Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

Vale/Rafael Bittar: Descarbonização ainda é principal rubrica em P&D tecnológico na Vale

11 de setembro de 2026

Por Juliana Garçon

Rio, 11/09/2026 – A inteligência artificial já é uma realidade na Vale, com 45 aplicações já funcionando, muitas voltadas à eficiência operacional – como otimizadores de combustível e preditores de manutenção – e no apoio a funções administrativas. Mas a companhia persiste buscando aplicações mais disruptivas, de acordo com o vice-presidente Técnico da mineradora, Rafael Bittar, em entrevista exclusiva à Broadcast.

“Na indústria pesada não há tantos casos de disrupção de negócio”, comentou. “Estamos olhando formas de ser mais eficiente na cadeia comercial e estudando maneiras de otimizar o nosso portfólio via IA.”

Na Vale, o principal destino das verbas de inovação é o processo de descarbonização, que recebe investimentos de pesquisa e desenvolvimento para biocombustíveis e eletrificação. Outra agenda prioritária é a de autônomos – caminhões, perfuratrizes e máquinas de pátio -, para redução do consumo de combustível e maior segurança dos trabalhadores. “É uma agenda que queremos acelerar na Vale, expandir para mais operações”, afirmou Bittar.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Broadcast – Como a Vale tem explorado a inteligência artificial (IA)?

Rafael Bittar – Estamos muito atentos ao que está acontecendo no mundo, às oportunidades na Vale. Temos um centro de IA e mais de 45 aplicações funcionando, muito voltadas à eficiência operacional, como otimizadores de combustível, de frota, e preditores de manutenção. Temos vários preditores, que reduzem a quantidade de paradas e o consumo de combustível. Nas áreas administrativas, estamos estudando a aplicação de agentes autônomos. O primeiro piloto está no RH, com um robô que faz muitas das funções transacionais do setor, como emissão de contracheque, tirar dúvidas dos empregados. No último mês, tivemos 10 mil acessos, em que pedem informações diversas. É um robô inteligente, que vai aprendendo.

Broadcast – A IA trouxe uma disrupção?

Bittar – Empresas de software ou de serviços e alguns bancos estão digitalizando e colocando inteligência artificial muito rápido, mas na indústria pesada não há tantos casos de disrupção de negócio. É mais difícil. Estamos olhando formas de ser mais eficiente na cadeia comercial. Estamos estudando maneiras de otimizar o nosso portfólio via IA. Mas não é hoje o nosso principal consumidor de verba de inovação.

Broadcast -No que estão os principais investimentos em inovação na Vale?

Bittar – A principal rubrica em P&D tecnológico é na descarbonização: são investimentos de pesquisa e desenvolvimento, uso de biocombustíveis, motores com maior uso de biocombustível, eletrificação, motores de grande porte a etanol. Talvez o nosso programa de descarbonização seja o mais amplo do mundo, estamos testando tudo. Além disso, automação, manuseio e circularidade. Temos investido muito. A Vale hoje tem o maior programa de mineração circular do mundo. Produzimos, no ano passado, 20,5 milhões de toneladas de produto via circularidade. Aproveitando a parte de rejeito, de material velho, de pilhas antigas, produzimos 5% da nossa produção via circularidade.

Broadcast – O que falta para a adoção de novos combustíveis?

Bittar – Nós não podemos fazer descarbonização a qualquer preço. Tem que haver soluções tecnológicas que sejam competitivas, e a gente vê que a tecnologia ainda está no seu limite. Para fazer uma mudança de combustível, é preciso que o novo seja mais eficiente que o outro, em geral, o diesel.

Broadcast – Quais são as outras iniciativas mais relevantes em P&D tecnológico?

Bittar – Uma grande parcela vai para iniciativas de manuseio. Temos IA aplicada, com um preditor de umidade. O minério vem com certa umidade da mina e da ferrovia, mas se ela estiver muito alta, a carga não pode ser embarcada no navio, devido ao risco de liquefação. Às vezes, era preciso parar os embarques e esperar testes de umidade, e o navio parado no porto representava perdas. Com a tecnologia, que abarca as características do minério, a previsão meteorológica e as chuvas registradas ao longo do trajeto desde a mina, é possível antecipar a condição da carga e, depois, conferir o índice de umidade antes do embarque. Isso evita que paremos o carregamento – antes, parávamos três ou quatro horas por semana. O preditor de umidade com IA tem nível de precisão acima de 95%.

Broadcast – Como estão os projetos de automação nas minas?

Bittar – A agenda dos autônomos é muito forte da Vale, uma prioridade. Na mina, com caminhões e perfuratrizes autônomos. No porto, temos máquinas de pátio – aquelas que empilham e depois recuperam o minério – autônomas. É uma agenda que queremos acelerar na Vale, fazer roll-out de mais operações, porque ela traz redução de riscos e de exposição de pessoas. Também temos muitos equipamentos teleoperados. Em vez de ter um operador em um trator, dentro da mina, essa pessoa está no centro de operação, distante da mina. Já temos vários usos de teleoperados, inclusive na descaracterização de barragens. Temos um centro de controle que fica em Belo Horizonte, a 150 quilômetros das barragens que estão sendo descaracterizada.

Broadcast – O quanto as novas tecnologias contribuem para a rentabilidade da empresa?

Bittar – É muito difícil colocar esse número. Muitas vezes, há muitas tecnologias que operam no sentido de evitar custos. Como na tecnologia que evita paradas no carregamento e evita o custo do navio parado. Também há ganhos de eficiência. A Usina Modelo é um ótimo caso – automatizamos várias etapas unitárias e colocamos análise avançada de processo e otimização em tempo real via sistema especialista. Ele toma decisões em função da performance da planta, ajusta uma etapa unitária em relação à outra e assim aumenta a produtividade e a qualidade do produto final. Já aumentou em 25% a produtividade. Diminui rejeito e o consumo de reagente. Isso representa redução de custo. Vamos replicar em outras plantas. Isso é inédito no segmento de ferro.

Broadcast – Qual a tendência de inovação no setor?

Bittar – A tendência se desenvolve em função da necessidade de cada país. Por exemplo, na Austrália, a agenda de autônomos é super relevante porque a mão de obra lá é muito cara e muito difícil de ser levada das capitais para as áreas que têm minas. Então, eles tiveram de acelerar os autônomos. A gente já trabalha no tema de cinco anos para cá, mas na Austrália está presente há dez anos. Nós vemos hoje uma tendência de operações inteligentes, automação, robotização, IA e eficiência operacional. Também tecnologias para disposição e filtragem de rejeitos, empilhamentos via disposição de rejeitos filtrados, a seco ao invés de barragens.

Contato: juliana.garcon@estadao.com

Veja também