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11 de setembro de 2026
Por Victor Ohana
Brasília, 11/09/2026 – Desde o início do horário eleitoral na televisão, em 28 de agosto, a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foca no escândalo do banqueiro Daniel Vorcaro e na defesa da soberania diante dos Estados Unidos para atacar o adversário Flávio Bolsonaro (PL). No entanto, não há cenas em que o petista ouça eleitores. Seu oponente, por sua vez, caminha por supermercados e lojas, conversa com brasileiros na sala de estar de uma casa de família e privilegia a aparição de mulheres.
Os trechos da propaganda de Lula que associam Flávio a Vorcaro são separados como um conteúdo à parte. A abertura da primeira propaganda, de 29 de agosto, mostrou que Flávio mentiu ao responder ao questionamento do repórter do The Intercept Brasil sobre por que Vorcaro bancou o filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Também reproduz o áudio em que Flávio pede dinheiro a Vorcaro.
Outras propagandas mostram que Flávio homenageou, nos anos 2000, o miliciano Adriano da Nóbrega, morto em 2020. As propagandas também destacam que o pré-candidato de Flávio ao governo do Rio de Janeiro era Rodrigo Bacellar, hoje preso sob acusação de ligação com o Comando Vermelho (ele nega).
A propaganda de Lula também critica Flávio por submissão aos Estados Unidos, ao mostrar um homem vestido com a camisa do Brasil e com o boné da bandeira norte-americana. Exibe Flávio dizendo que “a tarifa vai chegar para o Brasil” e agradecendo ao presidente Donald Trump. Nesse assunto, o candidato do PT também fala diretamente: “A soberania do Brasil é marcada pela resiliência do povo brasileiro, em não querer que ninguém meta o bedelho dentro do Brasil.”
As declarações de Lula, no entanto, ocorrem sempre em frente às câmeras. De chapéu Panamá, muitas vezes com camisa social branca ou azul-clara, em uma sala com livros. Nas seis primeiras propagandas exibidas na TV, o petista não conversa com eleitores. Há apenas uma cena em que, do alto do palanque em São Bernardo do Campo (SP), estende a mão para apoiadores que estão abaixo dele.
Já Flávio Bolsonaro entra em uma casa de família, com uma camisa preta e neutra, e se senta com uma eleitora. O candidato a ouve dizer: “Eu acho que a lei tinha que mudar a parte de estupro, ainda mais quando é criança”. Em outra inserção, o candidato do PL bate papo em lojas e escuta: “Você vai no mercado, é impressionante, viu. Você entra com R$ 500 para fazer uma compra e sai com nada”.
Flávio também caminha em um supermercado e discute como alguns produtos custam o mesmo preço, mas com menos quantidade, como no caso de biscoitos wafer, rolos de papel higiênico e sacos de sabão em pó. Nessas ocasiões, ele defende um “tesouraço” em impostos e promete reduzir a dívida pública.
Imagens genéricas versus ‘Brasil Real’
A propaganda de Lula faz uso frequente de imagens genéricas. Há máquinas em lavouras, caminhões nas rodovias, contêineres em portos, embarcações em alto-mar, fábricas em operação, florestas vistas de cima. Cientistas examinam minérios em microscópios dentro de laboratórios e mexem em computadores; jovens andam por corredores de universidades e celebram formaturas; um feirante sorri para sua cliente.
Há também muitas fotos. Além de registros de Lula jovem, a propaganda reexibe o jingle “Antes do Lula, Depois do Lula”, com imagens estáticas, mapas e gráficos. A campanha também faz montagens com letreiros gigantes e cenas artificiais, como a de um ponteiro de relógio que devasta uma festa de aniversário com a família e um descanso no sofá, para defender o fim da escala 6×1.
Já o mote de Flávio é o “Brasil real”, com imagens de “bandidos” com armas na mão, crimes nas ruas filmados por câmeras de segurança e pessoas que reclamam de lojas fechando. Entre as cenas fictícias, uma criança devolve produtos à prateleira de um supermercado por não ter como comprá-los. Ao anunciar a TV Celular, uma “TV 24 horas” no seu canal, Flávio diz: “A gente enxerga os seus problemas”.
Mulheres
Flávio dá espaço especial para as mulheres. Sem histórico na luta pela igualdade de gênero, o candidato do PL tem o desafio de convencer que está preocupado com a pauta, ainda mais depois de sua madrasta, Michelle Bolsonaro, ter dito que foi humilhada por ele. Na primeira propaganda, sua esposa, Fernanda, diz que reeducou Flávio. “Não é à toa que você é o Bolsonaro moderado”, afirma ela.
O candidato reitera: “Com as mulheres, eu aprendo o quanto elas são fortes, mas são fortes de um jeito cuidadoso. Elas são firmes, mas não querem ser donas da verdade”. Em uma das cenas com a esposa, ele veste uma camisa de uma marca de e-Sports, ligada a uma franquia de jogos de tiro. A propaganda que exibiu o ato do 7 de Setembro praticamente só mostrou depoimentos de mulheres.
A propaganda de Lula apostou em resgatar frases antigas do ex-presidente Bolsonaro. Uma cena fictícia mostra uma mãe na ultrassonografia que, ao se lembrar de Bolsonaro, fica com medo ao descobrir que está grávida de uma menina. “Dá até medo de ter uma filha num ambiente assim”, diz a narradora. Noutra inserção, uma mulher diz que Flávio “cresceu em uma família desrespeitosa” com as mulheres.
Lula diz que fará uma “defesa intransigente” das mulheres e que seu governo fortaleceu canais de denúncia. Um narrador afirma que ele criou o Pacto contra o Feminicídio e criou a Lei de Igualdade Salarial, entre outras políticas. A primeira-dama Janja da Silva diz à câmera que “o presidente não se cala diante da violência contra as mulheres”. O presidente, no entanto, não aparece em posição de escuta com nenhuma mulher.
Contato: victor.ohana@estadao.com
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