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Programa Norte Conectado, maior rede fluvial de fibra óptica do mundo, tem 45% das infovias já concluídas com investimentos de R$ 1,5 bilhão.
6 de julho de 2026
Circe Bonatelli
Apesar dos atrasos causados pelo clima, o Brasil terminou quase metade do planejado no seu programa de conexão à internet por meio de redes fluviais de fibra ótica, o maior do mundo nesta categoria.
O Programa Norte Conectado consiste na instalação de 13,2 mil quilômetros de cabos nos leitos dos rios amazônicos para conectar 70 localidades que sofrem apagão de internet. O investimento total será de R$ 1,5 bilhão.
O dinheiro foi pago pelas operadoras na forma de contrapartida pelas licenças de 5G obtidas no leilão de 2021 realizado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Nesta gestão, recebeu o selo do “Novo PAC”.
A rede vai cobrir os Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima, onde a floresta e as distâncias inviabilizam a colocação de postes ou dutos para passagem da fibra em grande parte do território.
Ao todo, serão nove infovias. A promessa inicial do governo era entregar tudo até 2025. Até aqui, porém, cinco ficaram prontas, 45% do total planejado, que correspondem a 5,8 mil quilômetros. As demais, estão em fase de planejamento e implantação, com entrega estendida para até 2028. O orçamento segue o mesmo, sem aditivos.
“Nós tivemos o problema das secas sucessivas na Amazônia nos últimos anos. Foi um período difícil e que levou a essa postergação”, diz a engenheira Gina Marques, presidente da Entidade Administradora da Faixa (EAF), instituição que responde à Anatel. Ela é a responsável pela execução do Norte Conectado.
A colocação dos cabos é comum nos oceanos, conectando os continentes. Já nos rios, poucos países fazem, e limitados a trechos curtos. “Não há nenhum caso que se compare ao Brasil”, relata a presidente da EAF.
O trabalho requer balsa e mergulhadores. A dificuldade se deve ao fato de que os rios têm correnteza, pedras e bancos de areia que mudam constantemente de lugar. A profundidade pode variar até 18 metros entre a cheia e a seca, deixando cabos expostos ao calor extremo. Sem contar os riscos de rompimento da rede pela passagem de barcos e âncoras, exigindo monitoramento constante.
“As condições climáticas são fundamentais para conseguirmos realizar o trabalho”, explica Gina. Até por isso, há preocupação com os riscos que o “Super El Niño” previsto para este ano pode trazer, diz. “Se houver uma mudança de temperatura, seca e outras condições, aí realmente vamos ter que repensar o projeto como um todo, mas estamos preparados.”
O projeto envolve ainda 46 mini data centers colocados dentro de contêineres e espalhados em pontos próximos dos rios. Deste total, 23 já estão ativos (ao custo de R$ 2 milhões cada). As unidade têm captação de energia solar, refrigeração, sistema anti-incêndio, alarmes e câmera de monitoramento – feitos para resistir a todo tipo de intempérie.
Alto Custo
Uma vez que a rede é instalada, a operação e a manutenção são feitas por um consórcio de provedores locais. Parte da capacidade da fibra ótica é reservada para internet de órgãos públicos (escolas, hospitais, prefeituras etc.). A outra parte é liberada para que os provedores comercializem planos de internet para pessoas e empresas.
A infovia 04 – entre Manaus e Boa Vista – foi entregue oficialmente nesta quinta-feira, 2. O projeto executado pela EAF custou R$ 115 milhões e agora será repassado ao consórcio composto pelas provedoras Ozônio Telecom, Aquamar e Instituto Evereste.
“Cada um tem que fazer a sua conta, porque o custo mensal não é barato. Esse é o grande desafio”, diz o presidente da Ozônio, Adriano Vieira. Ele conta que a manutenção requer mão de obra especializada, além da necessidade de cumprir prazos para consertos na rede submersa. Sua empresa tem sede em Manaus e fibra ótica em 40 cidades, o que gera sinergias com o programa estatal. “A gente tem uma infraestrutura muito grande na Região Norte. O programa vem complementar isso”, conta Vieira, que atende governos, empresas e provedores locais.
Para a economia, a chegada da infovia gera uma transformação enorme, aponta Carolina Lima, diretora comercial da WebFiber, de Boa Vista, e conselheira da Associação Brasileira de Provedores de Internet (Abrint). “Em Roraima só chegava um cabo de fibra ótica, antigo, via aérea [instalado em poste]. Quando esse cabo rompe, ou quando tem queimada, a gente fica sem conexão ou com uma baixa capacidade”, diz, relatando transtornos para o dia a dia.
Nos últimos anos, a carência de internet foi suprida pela internet satelital da Starlink. A empresa de Elon Musk passou de um milhão de clientes no País, a maioria deles na Região Norte. Mas os provedores regionais ainda veem muito espaço para crescer com a fibra ótica, que tem velocidade maior e preço menor. “Essas soluções de satélites têm limitação”, diz Vieira, da Ozônio. Em sua visão, a Starlink deverá continuar atendendo as áreas mais remotas, onde a rede terrestre não conseguir alcançar. Nas cidades, a banda larga por fibra vai prevalecer, estima.
Rota para o Pacífico
O governo brasileiro está trabalhando ainda para expandir a rede para os países vizinhos da região, inclusive criando uma nova rota de tráfego de dados através do Oceano Pacífico. Isso porque a cidade de Fortaleza concentra quase todos os cabos submarinos que chegam ao Brasil vindos dos outros continentes, o que cria riscos de interrupção no serviço no caso de algum incidente por ali.
As conversas para expansão do Norte Conectado envolvem Colômbia e Peru, conta o Ministro das Comunicações, Frederico Siqueira Filho. “O objetivo com essa saída de fibra para o Pacífico é conseguir ter rotas alternativas para blindar cada vez mais nossa internet e garantir segurança e estabilidade para os serviços digitais aqui na região da Amazônia.”
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