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7 de agosto de 2026
Por Pedro Lima
São Paulo, 07/08/2026 – A atual sucessão de conflitos internacionais – da guerra na Ucrânia às tensões envolvendo Irã, Israel e Taiwan – não deve ser analisada de forma isolada, mas como parte de uma disputa mais ampla pela hegemonia global entre Estados Unidos e China. Essa é a avaliação do professor de Relações Internacionais da ESPM Leonardo Trevisan, que, em entrevista à Broadcast, afirma que Pequim tem ampliado sua influência econômica e geopolítica enquanto Washington atravessa um período de incerteza estratégica. Para ele, a China consolidou-se como principal parceiro comercial da maior parte do mundo, ampliou sua presença no Oriente Médio e representa hoje o principal desafiante da liderança americana.
Trevisan comenta os desdobramentos da guerra na Ucrânia, a posição do Brasil diante da rivalidade entre Washington e Pequim e os efeitos do avanço tecnológico sobre a geopolítica. O professor avalia que uma eventual bolha em torno dos investimentos em inteligência artificial (IA) pode reconfigurar a economia mundial e alterar o próprio equilíbrio de poder entre as grandes potências. Veja os principais trechos da entrevista abaixo.
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Foto: Taba Benedicto/Estadão.
Broadcast: Os conflitos envolvendo Ucrânia, Irã, Israel, Taiwan e a disputa tecnológica devem ser analisados de forma separada ou fazem parte de um mesmo cenário?
Trevisan: Eu sou sempre muito cauteloso de leituras que misturam diferentes variáveis, mas parecem nítidos alguns pontos. Principalmente no segundo governo Trump, eu identifico a ausência absoluta de uma estratégia. Eu não consigo ver a estratégia. Por outro lado, vejo, do oponente, que é a China, uma estratégia muito clara, muito bem definida. Todos esses conflitos ficam mais claros quando você olha para essa dualidade. Dos 193 países que compõem a ONU, 156 têm corrente de comércio maior com a China do que com qualquer outro país. Você não pode falar mais de uma hegemonia norte-americana que não esteja sendo contestada. Me parece que nós temos subgrupos de um embate maior, hegemônico.
Broadcast: Como o senhor avalia a atuação dos Estados Unidos nesse cenário?
Trevisan: Eu desconfio que a ida do presidente Trump para Pequim trazia embutida uma promessa de uma nova Conferência de Ialta, que os dois sentavam, dividiam o mundo e vivíamos em paz. Não foi nada disso que aconteceu. Por isso comecei falando da ausência de uma estratégia. Eu li num editorial do Financial Times que os Estados Unidos não têm hoje um ministério, não têm hoje um governo; têm um presidente e uma sequência de cheerleaders. A imagem é perfeita. Ficou tudo para ser decidido no dia a dia.
Broadcast: O Oriente Médio passou a integrar essa disputa entre Estados Unidos e China?
Trevisan: A última área que tinha uma hegemonia geopolítica definida, o Oriente Médio, desapareceu. Os países árabes moderados abriram relações muito fortes com o Irã porque se sentiram pouco apoiados pelos Estados Unidos. Durante o mês de maio, todos os países árabes moderados mandaram pelo menos o chanceler para Pequim. No final de maio, Xi Jinping recebeu Mohamed bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita. O vetor China passou a ser muito forte na equação de poder do Oriente Médio. Isso é um fato. A promessa do presidente Trump de derrotar plenamente o Irã não deu certo. O regime não acabou, o programa nuclear não acabou e os mísseis iranianos continuam sendo um fator de poder.
Broadcast: O ataque ucraniano a um navio iraniano no Mar Cáspio pode ser visto como um ponto de conexão entre a guerra na Ucrânia e o conflito envolvendo o Irã?
Trevisan: Eu desconfio que Volodymyr Zelensky queria qualquer coisa para chegar ao Salão Oval dizendo ao presidente Trump: ‘Olha, eu sou um aliado teu’. Porque ele quer os mísseis Patriots. Se você olha para a decisão da Ucrânia de atacar um navio iraniano em pleno Mar Cáspio, encostado na ferrovia por onde a China leva material para o Irã, por que fez isso? Porque queria chegar ao Salão Oval com alguma coisa na mão. ‘Olha o que eu faço para ajudar’.
