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14 de setembro de 2026
Artigo de: Isac Costa

Por Isac Costa*
Fundos cujas cotas são negociadas em bolsa (ETF – exchange traded fund) são ativos relevantes nas carteiras de todos os tipos de investidores. Nos EUA, US$ 15,74 trilhões estavam alocados em 5.590 fundos ao fim de julho de 2026. No Brasil, 204 ETFs listados na B3 tinham R$ 126 bilhões em junho. O BOVA11, que replica o Ibo, reúne cerca de 100 mil cotistas e R$ 14 bilhões de patrimônio. Neste texto, exploro ETFs e tendências correlatas que expandiram o escopo usual de fundos passivos de índice, bem como os riscos e preocupações que devem ser levados em consideração pelos investidores.
Um ETF é um veículo que permite a negociação facilitada, cuja experiência de negociação é igual à de ações em bolsa. Tradicionalmente, um ETF serve para dar exposição passiva a um índice representativo de mercado de ações, setor, moeda, commodity, mercado de renda fixa ou ativos alternativos. Porém, na prática, um ETF é um “envelope” que admite, em teoria, qualquer tipo de carteira.
As ações concentram cerca de 79% do patrimônio dos ETFs americanos, e os maiores fundos do mundo replicam o S&P 500 (VOO, SPY e IVV). Também merecem destaque o VTI (sobre o mercado norte-americano inteiro) e o QQQ (sobre Nasdaq-100).
Um formato temático mais recente é a tese de investimento em inovação. O QTUM, da Defiance, expõe o investidor a computação quântica e ultrapassou US$ 5 bilhões de patrimônio em abril de 2026, após o governo norte-americano anunciar um programa de US$ 2 bilhões para o setor. Da mesma gestora, o AIPO estreou em julho de 2025 com foco em infraestrutura de energia para data centers de inteligência artificial e passou de US$ 200 milhões em janeiro.
Outros exemplos são (i) o TQQQ triplica o retorno diário do Nasdaq-100 e é o maior ETF alavancado do mundo, com cerca de US$ 37 bilhões de patrimônio; (ii) o SQQQ entrega o inverso do mesmo índice e é o maior da sua categoria; e (iii) o UVXY é montado sobre derivativos de volatilidade e ganha quando o mercado oscila mais, perdendo quando ele se acalma.
Os ETFs de cripto foram autorizados em janeiro de 2024 nos EUA, onde tiveram enorme sucesso, com aporte de US$ 58,7 bilhões desde então. A BlackRock ficou à frente com o iShares Bitcoin Trust, captando mais de US$ 25 bilhões em 2025. No Brasil, a CVM autorizou esses ETFs anos antes, em 2021, atraindo público e volume relevantes e a categoria teve protagonismo em 2024 – dos dez ETFs com maior valorização naquele ano, oito eram relacionados a criptoativos. Outra inovação relevante foi a introdução de BDRs de ETFs estrangeiros, permitindo ampliar o leque de opções do investidor local.
No mercado local, os ETFs de renda fixa ultrapassaram os de renda variável em patrimônio pela primeira vez em junho de 2026, com R$ 60,8 bilhões, (contra R$ 13,2 bilhões um ano antes) em face de R$ 55,8 bilhões alocados em ETFs de ações e R$ 9,4 bilhões nas demais categorias. Na B3, há oferta de ETFs de Tesouro IPCA+ de vencimento único, de CDI, de prefixados e de debêntures corporativas.
Os ETFs de gestão ativa responderam por 85% dos lançamentos nos Estados Unidos em 2025. Apesar do nome, não há, em regra, gestão discricionária, conforme classificação feita pela Nasdaq. A alocação é feita em derivativos conforme regras pré-definidas, como entregar o dobro do retorno diário de um papel, vender opções toda semana sobre uma carteira ou devolver o inverso de um índice. Temos, na verdade, operações estruturadas com derivativos sendo vendidas como cotas de fundos.
Uma exceção é a ARK Invest, de Cathie Wood, que realiza gestão ativa no sentido clássico. O ARKK, seu principal ETF, saiu de US$ 28 bilhões de patrimônio em fevereiro de 2021 para US$6,6 bilhões em setembro de 2026. A casa de análise Morningstar calcula que os fundos da ARK, somados, destruíram entre US$ 13,4 e US$ 14,3 bilhões de valor de acionista em dez anos, cerca de US$ 7 bilhões deles no ARKK, por causa do descompasso entre o momento em que o dinheiro entrou e o retorno que veio depois. O fundo teve anos excelentes e, apesar das perdas, a gestora mantém público cativo e interessado em suas teses de investimento em inovação.
Os riscos de ETFs alavancados merecem atenção especial. Um ETF que promete “2x o retorno da ação X” entrega o dobro da variação de cada dia, isoladamente. No fechamento, a conta é zerada e recomeça no dia seguinte com o dobro da exposição sobre o novo patrimônio. A sequência de resultados diários resulta na variação agregada, a qual não necessariamente corresponde ao dobro da variação entre o início e o fim do período. Na prática, o investidor pode ser surpreendido com perdas relevantes mesmo se a ação subir no período.
O mesmo raciocínio vale para os ETFs que vendem opções e prometem pagamentos periódicos com os prêmios recebidos, porque também neles o resultado é a soma de rodadas semanais ou mensais, e não a variação da carteira ao longo do período.
Na Coreia do Sul, dezesseis ETFs alavancados sobre Samsung e SK hynix foram aprovados em maio de 2026, a maioria caiu mais de 60% e, em julho, o regulador suspendeu novas listagens, proibiu a publicidade e elevou os requisitos para investimentos e custos associados.
Nos Estados Unidos, 73 ETFs alavancados e inversos foram encerrados até julho deste ano, contra 22 em todo o ano de 2025.
A inovação segue com tendências preocupantes. Empresas de capital fechado chegaram ao varejo americano pela Robinhood, e os veículos escolhidos foram closed-end funds (CEFs). A estrutura de ETF é inadequada nesses casos porque é inviável manter uma correlação entre o valor da cota negociada em bolsa e o valor patrimonial da carteira (ações de empresas fechadas não têm formação dinâmica de preço). Porém, a lógica é semelhante: utilizar um “envelope” tradicional para ofertar ativos pouco usuais.
É preciso cuidado para que o público saiba identificar exatamente o que compõe a carteira de um ETF. Cada produto tem riscos específicos, sobretudo quando há derivativos, operações estruturadas ou ações de empresas fechadas. O rótulo de ETF não pode ser a única variável na análise de risco, sob pena de o investidor transferir a percepção que tem dos produtos tradicionais para estruturas arrojadas e heterodoxas.
Assim, ETFs não podem se tornar cavalos de Troia, utilizados como atalho para contornar as barreiras regulatórias da oferta desses produtos, especialmente para investidores de varejo.
*Isac Costa é advogado, diretor do Instituto Brasileiro de Inovação e Tecnologia (IBIT) e professor do Insper. Doutor (USP), mestre (FGV) e bacharel (USP) em Direito e Engenheiro de Computação (ITA). Ex-Analista da CVM.
Os artigos publicados no Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.
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