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Agro Summit/Eurasia: crise no STF É ‘guerra aberta’, mas estabilidade não está em risco

10 de setembro de 2026

Por Gabriel Azevedo

São Paulo, 10/09/2026 – A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) representa uma “guerra aberta” dentro da Corte, mas não coloca em risco a estabilidade institucional mais ampla do Brasil, avaliou o diretor da Eurasia Group para as Américas, Christopher Garman. Para ele, a principal preocupação de longo prazo é uma perda gradual de confiança nas instituições, com efeitos sobre o ambiente de negócios.

“É uma guerra aberta no Supremo. É muito chocante, inquietante tudo o que tem sido revelado”, afirmou Garman durante o Agro Summit, promovido pelo Bradesco BBI, em São Paulo. Apesar da gravidade da disputa entre ministros, o analista disse não enxergar, neste momento, risco mais amplo à estabilidade institucional brasileira.

A avaliação foi feita um dia depois de o presidente do STF, Edson Fachin, intervir na crise envolvendo os ministros Alexandre de Moraes, André Mendonça e Flávio Dino. Fachin suspendeu os efeitos de decisões conflitantes sobre o comando da Polícia Federal e manteve Andrei Rodrigues na direção geral da corporação. Também retirou Moraes da relatoria do inquérito das fake news e determinou que procedimentos que envolvam possível investigação de integrantes do Supremo sejam submetidos previamente à presidência da Corte.

Fachin convocou ainda sessão extraordinária do plenário para terça-feira (15), para discutir a crise. A disputa ganhou força depois de Mendonça tornar público relatório da Polícia Federal produzido nas investigações do Banco Master que revelou mensagens entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e Moraes. Moraes pediu a investigação de Mendonça, enquanto Mendonça determinou nesta semana o afastamento de Rodrigues e do diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada. Flávio Dino reverteu a medida antes da intervenção de Fachin.

Para Garman, porém, o destino individual dos ministros é menos importante para o ambiente de negócios do que a possibilidade de o episódio resultar em mudanças institucionais. O analista disse estar mais atento à eventual adoção de reformas capazes de reduzir conflitos de interesse e reforçar a confiança no Judiciário.

“Para mim, o mais importante é se, depois disso tudo, vai haver alguma reforma do Judiciário”, afirmou. Segundo Garman, o Brasil continua tendo instituições relativamente resistentes em comparação internacional, mas enfrenta um processo de desgaste que pode afetar gradualmente a confiança de empresas e investidores.

“Não sou alarmista, mas o que me preocupa é essa corrosão institucional”, disse. Garman resumiu o risco com a expressão em inglês “death by a thousand cuts”, usada para descrever uma deterioração provocada por uma sequência de pequenos danos, em vez de uma ruptura repentina. “Não é uma crise aguda”, afirmou.

A crise também entrou no cálculo eleitoral da Eurasia. Garman avaliou que o noticiário negativo em torno do Supremo tende, neste momento, a prejudicar mais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do que a oposição, por aprofundar entre os eleitores uma sensação mais ampla de pessimismo e de que o País está na direção errada.

Segundo o analista, esse efeito não decorre necessariamente de uma associação direta entre Lula e integrantes do Supremo. Na avaliação dele, uma sequência de notícias negativas sobre corrupção e conflitos institucionais reforça o desalento do eleitorado, cenário que tende a pesar sobre o governo de turno. Garman observou que a aprovação de Lula caiu nas últimas semanas e classificou o movimento como um sinal de alerta para a campanha.

Na quarta-feira, Lula reconheceu a existência de uma crise no Poder Judiciário e defendeu a quebra completa do sigilo das investigações envolvendo o Banco Master. O presidente afirmou que o País precisa de mais transparência e criticou vazamentos seletivos que, segundo ele, interferem na disputa eleitoral.

Garman afirmou que uma eventual reforma do Judiciário após a atual crise poderia ter efeito positivo sobre a confiança institucional. Para ele, o episódio ganha importância para empresas e investidores justamente porque a preocupação não está apenas no desfecho imediato da disputa entre ministros, mas nas regras que deverão orientar a atuação da Corte depois dela. “Depois de crises agudas, algumas reformas vêm”, afirmou. Segundo o diretor da Eurasia, uma resposta institucional que aumente a previsibilidade e reduza os problemas expostos pela atual disputa seria um desenvolvimento construtivo para o ambiente de negócios brasileiro.

Contato: gabriel.azevedo@estadao.com

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