FecomercioSP avalia que o quadro é preocupante pela ausência de sinais de reversão no curto prazo. A relação entre dívida e PIB segue em alta, e as tensões globais tendem a manter juros e inflação pressionados. Além disso, mesmo que a taxa básica comece a cair, o alívio demora a aparecer: a FecomercioSP estima cerca de um ano para o impacto da queda dos juros chegar às contas em atraso – e mais tempo para recomposição de caixa e retomada do investimento.

A entidade compara com períodos em que o atraso também esteve elevado – início dos anos 2000 e 2016/2017 -, quando havia menos oferta de crédito e menos empresas bancarizadas, ou o País estava em recessão. Agora, a inadimplência atinge recorde e o calote se aproxima do maior patamar da série mesmo com a economia crescendo perto de 2%. Ainda assim, segundo a FecomercioSP, o crescimento não tem chegado ao caixa das empresas na velocidade necessária para normalizar os pagamentos.

Contato: francisco.assis@estadao.com

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