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Alta do petróleo embute viés de alta para o PIB de 2006

Apesar disso, operações de crédito mais caras são limitadores para a atividade econômica, segundo especialistas

26 de maio de 2026

Por Gabriela Jucá e Caroline Aragaki

A persistência do choque do petróleo decorrente da guerra no Oriente Médio indica um viés de alta para as estimativas do Produto Interno Bruto (PIB) de 2026, conforme economistas consultados pela Broadcast. A posição do Brasil como produtor da commodity favorece um cenário de exportações mais robustas, com efeitos positivos na composição do PIB.

Uma certa resiliência da atividade também reforça o incremento nas projeções, segundo os analistas. No entanto, embora o consumo continue forte, sustentado pelo mercado de trabalho, o crédito mais caro e restrito deve limitar revisões ainda mais expressivas nas estimativas, consideram os analistas.

Com o choque nos preços de energia, os preços de exportação mais altos devem se refletir em investimentos e salários maiores, segundo o economista-chefe para Mercados Emergentes da Capital Economics, William Jackson, que vê impacto líquido positivo no crescimento do PIB brasileiro. Ele ainda lembra que o superávit comercial em combustíveis e bens intermediários, com destaque para as commodities, disparou desde o início do conflito no Irã, em 28 de fevereiro.

O diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Nilton David, afirmou recentemente que não há sinais claros de encerramento do conflito no Irã e cravou, ainda, que mesmo se o conflito terminasse amanhã, os preços de energia levariam algum tempo para retornar aos níveis anteriores. “Se é que retornarão”, ponderou.

Na mesma linha, o economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, considera que o choque do petróleo estimula a produção da commodity e também de outros itens da pauta de exportações no Brasil. Ele acrescenta que as condições de renda estão muito favoráveis e que, em anos eleitorais, é comum ter mais estímulos econômicos.

“Vemos motivos para a economia brasileira crescer, com o setor de exportação e todos os estímulos que o governo vem concedendo, de alívio nas condições de crédito, com linhas novas, e também isenção de imposto”, afirma Padovani.

Um estudo elaborado pela XP Investimentos indica que as medidas de estímulo anunciadas recentemente pelo governo federal, via impulso de crédito, subsídios e renda, têm potencial para adicionar até 1,4 ponto porcentual ao PIB 2026, o equivalente a um montante em torno de R$ 190 bilhões.

O efeito líquido deve ser inferior ao potencial das medidas, na avaliação da corretora, especialmente porque as novas operações de crédito em 2026 não devem utilizar todo o volume de recursos à disposição, avaliam os analistas Bianca Lima e Rodolfo Margato, em relatório. Ainda assim, as ações devem ser traduzidas em consumo e incremento no PIB no curto prazo. A projeção da XP de crescimento de 2% para a atividade no ano tem viés de alta.

Para Jackson, da Capital Economics, as medidas de estímulo fiscal e parafiscal do governo tendem apenas a amortecer os impactos de um custo de energia mais alto para famílias e outros setores, de modo que ambos praticamente se neutralizem.

Renda versus crédito

O Santander Brasil foi uma das casas que elevou recentemente a estimativa para o PIB deste ano, de 1,5% para 1,8%. Segundo o economista Marco Antonio Caruso, o aumento na projeção reflete em boa parte a persistência do choque de energia e a resiliência doméstica. A revisão só não é maior porque existe mais de um Brasil apontado nos indicadores macroeconômicos, segundo ele: o Brasil da renda versus o Brasil do crédito.

Padovani, do BV, destaca que há uma piora nas condições de crédito, com oferta mais restrita, a partir da guerra. “Então qual desses dois vetores vai pesar mais? O primeiro, com produção petrolífera e de exportações e estímulos econômicos maiores? Ou a piora nas condições de crédito? Na dúvida, decidimos aguardar mais informações, principalmente em relação à efetividade dos estímulos”, pontua. A projeção do BV é de crescimento de 1,5% do PIB do Brasil em 2026, abaixo da mediana das previsões mercado, que, segundo o último boletim Focus, é de 1,85%.

O economista do BV aponta que a piora nas condições de crédito somada ao programa Desenrola, de renegociação de dívidas, tende a deslocar recursos para consumo e, nesse contexto, haveria menos espaço para cortes na Selic. “Significa que o aperto monetário, que já vinha acontecendo, continuará produzindo seus efeitos, atuando no sentido de moderar o crescimento”, acrescenta Padovani.

A Capital Economics também considera que uma Selic em nível elevado tende a ser negativa para a economia, particularmente para o consumo das famílias, devido aos custos mais altos de dívida. Ainda assim, Jackson nota que a transmissão da taxa básica de juros para a atividade real tende a levar algum tempo.

“A dimensão de todos esses efeitos no momento é bastante incerta, em parte porque demoram para afetar a economia, em parte porque dependem da escala e da duração do choque energético. Mas o impacto líquido no crescimento do PIB do Brasil provavelmente será positivo”, crava o economista da Capital Economics.

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