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28 de agosto de 2026
Por Letícia Correia
São Paulo, 28/08/2026 – A desaceleração da economia brasileira e a leitura de que o efeito contracionista dos juros finalmente se dissemina entre os setores colocaram no radar a possibilidade de um PIB negativo no terceiro trimestre. O risco, porém, não se confunde com o cenário central: projeções recentes de instituições com viés mais cauteloso apontam que o cenário mais provável para o período de julho a setembro é de estabilidade na margem, com variações ao redor de zero.
Enquanto alguns economistas já veem espaço para uma contração marginal, outras instituições avaliam que os vetores sustentando a atividade são suficientes para manter o PIB “de lado” no curto prazo.
A Austin Rating projeta crescimento de 0,5% no segundo trimestre e 0,0% no terceiro, seguido de alta de 0,2% no quarto trimestre. Para o PIB de 2026, a agência estima expansão de 1,7%. “No terceiro trimestre estamos com um cenário de estabilidade. Tem risco de entrar no terreno negativo? Tem, mas hoje o risco é menor”, afirma Alex Agostini, economista-chefe da Austin.
“O governo ainda mantém uma política fiscal expansionista, dando muito dinheiro, muito crédito, estimulando o consumo. Isso inibe a economia de ir para o terreno negativo”, diz, ressaltando que, mesmo se uma contração ocorresse, ela seria mais um ajuste conjuntural ligado à política monetária do que uma mudança de tendência.
Para Agostini, a queda do PIB no terceiro trimestre dependeria de uma combinação rara de fatores: forte deterioração da demanda industrial, piora externa intensa, desaceleração dos serviços apesar de um mercado de trabalho ainda aquecido e uma quebra de safra severa. “Não deve haver tempo hábil para afetar o período”, acrescenta.
O Inter também trabalha com um cenário central de estabilidade. O banco projeta alta de 0,3% do PIB no segundo trimestre e 0,0% tanto no terceiro quanto no quarto trimestres, com crescimento de 1,8% em 2026. “Os dados do segundo trimestre reforçam a visão de acomodação da atividade econômica, mas não antecipamos uma contração no PIB no curto prazo”, afirma André Valério, economista sênior.
Segundo ele, a perda de força da demanda tende a seguir como pano de fundo, em um ambiente de endividamento elevado das famílias e inadimplência pressionando a disposição para consumo e crédito. “Teremos vetores nos próximos meses que atuarão para desacelerar a atividade, em um ambiente de demanda perdendo força, com as famílias com pouco espaço financeiro, dado o tamanho do endividamento e o comportamento da inadimplência”, diz o banco.
Ao mesmo tempo, o Inter chama atenção para uma dicotomia que, na visão da instituição, ajuda a explicar por que o PIB agregado pode ficar estagnado mesmo com fraqueza doméstica. “Vemos duas economias em paralelo. O setor doméstico perde dinamismo, enquanto atividades ligadas ao ciclo externo, como extrativa, agronegócio e serviços de TI, seguem sustentando o PIB via exportações e investimentos, com tendência de continuidade”, afirma Valério, para quem uma contração da economia no terceiro trimestre teria baixa probabilidade e exigiria choque externo adicional além dos já mapeados.
O economista-chefe da Vivest, André Loes, estima alta de 0,5% no PIB do segundo trimestre e queda de 0,1% no terceiro, seguido de aumento de 0,3% no quarto trimestre. Para 2026, a projeção é de crescimento de 1,9% no PIB e, para 2027, de 1,3%. Para Loes, o número levemente negativo para o terceiro trimestre não altera a mensagem principal do cenário econômico, que é de estabilidade.
“O tracking não é escrito em pedra, é uma indicação de um intervalo. Estava em zero até a semana passada. Devemos considerar estagnação, mas existe uma possibilidade de ser negativo, sim”, afirma.
Para o economista, o pano de fundo é de desaceleração mais prolongada, refletindo os efeitos defasados da política monetária sobre o crédito e o endividamento. Ele menciona o aperto no consumo e no investimento, a rigidez na concessão de crédito corporativo e o aumento de pedidos de recuperação judicial como fatores que tendem a reduzir o ímpeto da atividade. “Esses 12 meses entre o terceiro trimestre deste ano e o segundo do ano que vem vão ser um período de crescimento muito baixo”, afirma.
Contato: leticia.correia@estadao.com
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