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Brasil, de importador de modelos a laboratório global de inovação

1 de setembro de 2026

Artigo de: Leandro Vilain

Brasil, de importador de modelos a laboratório global de inovação

Por Leandro Vilain*

Com frequência, temos recebido solicitações de delegações estrangeiras interessadas em conhecer melhor o sistema financeiro brasileiro e compreender por que a tecnologia bancária no Brasil tem sido um caso de sucesso mundial. Representantes de diferentes países querem entender como funcionam iniciativas como o Pix e o Open Finance, mas invariavelmente as conversas avançam para outros temas: pagamentos internacionais, tokenização, duplicata escritural, inteligência artificial e a forma como diferentes infraestruturas podem operar de maneira integrada dentro de um ambiente regulado.

Esse movimento revela uma mudança importante na percepção internacional sobre o Brasil. O interesse já não está apenas em conhecer ou eventualmente reproduzir uma tecnologia específica. O que outros mercados procuram compreender é como o país conseguiu construir, em escala, um ecossistema financeiro digital que combina inovação, competição, segurança e supervisão.

O diferencial brasileiro não está em uma ferramenta isolada. Está na capacidade de conectar diferentes camadas da infraestrutura financeira e fazer com que elas funcionem de maneira integrada. Estamos em um momento de convergência destas tecnologias, integrando o Pix ao Open Finance, a IA ao ambiente de crédito e comportamental, entre outros tantos exemplos desta agenda evolutiva.

O Pix é o exemplo visível dessa transformação. Desde seu lançamento, em novembro de 2020, o sistema transformou os pagamentos no país ao combinar disponibilidade permanente, liquidação instantânea, interoperabilidade e participação de instituições de diferentes portes. Segundo dados divulgados pelo Banco Central, o Pix já supera 170 milhões de pessoas físicas e registra mais de 7 bilhões de transações por mês. Tecnologia levando a inclusão financeira e melhoria da qualidade de vida das pessoas, na sua melhor eficiência.

O Open Finance amplia estes números ao conectar dados, serviços e instituições. Ao permitir o compartilhamento padronizado e seguro de dados, cria condições para ampliar a concorrência, melhorar ofertas e desenvolver novos modelos de relacionamento entre instituições e consumidores. O desafio agora é transformar a infraestrutura já construída em valor percebido pelo consumidor e pelas empresas, convergir com a Inteligência Artificial para interpretar estes dados e agregar as movimentações financeiras integrando com o Pix.

Essa evolução também alcança o crédito. A duplicata escritural pode modernizar o mercado de recebíveis, melhorar a qualidade das garantias e reduzir assimetrias de informação. Ao ampliar a rastreabilidade e segurança sobre os direitos creditórios, pode contribuir para ampliar o acesso de pequenas e médias empresas ao financiamento e estimular a concorrência entre instituições. Esse é um mercado de R$ 11 trilhões e deve ser olhado como um mecanismo relevante de acesso ao crédito com garantias adequadas.

A tokenização representa o próximo passo dessa transformação. A representação digital de ativos, depósitos e direitos financeiros pode aproximar registro, negociação, pagamento e liquidação. Seu potencial não está apenas na tecnologia de registro distribuído, mas na possibilidade de conectar ativos digitais a uma infraestrutura financeira regulada, com regras claras de governança, proteção de dados, privacidade e responsabilidade. O arcabouço regulatório precisará nos dar a segurança jurídica necessária para rompermos esta fronteira.

É justamente aqui que a experiência brasileira ganha uma dimensão maior.
Inovação financeira não nasce apenas da tecnologia. Ela depende de coordenação entre diferentes atores e de uma arquitetura capaz de combinar regulação, competição e investimento privado. O Pix foi desenvolvido pelo Banco Central, mas sua escala só foi possível com a participação de bancos, instituições de pagamento, SCDs, empresas de tecnologia e entidades representativas. Inovação bancária passa também pela comunicação ao consumidor, pela proposta de valor do serviço, pela experiência do cliente e, acima de tudo pela percepção do consumidor no benefício que ele recebe.

Essa combinação explica por que o Brasil passou a ser observado por outros mercados. Não se trata de afirmar que o país é o único a inovar, mas de compreender como o Brasil consegue escalar rapidamente estas inovações dentro de um ambiente que apresenta seus desafios. Incrível como passamos a ser referência mundial de tecnologia bancária, acelerando a competição e mitigando muitos dos nossos desafios locais, que não são poucos.

Essa posição, contudo, exige responsabilidade. Quanto mais conectada e relevante se torna a infraestrutura financeira, maior é a necessidade de investir em cibersegurança, prevenção a fraudes, resiliência operacional e educação financeira.

O sistema financeiro, no Brasil e no mundo depende da credibilidade e confiança de seus clientes, e com o uso da tecnologia esta lógica fica ainda mais explícita e precisa ser acompanhada pela segurança jurídica das transações.

Mais do que tecnologias específicas, o país tem uma experiência a compartilhar: como combinar infraestrutura pública, inovação privada, regulação, competição e interoperabilidade para construir um sistema financeiro mais eficiente e acessível.

O mundo já possui um olhar técnico para o Brasil em busca de ferramentas e inspiração. Cada vez mais, porém, procura compreender algo maior: como construir uma arquitetura financeira capaz de conectar inovação, competição e experiência do usuário.

O Brasil, que durante décadas acompanhou modelos desenvolvidos em outros mercados, já é observado como um ambiente de soluções para a próxima geração de sistemas financeiros. Essa é uma experiência que o país tem condições – e responsabilidade – de compartilhar e se orgulhar.

Leandro Vilain é CEO da ABBC (Associação Brasileira de Bancos) e possui mais de 30 anos de experiência no setor financeiro, com atuação no Brasil e em outros países da América Latina. Foi diretor da Febraban, onde liderou iniciativas voltadas à inovação, como Pix, Open Finance e Drex. Atuou também como sócio da Oliver Wyman. É engenheiro pela UFRJ, com especializações em Finanças pela PUC-RJ e em Negócios pela London Business School.

Os artigos publicados no Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.

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