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Marqueteiro de Flávio molda soberania em discurso, e campanha evita Trump para não ceder a Lula

27 de agosto de 2026

Por Guilherme Caetano, do Estadão

Brasília, 27/08/2026 – O marqueteiro da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, Duda Lima, definiu quatro prioridades para a comunicação do candidato e a orientação para tentar desgastar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) “sempre que houver oportunidade”.

Nas redes sociais, em discursos e em entrevistas, Flávio tem dado espaço para os temas relacionados ao custo de vida, à segurança pública, às mulheres e à soberania – que tem sido ajustado como uma espécie de antídoto, para não endossar a narrativa petista sobre interferência estrangeira.

Flávio tem tratado a soberania não como a capacidade que um Estado tem para governar seu próprio território sem interferência externa, mas como a liberdade dos cidadãos de circularem livremente pelas cidades e tomarem decisões sem a ameaça do crime organizado. O objetivo é passar o termo do campo das relações exteriores para o da segurança pública.

A “ressignificação” do tema da soberania usada pela campanha do PL passa também pela defesa de “retomar o controle” de presídios, que, segundo a equipe, hoje funcionam como centrais de comando de facções criminosas; da autonomia para decidir como explorar riquezas no solo brasileiro; e da oportunidade dada aos cidadãos para enriquecer do modo como quiserem.

“Nós perdemos a nossa soberania. Nós hoje não temos mais soberania sobre o nosso celular. Não temos mais soberania sobre o nosso carro. Não temos mais soberania sobre a sua bolsa. Você não tem mais soberania hoje sobre a sua casa. Não tem soberania na sua rua. Não tem soberania sobre a sua vida”, discursou Flávio no ato inaugural da campanha, na praia de Copacabana, em 16 de agosto, já seguindo orientação de Duda Lima.

“Eu te pergunto. Quem tem soberania aqui no Complexo do Alemão? O governo ou o Comando Vermelho? Um governo que não tem a capacidade e não tem também a vontade de defender a soberania de quem mora aqui no Brasil. Não tem condições de manter a soberania sobre o seu próprio território. Ou está fechado com crime organizado. Ou é muito incompetente. E eu quero começar dizendo o seguinte. Eu vou resgatar a soberania do Brasil. Porque eu vou tratar PCC, Comando Vermelho e milícia como organizações terroristas”, disse em seguida, citando a palavra soberania 11 vezes.

A adaptação de sentido vem fazendo com que Flávio trate do mesmo assunto que Lula sem endossar a crítica da esquerda a uma suposta ameaça de interferência estrangeira. O temor começou a rondar o debate público do Brasil a partir da eleição de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos.

Além da prisão do ditador venezuelano Nicolás Maduro e da ameaça de anexar o Canadá e a Groenlândia, o governo americano impôs tarifas pesadas sobre as importações brasileiras e punição financeira sobre autoridades do Brasil sob a alegação de perseguição ao aliado e ex-presidente Jair Bolsonaro.

Trump e seus auxiliares têm sugerido grande interesse na América do Sul e feito movimentos vistos como tentativas de influência na política brasileira. Em julho, o Palácio do Planalto negou o visto de dois oficiais dos Estados Unidos que pretendiam vir ao País para questionar o sistema eleitoral brasileiro após identificar tentativas do governo Trump de lançar desinformação sobre as eleições de outubro.

A aprovação de Lula chegou a melhorar em meio à ofensiva de Trump sobre o mercado brasileiro, e a associação com o presidente americano passou de bônus a fardo para o bolsonarismo. Com isso, o tema deve ser evitado na campanha eleitoral. Uma membro do núcleo duro da campanha de Flávio diz que “nunca é legal dar uma bandeira ao inimigo”.

O tema do custo de vida deve guiar as peças de propaganda eleitoral que serão veiculadas a partir desta sexta-feira, 28, pela campanha do PL. O partido quer explorar a redução do poder de compra, a inflação e o endividamento das famílias no conteúdo veiculado na TV, no rádio e nas redes sociais, tentando tirar votos de Lula pela ótica da economia.

A segurança pública, por sua vez, é a seara em que Flávio tem se permitido ser mais “radical”, como ele mesmo diz. Num comício no estádio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, em 22 de agosto, ele prometeu que “o bandido vai ser tirado de circulação, em pé ou deitado, porque quem tem que andar sem medo na rua somos nós”.

Diante de milhares de pessoas, o candidato apelou para as propostas mais extremas de seu plano de governo para empolgar os apoiadores. Repetiu o compromisso de classificar facções criminosas como narcoterroristas e foi ovacionado quando garantiu castração química a estupradores caso seja eleito presidente.

“‘Ai, mas o Flávio é radical!’ Não gostou? Vota no defensor de bandidos”, ironizou sob aplausos o senador, referindo-se ao presidente Lula.

Na ocasião, ele também voltou a prometer aumentar as penas para crimes como roubo de celular, e que os condenados terão de trabalhar durante o cumprimento da pena para custear a própria estadia e indenizar a vítima. E afirmou que “espancador de mulher vai ser preso imediatamente” – acenos ao eleitorado feminino têm sido uma das tônicas das campanhas do PL, e o quarto dos pilares definidos pelo marqueteiro.

No ato que abriu a campanha, por exemplo, Flávio citou a palavra “mulher” 12 vezes, prometendo protegê-las, prender seus agressores e, inclusive, nomeá-las a uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF), algo que nem mesmo Lula fez em seu terceiro mandato, com as três oportunidades que teve.

“Aquelas mulheres que acreditaram que o governo do PT ia protegê-las. O que dizer para uma mulher que acreditou no PT e foi abandonada, que foi assassinada por um vagabundo covarde, só pelo simples fato de ser mulher. O que falar para essa mulher, que é uma das mais de 6.000 mulheres que foram assassinadas durante o governo atual. Para essa mulher a esperança virou morte”, disse ele em Copacabana.

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