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18 de setembro de 2026
Por Gabriel Azevedo
São Paulo, 18/09/2026 – A cota destinada à carne bovina brasileira na China em 2027 pode ser consumida já em março se não houver um mecanismo para distribuir os embarques ao longo do ano, afirmou ontem (17) o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa. Para evitar uma nova corrida de vendas, a entidade discute com o governo brasileiro uma proposta de divisão dos volumes entre frigoríficos, com base, entre outros critérios, na participação de mercado e no histórico de exportações das empresas.
“Se nada for feito, vai acabar em março”, afirmou Perosa, durante encontro na sede da Abiec, em São Paulo. Segundo ele, a projeção considera o ritmo mensal de embarques brasileiros à China e a possibilidade de antecipação das vendas para o início do próximo ano.
A China estabeleceu para o Brasil uma cota de 1,128 milhão de toneladas em 2027, ante 1,106 milhão de toneladas neste ano. Acima do limite, a carne brasileira continua podendo entrar no mercado chinês, mas fica sujeita a uma tarifa adicional de 55% sobre a alíquota já aplicada. A salvaguarda vigora de 2026 a 2028 e prevê elevação gradual da cota brasileira para 1,151 milhão de toneladas no último ano.
O primeiro ano da medida mostrou o risco de concentração dos embarques. Em 9 de maio, o Brasil já havia atingido 50% da cota de 2026; em 21 de julho, chegou a 80%; e, em 10 de agosto, a 90%, segundo comunicados do Ministério do Comércio da China.
A aproximação do limite derrubou as vendas para o principal destino da carne brasileira. Perosa afirmou que os embarques para a China recuaram cerca de 90% em agosto e devem permanecer muito baixos em setembro. Ele classificou julho, agosto e setembro como meses “duríssimos” para a indústria, sobretudo pela redução das margens e pela necessidade de redirecionar produto para outros mercados.
O movimento interrompeu um primeiro semestre particularmente forte. De janeiro a junho, a China comprou 794,7 mil toneladas de carne bovina brasileira, alta de 24% em relação ao mesmo período de 2025, e respondeu por US$ 4,87 bilhões em receita, segundo dados da Secex compilados pela Abiec.
Na avaliação de Perosa, a situação pode se tornar ainda mais delicada em 2027 porque, diferentemente do início deste ano, os exportadores já conhecem antecipadamente o tamanho da cota e podem começar a fechar negócios ainda em outubro ou novembro para cargas destinadas a chegar à China a partir de janeiro. “Pode haver, sim, uma antecipação de vendas para a China”, afirmou.
O presidente da Abiec, porém, ponderou que o ritmo efetivo das compras ainda dependerá do apetite chinês. Segundo ele, os estoques de carne bovina no país estão elevados, enquanto a produção doméstica de carne suína também se encontra em nível alto. “Ainda é um enigma isso que a gente precisa acompanhar nos próximos passos do mercado”, disse.
Se o limite for alcançado em março ou abril, Perosa avalia que a indústria poderá atravessar até seis meses com vendas fortemente reduzidas para seu principal mercado. Além da pressão sobre margens, ele citou dificuldades de fluxo de caixa, já que parte das empresas utiliza adiantamentos pagos por compradores chineses como capital de giro.
Para reduzir esse risco, a Abiec voltou a discutir com o governo um modelo semelhante ao defendido no início deste ano. A proposta é distribuir parcelas da cota entre frigoríficos, considerando critérios como participação nas exportações e desempenho histórico, de forma a diluir as vendas ao longo de 2027. “A proposta é essa, divisão por empresas mesmo, baseada no share de mercado, baseada na performance”, afirmou Perosa. “Você dosar a venda para a China para que a gente tenha isso durante o ano todo que vem.”
Segundo ele, a entidade tentou viabilizar mecanismo semelhante para 2026, mas o governo decidiu não arbitrar a distribuição. A discussão foi retomada diante da perspectiva de novas habilitações de frigoríficos brasileiros para vender à China, o que acrescentará empresas à disputa pelo mesmo volume disponível.
Sem algum mecanismo de administração, Perosa prevê nova concentração de negócios entre o fim deste ano e o começo de 2027, seguida por um período prolongado de retração. “Vai haver uma aceleração de vendas (…) para depois um interregno de seis meses de escuridão”, afirmou.
A proposta ainda está em elaboração. Segundo Perosa, a Abiec pretende incorporar à discussão o ingresso de novos frigoríficos habilitados antes de apresentar ao governo uma sugestão definitiva para a gestão da cota de 2027.
Contato: gabriel.azevedo@estadao.com
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