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Participação dos EUA nas exportações brasileiras em contêineres caiu de quase 13% em 2022 para cerca de 9% em 2025
20 de julho de 2026
Elisa Calmon e Leandro Silveira*
A política tarifária dos Estados Unidos acelerou mudanças nos fluxos comerciais marítimos do Brasil. O avanço das exportações para mercados como Ásia e Oriente Médio se reflete na oferta de capacidade dos armadores, na configuração das rotas e na dinâmica dos fretes.
“O que estamos observando é uma reorganização das cadeias globais de suprimentos, à medida que as empresas diversificam sua produção e suas fontes de abastecimento para aumentar a resiliência de suas operações”, afirmou o presidente da Maersk para Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, Ricardo Rocha.
Na avaliação do diretor-gerente da Solve Shipping Intelligence, Leandro Barreto, os Estados Unidos já vinham perdendo tração como destino das exportações brasileiras em contêineres, enquanto Ásia e Oriente Médio ganhavam espaço. “O tarifaço só catalisou esse processo”, afirmou.
A participação americana nas exportações brasileiras em contêineres caiu de quase 13% em 2022 para cerca de 9% em 2025, apontam dados da Solve. No mesmo período, a representatividade asiática avançou de 27% para 33%, enquanto o Oriente Médio também ampliou presença, atingindo aproximadamente 20% no ano passado.
No comércio exterior como um todo, os embarques para os Estados Unidos também perderam fôlego. Segundo o ComexStat, as exportações brasileiras para o país somaram US$ 17,427 bilhões no primeiro semestre de 2026, queda de 13% em relação ao mesmo período de 2025, quando haviam alcançado US$ 20,031 bilhões.
Rotas e fretes
Embora a Ásia esteja mais longe do Brasil do que outros mercados, a distância é apenas um dos fatores que determinam o custo do frete marítimo. Na conta também entram oferta e demanda, utilização dos navios, percurso, necessidade de transbordo e tamanho das embarcações.
Os armadores ajustam continuamente a oferta de acordo com a demanda. A capacidade mensal na rota entre o Brasil e a Ásia cresceu cerca de 127% entre janeiro de 2023 e janeiro de 2026, atingindo 355 mil TEUs, medida equivalente à capacidade de um contêiner padrão de 20 pés. Na rota para a Costa Leste dos Estados Unidos, a capacidade caiu cerca de 22% no mesmo período, segundo dados da Solve.
A ocupação das embarcações também influencia o valor do frete. Barreto explica que o intenso fluxo de importações provenientes da Ásia faz com que os navios cheguem ao Brasil carregados e retornem com espaço disponível para novas cargas, enquanto o frete de retorno tende a ser mais barato.
A maior parte das cargas embarcadas no Sul e Sudeste do Brasil com destino à Ásia segue pelo Cabo da Boa Esperança, no sul do continente africano. Já as cargas originadas no Norte e Nordeste utilizam o Canal do Panamá. No caso do Oriente Médio, como não há rota direta, os navios passam antes pelo Mediterrâneo.
Estratégias setoriais
Na avaliação de Rocha, da Maersk, a expansão das bases industriais no Sudeste Asiático e a adaptação dos fluxos comerciais criam uma oportunidade para que o Brasil amplie participação nas cadeias globais, especialmente nos setores de agronegócio, manufatura, energia e outras exportações estratégicas.
Para o sócio-fundador da Garín Partners, Julio Favarin, é cedo para afirmar que as tarifas provocaram um redesenho definitivo das rotas comerciais. “O susto provocou uma reação de preparação. Empresas e investidores começaram a se posicionar diante da percepção de que os EUA se tornaram um parceiro mais imprevisível”, disse, ressaltando que o movimento também reflete a expansão do comércio internacional brasileiro.
Segundo Favarin, a adaptação varia conforme o setor. “Cada indústria vai buscar sua válvula de escape”, disse. Além da busca por novos mercados, o especialista cita como exemplo o fortalecimento da produção em outros países. Nesse movimento, a JBS investiu em Omã e ampliou sua presença no Vietnã, enquanto a MBRF expandiu a joint venture Sadia Halal e redesenhou sua logística regional.
No agronegócio, a reorganização dos fluxos comerciais já começa a aparecer nas exportações, embora de forma desigual entre as cadeias produtivas. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que, no primeiro semestre, as exportações brasileiras de carne bovina para a Ásia cresceram cerca de 48% em valor e 23% em volume ante igual período de 2025. Já as vendas de frango avançaram aproximadamente 40% em receita e 19% em volume, enquanto o açúcar ampliou sua presença no Oriente Médio, com alta de cerca de 13,5% em valor e 43% em volume.
No café, porém, a diversificação ainda avança de forma gradual. As exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 34,3% no primeiro semestre, enquanto os embarques para a Ásia registraram alta de 3,9%, segundo o Cecafé.
Apesar do avanço, a abertura de novos mercados ainda não foi suficiente para compensar o peso do mercado americano. “Nós precisamos diversificar. A produção de café, não apenas no Brasil, mas também em outros países, deve crescer bastante. Não temos outras alternativas”, afirmou o presidente do Cecafé, Márcio Ferreira.
*Colaborou Tânia Rabello
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