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Eve prepara fábrica de ‘táxi voador’ em Taubaté e prevê breakeven até 3 anos após certificação

21 de agosto de 2026

Por Beth Moreira e Gabriel Baldocchi

São Paulo, 21/08/2026 – O uso do espaço aéreo para deslocamentos urbanos vai ganhar em breve nova densidade. Pelas mãos da Eve Air Mobility, empresa criada pela Embraer em 2020, cidades como São Paulo terão táxi aéreos que lembram o desenho dos Jetsons e que permitirão escalar a mobilidade “dos céus” muito além da frota de helicópteros. Pelo andar dos testes, a companhia não tem mais dúvidas de que o novo veículo é viável, tanto como produto de engenharia, como modelo de negócio, e começa a colocar em andamento um plano de fabricação da aeronave para dar conta de intenção de pedidos que já chega a US$ 13,5 bilhões.

A força da Embraer foi um diferencial para diminuir o risco de a empresa evitar o destino de concorrentes pelo mundo, que acabaram sem recursos à espera de dois caminhos incertos até a chegada dos táxis voadores ao mercado: a segurança do produto para voos e a certificação. Com os engenheiros e recursos da empresa-mãe, mais o apoio do BNDES, a Eve diz ter caixa para aguardar a certificação “sem pressa”, processo previsto para 2028, e vislumbra que o negócio comece a sair do vermelho até três anos depois dessa data.

A aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical (eVTOL), conhecida como “taxi voador”, lembra um grande drone. No modelo da Eve, o voo se dá de duas maneiras: como um helicóptero na decolagem, verticalmente, e depois como um avião, horizontalmente, quando nos céus. Uma das vantagens é que o custo chegará a ser 25% mais baixo do que o de um helicóptero e, por ser elétrico, evitará ruídos que hoje limitam o concorrente. Cada modelo custará em torno de US$ 5 milhões.

Uma unidade de apoio fabril da Embraer, localizada em Taubaté, no interior de São Paulo, deve começar a dar lugar, nos próximos meses, à primeira linha de produção do veículo. O projeto executivo da unidade, que receberá investimentos de US$ 88 milhões, já está pronto e agora está em fase de validação, segundo o CEO da empresa, o francês naturalizado brasileiro Johann Bordais.

O executivo, que recebeu a Broadcast no escritório da empresa em São Paulo, explica que o projeto prevê, inicialmente, a construção de um módulo de produção com capacidade para até 120 aeronaves ao ano. O local poderá abrigar quatro módulos ao todo, para a produção anual de até 480 aeronaves. A empresa não tem previsão, no entanto, de quando deve alcançar essa marca. “Não sabemos o quão rápido vamos chegar nesse patamar. Vai depender da demanda”, afirma.

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Fonte: Divulgação Eve

O cronograma da empresa prevê o primeiro voo com piloto humano para o segundo semestre de 2027 e certificação completa da aeronave pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e pela Federal Aviation Administration (FAA) em 2028. Certificada, a primeira entrega deverá ser feita no prazo de uma semana para a empresa brasileira Revo, que tem um pedido firme para a compra de até 50 unidades, além de serviços pós-venda, e será pioneira no uso da nova aeronave.

A Eve já possui atualmente uma carteira de aproximadamente 2,7 mil eVTOLs, distribuída entre 28 clientes de dez países, com valor potencial estimado em cerca de US$ 500 milhões. Considerando o livro de pré-vendas, o valor sobe para US$ 13,5 bilhões. A previsão é alcançar o breakeven (ponto de equilíbrio) do negócio quando o nível de produção chegar a 90 a 100 aeronaves por ano, o que Bordais estima acontecer no prazo de dois a três anos a partir da certificação.

Finanças

A Eve tem atualmente uma queima de caixa anual entre US$ 225 milhões e US$ 275 milhões, mas conta com liquidez de US$ 531 milhões. “Temos caixa suficiente para chegar à certificação. A disciplina de gastos é uma prioridade”, afirmou, descartando novas captações no mercado, pelo menos no curto prazo.

