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Mercado vê espaço cada vez menor para novos cortes da taxa Selic

Possível risco à credibilidade do Banco Central, caso siga avançando na queda, foi citado em reunião com economistas

2 de junho de 2026

Por Marianna Gualter e Gabriela Jucá

O espaço para novos cortes de juros pelo Banco Central foi discutido por economistas do mercado financeiro que se reuniram com o diretor de Política Econômica e de Assuntos Internacionais do BC, Paulo Picchetti. Um possível risco à credibilidade da autoridade monetária caso siga avançando nas reduções, mesmo diante da incerteza sobre o cenário e do aumento das expectativas de inflação, chegou a ser levantado por um grupo minoritário de participantes, segundo relatos colhidos pela Broadcast.

Picchetti se reuniu com dois grupos de economistas ontem pela manhã, em São Paulo. Os encontros fazem parte das agendas trimestrais da autoridade monetária com o mercado, que a ajudam a acompanhar as avaliações dos analistas sobre a economia.

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) acontecerá nos dias 16 e 17 de junho, quando o colegiado vai definir o rumo da taxa Selic, hoje em 14,50%.

Conforme apurou a reportagem, a maioria dos cenários apresentados nos encontros prevê uma taxa terminal para a Selic neste ciclo entre 14,00% e 14,25%. “O cenário mais otimista era uma Selic de 13,25%, que hoje corresponde à mediana do Focus”, afirmou uma fonte.

Os participantes indicaram haver dúvidas sobre quais serão os próximos passos da autoridade monetária, principalmente se o processo de calibração será encerrado já nesta reunião de junho, com uma terceira redução de 0,25 ponto porcentual, de 14,50% para 14,25%, ou se há espaço para mais cortes.

A percepção de piora do cenário recebeu atenção especial dos economistas, que mencionaram a desancoragem das expectativas de inflação captada pelo Focus e apresentaram cenários de IPCA acima de 5% este ano e ao redor de 4,0% em 2027.

El Niño

Para além da pressão oriunda do conflito no Oriente Médio, os participantes mencionaram o desempenho ainda forte da atividade econômica e destacaram os riscos de alta para o IPCA relacionados ao El Niño.

“Vemos uma série de choques diretos e indiretos que vão perdurar, principalmente sobre alimentos e combustíveis. O mundo inteiro está revisando os cenários e com receio desses efeitos de segunda ordem”, disse um analista presente, sob condição de anonimato. “O El Niño ainda não está totalmente na conta. Uma casa chegou a dizer que vê inflação de 5,3%, mas caso o fenômeno seja um pouco mais forte, vai para 5,5%”, afirmou outro economista.

Conforme relatos, na segunda reunião do dia, pelo menos dois dos presentes manifestaram preocupação com a credibilidade do BC caso a autoridade monetária tente avançar na calibração dos juros.

“O BC conseguiu acumular uma boa credibilidade. Havia uma certa desconfiança de como o BC atuaria, mas eles fizeram um bom trabalho e isso foi reconhecido. Mas a partir do momento em que temos muitas pressões inflacionárias, uma atividade forte e outros fatores, se o BC seguir reduzindo os juros e a inflação subindo, talvez essa credibilidade comece a ser colocada em risco”, disse um dos presentes.

Segundo uma outra fonte, um dos analistas que expressou essa preocupação mencionou que, em sua percepção, a desinflação registrada no ano passado teria ocorrido principalmente por efeito de fatores exógenos, câmbio e alimentação, e não por influência da política monetária.

Jornalda 6X1

Os impactos potenciais do fim da escala 6×1 foram levantados por alguns dos participantes durante os dois encontros. Segundo relatos, um analista disse estimar impacto na ordem de 0,30 ponto porcentual no IPCA em 2027, concentrado em serviços intensivos em mão de obra. Outros destacaram eventuais efeitos sobre o mercado de trabalho.

Um participante avaliou que a mudança pode levar a um aumento da pejotização. Um terceiro comentou que pode haver um movimento inicial de demissões seguido por um segundo de contratações com salários menores.

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