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9 de setembro de 2026
Artigo de: Roberto Padovani

Juros altos por muito tempo e restrições na oferta trazem preocupação em relação ao mercado de crédito. Alguns fatores, no entanto, devem suavizar o ajuste
A reação do Banco Central (BC) aos desequilíbrios gerados pelo impulso fiscal de 2023 está promovendo, como esperado, uma piora no mercado de crédito. Embora a transmissão de política monetária não seja linear e cause alguma apreensão, o cenário não indica uma crise mais ampla.
Por um lado, o aperto monetário produziu seus efeitos esperados. A alta da taxa de juros ao final de 2024 encontrou famílias, empresas e governo endividado. Como resultado, a inadimplência e os spreads bancários passaram a subir, freando o crédito, o consumo e o crescimento. Enquanto o comércio varejista saiu de uma expansão de 4,1% ao final de 2024 para 1,6% em junho deste ano, o PIB recuou de 3,4% em 2024 para estimados 1,9% em 2026.
Apesar do sucesso em moderar o ritmo de crescimento, o atual ciclo de crédito tem suas peculiaridades. A primeira é a intensidade do aperto monetário, com os juros reais em seu patamar mais elevado em quase duas décadas. Diferentes estimativas de mercado mostram as taxas oscilando entre 8,0% e 9,0%.
A segunda característica tem sido a duração do aperto. Os juros seguem elevados como forma de compensar os estímulos do governo e os choques globais, produzindo um desgaste financeiro mais pronunciado.
Por último, o processo não tem sido linear em função de momentos de descontinuidade na oferta de linhas bancárias e não bancárias. O choque nos preços de petróleo em março deste ano reduziu o espaço para os bancos centrais cortarem juros, o que elevou a aversão a risco e coordenou, no Brasil, uma redução da oferta de crédito.
Esta coordenação na restrição de crédito novamente se observou em agosto, com a leitura de que o crescimento em 2027 será mais fraco. Além dos impactos defasados dos juros elevados, a produção agrícola tende a ser menor, o impulso fiscal não irá ajudar o crescimento e não se pode descartar uma crise de confiança em função de uma eventual combinação de alta de juros internacionais com dificuldades em se controlar a dívida pública no Brasil.
O aumento do risco explica uma postura de cautela de bancos e investidores. Há tanto uma fuga para a qualidade quanto algum racionamento de crédito, uma vez que ajustes em preços podem não ser suficientes para a proteção de balanços.
Com isso, é esperada uma piora adicional nas condições financeiras em um quadro já bastante complicado. O comprometimento de renda das famílias segue em alta e o risco no mercado corporativo vem subindo de modo importante. Se em um primeiro momento havia preocupação com empresas que entraram com dívida elevada no ciclo de aperto monetário, a leitura agora é que os problemas são mais disseminados.
É natural que neste ambiente haja a preocupação com uma desaceleração mais brusca do mercado. Porém, dois fatores trazem um pouco de tranquilidade. O primeiro é que a economia brasileira vem se mostrando mais resistente a choques. Foi o que se observou nos últimos anos. Mesmo com a pandemia, a guerra na Ucrânia, riscos climáticos, a imposição de tarifas pelo governo norte-americano e o conflito no Oriente Médio, o crescimento vem sendo preservado.
Esta resiliência pode ser explicada por uma combinação de importantes reformas feitas depois de 2016, exportações com um maior peso na estrutura econômica do país e condições favoráveis de renda, dadas as mudanças estruturais no mercado de trabalho e a maior relevância dos programas sociais. Estes argumentos reduzem as chances de uma recessão e, com isso, de uma crise financeira mais grave.
O segundo fator é que o processo de desaquecimento vem sendo controlado pela política monetária. Não se trata de uma crise aberta, com ajustes descoordenados como observado, por exemplo, em 2015. Isso significa que caso haja uma desaceleração econômica mais intensa, o BC pode reagir cortando mais rapidamente os juros e atenuar, deste modo, os riscos de mercado.
O prolongado aperto monetário e as descontinuidades na oferta de crédito, portanto, trazem preocupações. Mas a maior resiliência da economia e o fato de o BC coordenar o processo ajudam a afastar cenários mais negativos.
Roberto Padovani é economista-chefe do Banco BV e escreve artigos para a Broadcast quinzenalmente, às terças-feiras. Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.
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