Broadcast: Por que a guerra na Ucrânia continua sem solução?
Trevisan: O mesmo problema que aconteceu no Irã aconteceu na Ucrânia. A guerra da Ucrânia foi empatada porque militares ucranianos aprenderam a usar drones e passaram a atacar refinarias russas. Putin está pensando na sucessão dele e não quer sair de lá com menos do que as quatro províncias conquistadas. Por outro lado, Zelensky diz: ‘Eu não vou ceder essas províncias porque senão acaba o meu governo’. Você tem um acordo impossibilitado. Tem terras raras na Ucrânia, e os dois estão prestando atenção nisso. Para não falar os três, porque a China também olha para isso.
Broadcast: A Europa está mais vulnerável diante da Rússia?
Trevisan: Sem dúvida nenhuma. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), na verdade, é um zumbi. A expressão não é minha, é do presidente francês, Emmanuel Macron. A Europa escolheu ser um gigante econômico e um anão militar. As consequências vieram. O fato real é que a Europa está cada vez com menos opções. Se tivesse mais opções, não teria tanta pressa de assinar o acordo com o Mercosul. O Mercosul passou a ser um território interessante para os europeus.
Broadcast: A Rússia representa hoje uma ameaça para a Europa?
Trevisan: Eu respeito muito o ex-presidente dos EUA Barack Obama. Ele tinha uma definição sobre a Rússia que acho que a gente tem que parar para pensar. Para ele, a Rússia não é uma potência mundial, é uma potência regional. Eu não acredito muito que tenha um projeto russo de avanço global. A Rússia foi incapaz de tomar a Ucrânia. Foi um show de ineficiência militar. Pode ser que eles tenham um projeto de reconstruir o império, mas é uma mentalidade de potência regional. É completamente diferente da China. A China é uma potência global. E não é militar, é negocial. É um projeto econômico.
Broadcast: A China busca exportar seu modelo político ou seu principal objetivo continua sendo econômico?
Trevisan: Os chineses não estão interessados em mudar o modo de vida dos outros países. Eles estão interessados em ganhar dinheiro e fazer negócios com eles. A China não tem a pretensão de mudar o modo de vida de quem negocia com ela. Isso é completamente diferente do projeto americano. “Eu não estou interessado só em fazer negócio com você, eu quero vender a minha democracia para você”, é o projeto dos EUA. O agronegócio brasileiro, por exemplo, quer um bom relacionamento com a China. O que eles querem é que a soja brasileira chegue com preço bom lá.
Broadcast: O Brasil tende a ganhar espaço ou ficar espremido na disputa entre Estados Unidos e China?
Trevisan: Todas as vezes que o Brasil fica com dupla escolha, o fantasma do Barão do Rio Branco sai do túmulo e reaviva a cabeça das pessoas. Nós não escolhemos nenhum lado. Agora o contexto novo são as terras raras. Acho que vamos usar as terras raras brasileiras de uma forma equilibrada para escapar desse jogo entre Estados Unidos e China. Não vamos cair no colo chinês, mas também não vamos brigar com os americanos. O Barão do Rio Branco ensinou como fazer isso, e acho que o Itamaraty continua aprendendo a lição.
Broadcast: Qual é o principal risco que o mundo parece estar ignorando hoje?
Trevisan: Eu temo que o fator tecnológico seja brutal e, principalmente, o risco de uma bolha em torno da tecnologia. Você não teria Donald Trump em 2016, você não teria o Brexit, se não tivesse tido a crise econômica de 2008. O risco maior é que a gente tenha uma reversão brutal de tudo isso porque o sistema econômico bate com a cara na parede e a bolha explodiu. O volume de investimento em IA é despropositado. Ninguém sabe nem onde buscar energia para fazer a IA que está sendo planejada, mas se continua investindo. Tem bico de pato, tem perna de pato, tem pé de pato, tem cara de pato: é pato. Está com muita cara de bolha.
Contato: pedro.lima@estadao.com
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