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‘Títulos dos EUA têm precificado risco de guerra diferente do mercado de ações’

Para estrategista do JPMorgan Asset Management, Marina Valentini, quadro fiscal global e custo de financiamento pesam sobre treasuries

5 de junho de 2026

Por Thais Porsch

Os rendimentos dos títulos soberanos globais escalaram em maio, em um ambiente que sugere forma distinta de precificar os riscos da guerra no Oriente Médio em comparação ao mercado de ações, diz a estrategista de mercados globais do JPMorgan Asset Management, Marina Valentini, à Broadcast. Além do conflito, Valentini aponta como outro potencial ponto de estresse para os juros o próprio quadro fiscal global, com destaque para os EUA, e o efeito dos rendimentos sobre o custo de financiamento. Segundo ela, uma alta dos yields já vinha sendo gestada na parte longa das curvas e foi intensificada pela guerra.

Para Valentini, a escalada dos juros longos dos Treasuries e o consequente aperto no custo de vida do consumidor americano também pressionam a administração Trump a buscar um acordo com o Irã para encerrar a guerra, enquanto, no Brasil, o barulho de eleição entra como fonte adicional de volatilidade para a renda fixa. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Broadcast: Parece haver um descompasso entre o mercado de Treasuries e de ações americanas com a guerra, já que os juros estão subindo em linha com as bolsas de Nova York. Você concorda?

Valentini: O mercado acionário e o mercado de renda fixa estão precificando o risco do conflito de forma muito diferente. A alta das bolsas tem relação com a forte resiliência nos lucros das empresas nesse primeiro trimestre, apesar dos temores de choque de oferta. Acredito que, para as bolsas, as tendências estruturais estão ganhando força sobre as preocupações cíclicas. O rali já foi muito forte, então deve ser natural agora passar para uma fase de realização de lucros. A volatilidade dos juros cria certa volatilidade para as ações, mas ainda não está num ponto que prejudica. Tem um risco dos yields aumentarem e o custo de financiamento para as empresas subir também. Mas ainda não estamos lá.

Broadcast: O mercado de renda fixa pode tomar dois rumos muito distintos a depender da duração da guerra no Oriente Médio. Além da questão da geopolítica global, o que pode ser outro ponto de estresse para os rendimentos?

Marina Valentini: Este momento é ainda de muita incerteza do conflito, já são praticamente três meses e muitas discussões acontecendo. O mercado ainda tem a leitura de uma luz no fim do túnel, que essas negociações de alguma forma vão reabrir e normalizar os fluxos no Estreito de Ormuz. O movimento de alta dos juros dos Treasuries e um aumento no custo de vida para o consumidor americano também está pressionando a administração Trump a conseguir um acordo. Agora estamos vendo esse movimento de alta em yields globais, exceto a China. Desde que o conflito começou, os rendimentos dos títulos dos governos subiram cerca de 55 pontos-base e somam ainda vários fatores de pressão, como incertezas geopolíticas, sobre a inflação e o gasto fiscal. Já estavam em andamento movimentos de abertura na parte mais longa da curva, e o conflito intensificou isso. Falando do Brasil, o barulho de eleição também pode acabar gerando volatilidade para a renda fixa.

Broadcast: A alta dos rendimentos globais também acende alerta para a política monetária. Os rendimentos dos títulos do governo do Reino Unido e do Japão apresentaram forte avanço, levando também em consideração a política interna e intervenção cambial, respectivamente. Como isso deve influenciar as decisões do Banco da Inglaterra (BoE) e do Banco do Japão (BoJ)?

Valentini: Para o BoE, eu acho que não é certeza que eles vão subir os juros na próxima reunião em junho. Eles talvez vão querer ser pacientes, entender o que acontece com o conflito no próximo mês, esperar para fazer uma alta, já que isso pode machucar a confiança do consumidor. A barra para subir os juros é realmente muito alta. Já para o Japão, a história é bem diferente. O mercado ainda aposta nas altas de juros do BoJ, mas o conflito realmente concretizou essas expectativas. Para a reunião de junho do BC japonês, uma alta já está bem precificada.

Broadcast: O nível de carry trade em países emergentes agora é mais alto do que era no início do ano. Como os rendimentos do Japão (JGBs) podem influenciar o Brasil, levando em consideração o efeito dominó de carry trade?

Valentini: O carry foi muito famoso por muito tempo, porque o Japão tem esses yields mais baixos globalmente. Contudo, os juros dos JGBs de 10 anos estavam em 1,6% seis meses atrás, e agora estão em 2,8%. Então, quando começa a ter discussões de alta de juros no Japão, ou potencialmente de um iene mais forte, começam a surgir preocupações de que há algum risco para essas posições de carry trade no mundo inteiro. Ao mesmo tempo, se espera que o Federal Reserve (Fed) mantenha os juros inalterados em 2026, não tendo tantos elementos para esperar uma forte valorização do iene como foi em 2024. Não podemos descartar aqui algum impacto na volatilidade para ativos brasileiros relacionados com carry trade, mas ainda parece estar diferente do cenário de dois anos atrás.

Broadcast: Vários investidores sentiram que o Brasil, como exportador de petróleo, foi um grande beneficiário líquido de entradas durante a guerra no Irã. Contudo, essas entradas de capital podem se mostrar temporárias, ocorrendo uma reversão assim que a guerra terminar?

Valentini: Acredito que o fluxo de entradas no Brasil deve continuar forte no longo prazo. Antes do conflito, os países emergentes estavam bem posicionados para ter outro ano forte. Inicialmente, o Brasil parecia ser mais resiliente por ser exportador de petróleo, mas em abril vimos a saída de fluxos dos estrangeiros. Acredito que a economia brasileira compete muito com outros países emergentes pela atenção, ainda mais com esse boom tecnológico que temos na Ásia, especialmente Taiwan e Coreia do Sul. Para o investidor global, será importante ver se a expectativa de queda de juros no Brasil será mantida.

Broadcast: Que relação podemos fazer entre a alta dos juros longos dos Treasuries e a dívida pública crescente dos EUA?

Valentini: Os EUA estão passando por um aumento da dívida federal importante nos últimos 20 anos e não parece ter um incentivo dos partidos Republicano ou Democrata para tomar alguma ação. É uma questão de longo prazo e é um dos motivos pelos quais o título da T-note de 10 anos tem aumentado. Esperamos que isso continue gerando uma abertura da curva, o famoso stepping in da curva, em que os juros de longo prazo sobem mais que os de curto prazo.

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