Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

Cargill: Brasil precisa avançar em dragagem e hidrovia para cortar custo logístico

11 de setembro de 2026

Por Gabriel Azevedo

São Paulo, 11/09/2026 – O Brasil precisa avançar na dragagem e na manutenção de hidrovias para ampliar o uso do transporte fluvial e reduzir o custo logístico do agronegócio, avaliou o presidente da Cargill no Brasil e do Negócio Agrícola na América Latina, Paulo Sousa. Segundo ele, o País dispõe de infraestrutura natural de baixo custo, mas precisa assegurar condições regulares de navegação e maior integração entre modais.

“Hidrovia tem que ser dragada. Hidrovia é dragada nos Estados Unidos, no Mississippi, na Europa, no Danúbio, em todos os canais de acesso. Isso é dragado”, afirmou Sousa, ontem (10), no Agro Summit, promovido pelo Bradesco BBI, em São Paulo. “A hidrovia é a infraestrutura que a natureza te deu. O capex mais baixo que tem é hidrovia. Mas tem que cuidar dela. Tem que dar uma forcinha para a natureza”, acrescentou. Ele ressalvou, porém, que as intervenções precisam ser ambientalmente adequadas.

Na avaliação do executivo, o desenvolvimento das vias navegáveis deve fazer parte de uma estratégia mais ampla, com competição entre rodovias, ferrovias e hidrovias. “O que gera frete mais barato é competitividade”, disse. Para Sousa, diferentes alternativas para o transporte de uma mesma carga pressionam custos e reduzem a dependência de um único modal.

A discussão ocorre meses depois de protestos de povos indígenas do Baixo Tapajós contra planos de dragagem no rio. Em dezembro de 2025, o governo federal abriu licitação de R$ 74,8 milhões para serviços de dragagem de manutenção entre Santarém e Itaituba, no Pará. Em fevereiro, indígenas ocuparam o terminal da Cargill em Santarém e cobraram consulta prévia às comunidades afetadas. O governo suspendeu o pregão e afirmou que empreendimentos vinculados à Hidrovia do Tapajós seriam precedidos de consulta livre, prévia e informada, nos termos da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Em julho, o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) só retome a licitação após a obtenção da licença ambiental prévia e a realização da consulta às comunidades potencialmente afetadas. O TCU registrou que os serviços não haviam começado.

O Tapajós é um corredor estratégico para o escoamento de soja e milho do Centro-Oeste pelo Arco Norte. A hidrovia movimentou 16,8 milhões de toneladas em 2025, alta de 14,3% ante o ano anterior, segundo o Ministério de Portos e Aeroportos. Soja e milho responderam por 88,4% do volume. A Cargill opera uma estação de transbordo em Miritituba, com capacidade de 4 milhões de toneladas por ano, e um terminal em Santarém, com capacidade anual de embarque de 4,9 milhões de toneladas.

A manutenção das hidrovias ganhou importância após as estiagens severas de 2023 e 2024 na Amazônia, que reduziram os níveis dos rios e impuseram restrições à navegação. O governo estima que o Brasil tenha cerca de 41 mil quilômetros de malha hidroviária, dos quais aproximadamente 21 mil são navegáveis, e que apenas 48% da capacidade considerada economicamente viável seja explorada.

Para Sousa, ampliar esse uso passa pela integração entre hidrovias, ferrovias e rodovias. “A gente tem que trabalhar esse custo logístico para continuar sendo competitivo no mundo”, afirmou. Na avaliação do executivo, a infraestrutura precisa acompanhar o crescimento da produção agrícola e oferecer alternativas para o transporte de soja, milho, fertilizantes e outras cargas.

Contato: gabriel.azevedo@estadao.com

Veja também