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Crédito do BNDES bate recorde para bens de capital, mas indústria mantém cautela

11 de setembro de 2026

Paula Martini

Em meio à alta taxa básica de juros, a Selic, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou, de janeiro a julho deste ano, valores recordes para investimentos em parques fabris por meio da compra de máquinas e equipamentos.

Em sete meses, o banco de fomento autorizou empréstimos de R$ 17,86 bilhões para a aquisição de maquinários industriais, alta de 14% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram aprovados R$ 15,66 bilhões. No ano passado completo, o banco aprovou R$ 33,94 bilhões para o segmento.

A aprovação é a etapa em que o banco dá aval para as operações de crédito solicitadas pelas empresas. Ela precede a efetiva liberação de recursos por meio dos desembolsos e pode servir como termômetro do apetite de determinados setores para contrair crédito e realizar novos investimentos.

O setor produtivo, no entanto, é cauteloso sobre o ritmo dos aportes e atribui o fôlego do crédito ao setor à expansão de linhas com taxas incentivadas. O banco de fomento, por sua vez, afirma que a maior parte dos financiamentos é concedida a taxas de mercado.

O montante aprovado de janeiro a julho é o maior desde o início da série histórica do banco, em 2016, primeiro ano sem o Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Criado em 2009 para ajudar a combater os efeitos da crise financeira internacional, o programa oferecia linhas de crédito com juros subsidiados, por meio do BNDES, para a aquisição de máquinas e equipamentos destinados a ampliar a produção.

A mudança de patamar fica mais evidente quando se amplia a comparação. O BNDES já aprovou R$ 116,5 bilhões em crédito para a aquisição de máquinas e equipamentos da indústria nacional entre janeiro de 2023 e julho de 2026. O valor supera, em apenas três anos e meio, os R$ 110,8 bilhões aprovados entre 2016 e 2022.

O volume aprovado de janeiro a julho de 2026 inclui linhas tradicionais, como a Finame, que opera com a TLP, e iniciativas com taxas mais baixas que as de mercado, afirmou à Broadcast o diretor de desenvolvimento produtivo, inovação e comércio exterior do BNDES, José Luis Gordon. Entre elas estão o BNDES Mais Inovação, que financia projetos de inovação com a TR (taxa referencial), o Fundo Clima e o Plano Brasil Soberano, para socorrer empresas afetadas pelas tarifas dos Estados Unidos e por conflitos internacionais.

Segundo Gordon, a maior parte das operações ainda é contratada a taxas de mercado, mas o conjunto de linhas incentivadas permite reduzir o custo para projetos considerados estratégicos. Ele espera que as aprovações continuem em patamar elevado mesmo com a Selic nos atuais 14% ao ano.

A TLP, adotada nos novos contratos do BNDES a partir de 2018 em substituição à TJLP, reduziu o componente de subsídio público dos financiamentos e aproximou o custo do crédito das condições de mercado. Com isso, embora não seja diretamente igual à Selic, o custo das operações passou a ser mais sensível ao ambiente de juros da economia do que era sob a TJLP.

Sem conseguir uma mudança completa na TLP, a atual gestão lançou mão de uma estratégia que consiste em misturar fontes de juros mais baixos e de mercado, fechando operações com taxas finais melhores. Em outra frente, uma lei aprovada em maio de 2023 permitiu ao BNDES aplicar juros mais baixos em projetos para inovação.

“Apesar da TLP, tem saída pelo prazo e pela carência oferecida às empresas”, explica Gordon. Segundo o diretor, o BNDES também tem ampliado as alternativas com taxas incentivadas.

Economistas críticos da atuação do BNDES na economia alertam que os juros subsidiados provocam distorções no mercado de crédito, mas, reconhecem que o banco está longe do gigantismo do passado. Em 2010, no auge do crédito incentivado, os desembolsos corresponderam a 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB). O patamar atual está em 1,4%.

No caso de máquinas e equipamentos, o desembolso ocorre, em geral, ao longo de dois a três anos, diz Gordon. Isso significa que o volume aprovado não corresponde, necessariamente, a investimentos já realizados.

O executivo atribui o avanço das aprovações à decisão de recolocar o BNDES no centro da política de aumento da produtividade. A renovação das máquinas, afirma, é estratégica para ampliar a capacidade produtiva e modernizar a indústria.

“Financiar a aquisição de máquinas e equipamentos contribui com o aumento da produtividade, da eficiência econômica e da capacidade produtiva da indústria nacional, além de atuar como um componente de redução da pressão inflacionária, pois significa que o país está produzindo mais, com melhor capacidade e melhor qualidade”, disse o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, por escrito.

SETOR PRODUTIVO MANTÉM CAUTELAA

Apesar do aumento nas aprovações do BNDES, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) aponta para um cenário de estagnação, devido ao impacto dos juros altos nas decisões de investimento e a maior concorrência chinesa.

Para Giselle Rezende, gerente de financiamento da Abimaq, o avanço das aprovações pelo BNDES está relacionado, em parte, à expansão de linhas com taxas incentivadas, como as voltadas à inovação, ao Fundo Clima e ao Plano Brasil Soberano, e não necessariamente a uma retomada generalizada dos investimentos.

Segundo ela, a Nova Indústria Brasil, lançada em 2023 e com implementação das linhas a partir de 2024, reduziu o custo de financiamento de máquinas e equipamentos voltados à inovação e à indústria 4.0. “Foi o que alavancou um pouco o investimento”, afirma.

A executiva ressalta, porém, que crédito mais barato não significa, por si só, disposição para investir. “Isso não representa necessariamente um aquecimento desse mercado. Ainda não”, disse. Segundo Giselle, o custo do capital ainda pode ser elevado diante do retorno esperado das máquinas, enquanto a incerteza econômica leva empresas a preservar caixa e adiar projetos de expansão ou renovação da capacidade produtiva.

Na avaliação de Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), a diversificação dos instrumentos utilizados pelo BNDES também ajuda a explicar o avanço das aprovações, com fundos garantidores e linhas vinculadas à TR (taxa referencial) para inovação.

Cagnin pondera que o crescimento das aprovações ocorre sobre uma base ainda baixa, após anos de redução da carteira do BNDES. Em relação ao tamanho da economia, os desembolsos do banco continuam abaixo do patamar observado antes da crise de 2015 e 2016, apesar da expansão observada a partir de 2022.

“Não há um impulso grande a despeito desse crescimento do banco”, diz. Para o economista, o investimento deveria ser preservado mesmo em um cenário de juros elevados pelo efeito na capacidade produtiva do país.

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