O executivo lembra que a empresa teve várias fontes de financiamento. A primeira é a própria Embraer, que detém 72% da empresa. Outra veio do BNDES, com pouco mais de R$ 1 bilhão. E a terceira, por conta da abertura de capital da empresa no exterior, em 2022. A empresa é listada na Bolsa de Nova York, com um valor de mercado de cerca de US$ 900 milhões (cerca de R$ 4,6 bilhões) – como comparação, a Embraer hoje vale pouco mais de R$ 70 bilhões na Bolsa.

Ele lembra que, a partir da certificação, a empresa entra em uma nova fase, passando a ser financiada pela receita de venda das aeronaves. O executivo destaca que a empresa revê o processo constantemente em busca de oportunidades adicionais de sinergias tanto com a Embraer quanto com os 22 fornecedores atuais. Entre eles está a empresa britânica de defesa aeroespacial BAE Systems, para baterias; a gigante multinacional japonesa, fabricante de motores elétricos, Nidec Aerospace; e a americana Beta Technologies, que fabrica sistemas de propulsão.

A essa altura do campeonato, Bordais rejeita a hipótese de inviabilidade do projeto e disse que a discussão principal deixou de ser “se vai dar certo” para se concentrar em “quando e quanto”, condicionada à escala do ecossistema e da infraestrutura.

“O eVTOl nasceu da necessidade do cliente. E a Eve tem o mesmo DNA da Embraer, que é uma referência mundial na área de aeronáutica, com know-how de 57 anos, completados nesta semana”, diz. Outro ponto, destaca, é o pós-venda, que contará com a estrutura que a Embraer já tem no mundo todo. “Nossos contratos já incluem a venda, garantia do fornecedor de serviço, de atendimento pro resto da vida da aeronave. Isso aí traz muita confiança para nossos clientes”, avalia.

Atualmente, a empresa conta com 176 funcionários próprios e outras 800 pessoas da Embraer dedicados 100% ao desenvolvimento do eVTOL, em contrato de prestação de serviços. Nesse grupo estão profissionais de engenharia, suprimentos, finanças, compliance e pós-venda. Isso dá uma força e flexibilidade para a companhia que coloca um diferencial a outros concorrentes.

Mercado endereçável

A Eve prevê que a frota global de “taxis voadores” poderá atingir 30 mil unidades até 2045, necessária para atender à estimativa de 3 bilhões de passageiros transportados nesse período. Segundo a Eve, isso deverá gerar uma receita potencial de US$ 280 bilhões.

Os números levam em conta tendências de crescimento e demanda no segmento de mobilidade aérea urbana, além de analisar fatores sociais, regionais e aplicações que impulsionam esse mercado em desenvolvimento, conforme um estudo de Perspectivas de Mercado Global de eVTOLs publicado pela companhia. A análise considerou dados de 1.800 cidades presentes no banco World Urbanization Prospects das Nações Unidas, informações de cerca de 1.000 aeroportos e mais de 27 mil helicópteros civis atualmente em operação.

A chegada da Eve ao mercado também deve ter um impacto positivo para a Embraer. Em relatório divulgado na última semana, analistas do Citi destacaram o avanço da companhia no processo de regulação e lembraram que “pouco ou nada” do valor da Eve está refletido na avaliação de mercado da Embraer. Os analistas também citaram concorrentes da Eve que hoje estão mais bem avaliadas na Bolsa, como as americanas Joby Aviantion, com valor de mercado de US$ 7,3 bilhões, e Achr (cerca de US$ 4 bilhões). Ambas são listadas na Bolsa de Nova York.

Na última teleconferência de resultados, o presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, destacou que a Eve terá um papel fundamental nos planos de longo prazo do grupo. “Estamos muito confiantes com relação à contribuição da Eve com o crescimento da Embraer, principalmente em 2029 e 2030, para complementar a nossa estratégia de crescimento no início da próxima década”, disse. O CEO afirmou que a companhia pretende acompanhar a evolução da demanda antes de decidir sobre eventuais novas unidades de produção do eVTOL.

Contatos: beth.moreira@estadao.com e gabriel.baldocchi@estadao.com

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